sábado, 28 de fevereiro de 2009

Que fizeram do nosso Cristianismo?





Por Domingos Pardal Braz




"COMO RESOLVER O DILEMA DUM MUNDO QUE SE AFIRMA COMO CRISTÃO MAS CUJAS OBRAS SÃO OBRAS DE ÓDIO E DE MORTE?"


"DEREIS QUE A NATUREZA HUMANA DEPRAVOU-SE POR COMPLETO?

DIREI QUE DEPRAVADO É O VOSSO CRISTIANISMO."






Em todo decurso da história humana, desde suas eras mais remotas, desde os tempos ignotos, os homens tem demandado em busca do infinito e do numinoso...


E dessas buscas pessoais teem surgido uma imensa gama de sistemas e credos religiosos como o induismo, o zoroastrismo, o budismo, o judaismo, o islamismo, etc


Sistemas tão diferentes uns dos outros quanto as estrelas diferem em grandeza e brilho...


Todavia, apesar das diferenças teóricas que lhos separam uns dos outros, todos esses sistemas religiosos, de origem puramente humana ou natural, parecem ter uma meta ou objetivo comum que é a salvação ou a libertação no post morten... todos esses credos giram em torno de um Braman, de um Nirvana ou de um paradeisos que se atinge ou por meio dos rituais ou por meio da fé.


É verdade que no zoroastrismo, no budismo, no judaismo e no islan há vislumbres duma ética voltada para o próximo ou para o grupo social...


No caso do islamismo devemos ter em conta que se trata dum sistema pós Cristão...


Todos sabemos o quanto o Corão e a Sunna devem ao monge Sarkis Bahira e a Waraqah, primo de Cadija...


No caso do judaismo estamos naquele terreno profético que é, por assim dizer uma antecipação miraculosa do Cristianismo.


No caso do antigo Egito, do Zoroastrismo ou do Budismo, sistemas completamente alheios ao sistema cristão, estamos diante de autênticos vislumbres humanos, alcançados pela força da natureza, quanto ao eterno propósito e suprema lei da Mente Infinita.


Sem embargo de tais vislumbres os antigos egipcios jamais dispenssaram uma justificação mágica ou formal, consoante o afamado "Livro dos mortos".
Também os parsis acreditavam poder conquistar a eternidade a força de orações e ritos.


Buda por sua vez não obtem a iluminação servindo ativamente seus semelhantes, mas em estado passivo de meditação e isto é sintomático. Os budistas se afastam do mal pela inação, pela paralizia ou pela destruição da vontade... e não pela prática consciente do bem tendo em vista as necessidades do próximo.


O budista certamente saberá socorrer os seus semelhantes, mas modicamente, na medida em que não atrapalhe sua 'contemplação' que é a essência mesma de sua piedade. Seu amor tem medida e a religião o mede... a fé limita o amor ao invéz de expandi-lo.


Quero dizer com isto que todos os sistemas religiosos da antiguidade, mesmo aqueles que se aproximaram do homem, acabaram por desviar-se dele e por proclamar os rituais, a fé ou a oração, COMO UM FIM EM SI MESMO E SUA ÚLTIMA INSTÂNCIA EM MATÉRIA DE PIEDADE. No fim das contas, se o jugo de servir ao próximo for pesado demais, todos eles pescrevem orações, ritos e crenças capazes de abrir magicamente as portas da eternidade... é a válcula de escape da ética.


Tal o ponto de vista terreno ou natural sobre a religião: o homem sempre poderá unir-se a deus por meio do rito, da prece ou da profissão de fé... Uma união meramente religiosa, sagrada ou espiritual sempre será possivel.


O Cristianismo, como padrão divino que é, inverte todo esse esquema natural dos pés a cabeça.


Pois não partilha desse vício comum aos demais sistemas religiosos que é desvincular a salvação e o além túmulo do homem, do presente, da ação, do comportamento e indicar-lhe justamente este caminho, como o verdadeiro caminho da salvação.


Ao contrário de todas as crenças mortas e vãs o Cristianismo tem sobre sí mesmo um sêlo único, um cárater distintivo, uma marca de transcendentalidade, e essa marca, é a relativização da prece, dos rituais e da fé... No Cristianismo não há válvula de escape ou mesmo profanidade.


Não quero dizer com isso, e não poderia dize-lo sem colocar-me fora do plano Cristão, que o Cristianismo tenha abolido a ortodoxia, o ritual ou a prece... Nem poderia aboli-los pois fazem parte da natureza mesma do fenômeno religioso. Dificilmente poderiamos conceber uma forma religiosa sem profissão de fé, sem preces ou sem ritual.


O que o Cristianismo não faz, tomando um caminho distinto das demais formas religiosas, é colocar a fé, a prece ou o ritual em primeiro lugar, como a quintaessencia da piedade... Não nos enganemos, nem nos iludamos, pois nem o ritual, nem a prece, nem a ortodoxia doutrinária constituem o fim último do sistema Cristão, antes são partes de relativa importância ordenadas para um fim último e supremo que é e não poderia deixar de se-lo ético e eminentemente ético.


O Cristianismo relaciona nossa sorte no mundo futuro e na eternidade a nossas ações e operações efetuadas neste mundo. A salvação não é oferecida apenas a alma do homem, mas ao homem todo e por isso todas as suas ações e operações são absorvidas pelo sagrado tendo em vista a ressurreição corpórea.
O Cristianismo concede nenhum espaço a profanidade ou a neutralidade, antes restaura o homem como um todo: na alma e no corpo.


O juizo divino anunciado por Cristo incidirá exclusivamente sobre nossas relações pessoais e sociais entaboladas no plano terrestre.
Se o cristão é alguém que não é do mundo, certamente vive no mundo e procura Cristianiza-lo, ao contrário do maniqueu ele não desespera do fermento!!! O Cristão não deseja ver a massa destruida mas levedada, ele crê nas virtudes conservartivas do sal e lança-o por toda parte.


Jesus não se enganou nem enganou-nos ao dizer em alto e bom som: AMAI-VOS UNS AOS OUTROS COMO EU VOS AMEI ou NISTO SABERÃO QUE SOIS MEUS DISCÍPULOS: SE VOS AMARDES UNS AOS OUTROS.


Não é pois a senha do cristão uma senha transcendente como o: 'On pad um' dos indus ou o 'Alla ilala' dos maometanos, mas uma senha imanente: a necessidade de nos amarmos uns aos outros.


Toda econômia Cristã e todos os setores e partes de nosso sistema religioso estão voltados e direcionados para essa meta que é por assim dizer o coração e a alma da religião verdadeira.


Se o coração para de nenhuma parte, por melhor que seja, poderá continuar funcionando por si mesma. O sangue para de circular e instala-se a podridão em todo organismo! Foi o que se sucedeu com Lázaro e quatro dias depois seu corpo cheirava mal e servia de pasto a vermina.


Era um cadaver - carne dada aos vermes - porque o coração cessará de bater.


Assim é a vida do homem religioso enganado pelo égo e seduzido pelos vãos desejos: fideista ele se jacta de crer, de crer com exatidão matemática as vezes e de salvar-se exclusivamente por meio dessa fé; ritualista põe todas as suas esperanças no ritual conferindo-lhe uma dimenssão mágica que não lhe foi conferida por Cristo; sacramentalista julga salvar-se a custa de comunhões; messaliano enfim confia cegamente na força de suas orações e preces, multiplicando-as sem cessar...
Como esta enganado e iludido este homem, pois extraiu o coração de sua piedade, fez apodrecer sua religião, contaminou a alma, entregou seu corpo a todos os excessos e assim todo ele cheira mal e sua fé, sua afetação e sua teologia não o podem salvar. Sua piedade é toda externa e formal e por isso ele é isento daquilo que Cristo realmente quer: obras ou frutos.
A semelhança da figueira estéril seu destino será as penas medicinais do além túmulo...


O apóstolo das nações aconselhou-nos a sempre dizer a verdade "quer agrade ou desagrade" e conforme suas palavras, direi francamente o que penso ser a verdade: penso que nada há de Cristianismo em tudo isso, quero dizer nessas teorias que propõe a fé, o ritual ou a oração como fim último de nossa santa religião, relativizando seu autêntico fim último, eminentemente ético: o serviço fraterno!!!
O que Deus mesmo estabeleceu em sua suprema sabedoria os homens novamente invertem conforme a religiosidade convencional. Eles não desejam abraçar um sistema religioso cuja salvação tenha de passar pelo homem e cujo crivo seja ético ou humanitário.


Certamente que os Cristãos devem buscar a exatidão da fé, que é algo de valioso. Tentar compreender as riquezas simbólicas do ritual também é algo de excelente, como é sumamente deleitosa a prece, o colóquio a sós com o Pai a portas fechadas... Mas a carroça não pode andar diante dos bois e tampouco a máquina ser guiada pelos vagões.


O Cristianismo possui uma ordem interna, uma hierarquia de valores, uma unidade orgânica e ela precisa ser respeitada, se lho encaramos como uma instituição divina.


Não podemos alterar o organismo Cristão e dispor dos orgãos conforme nossas preferências individuais, antes devemos nos conformar com aquela disposição e estrutura divina conferidas por seu divino fundador.


Quando professar sua fé o Cristão deve ter plena consciência quanto a vitalidade dessa fé, ou seja de que essa fé domina todo seu comportamente e constrange-o a agir. A fé Cristã não é uma fé meramente teórica como as outras, mas uma fé encarnada, que pretende animar um corpo vivo e nortear todas as suas ações e operações.


A fé cristã não pode ser neutra no que tange a campo algum da vida ou da atividade humana, devendo permea-los por completo e inspira-los todos.


Quando assistir as cerimônias do ritual deverá tentar descobrir as lições ocultas sobre cada um dos gestos encetados, especialmente aquelas que apelam a sua consciência procurando volta-la para o bem comum e os valores supremos da justiça, da caridade, da misericórdia e da paz.


Quando ler o Evangelho jamais perderá de vista as Bemaventuranças e cogitará em salvar-se sem cultiva-las. Quando ler os escritos dos apóstolos, concentrará sua atenção na primeira carta daquele que mereceu o sublime privilégio de reclinar sua fronte sobre o peito do Senhor.


Quando receber os mistérios, em especial a sagrada Eucaristia, deve saber que a recebe em si para amar ao próximo e não para odia-lo; não para fazer o mal ou omitir-se, mas para consagrar-se a toda boa obra. Pois se odeia, se prática o mal ou se compactua com ele deixando de denuncia-lo como ousará receber em sí aquele que denunciou os farizeus hipócritas?


Receba-mos aquele que passou pela vida fazendo o bem, para agir da mesma maneira e medir nossas ações pelas suas. Receba-mos o corpo e o sangue do Senhor não para ganhar ou obter a salvação mas para ter o poder e a força de opera-la.


Ninguem se salvará pelo Comunhão, pela Crisma ou pelo matrimônio, mas pelos frutos da comunhão, da Crisma ou do matrimônio. O Cristão não se salva pela graça, mas pelo uso ou emprego que faz da graça... se enterrar as moedas que recebeu responderá por isso diante do tribunal...


Os talentos não salvam a ninguem, mas a todos predispõe para a salvação. A perfeição e a santidade não se ganham se conquistam!


Enfim quando recitar suas preces, em especial a prece por excelência, que é o 'Pai Nosso" a oração que Jesus nos ensinou: pedirá a força e a coragem necessárias para por em prática a lei eterna do amor, para crescer em todas as virtudes, para apreciar e valorizar a justiça, para acolher e servir ao próximo, para odiar e evitar o mal e para denunciar o pecado e a morte sob todas as formas.


Sua oração deve pleitear as forças e energias necessárias para vencer este reino selvagem de trevas e morte e sustentar o reino da luz e da vida até o sangue se assim for necessário.


Não pode o cristão aceitar esses epitetos de fideista, ritualista, messaliano ou sacramentalista, e menos ainda vangloriar-se neles como se fossem títulos de nobreza. Antes tratam-se de ideologias podres e de teorias capiciosas que os homens inventaram para sua própria confusão, para escapar a lei suprema do amor.


Mantendo zelosamente a fé, o ritual, a prece e os sacramentos, nossa consciência plasmada em Cristo nos obriga a subordinar tudo, sem excessão, ao homem, a vida, ao amor, a justiça, a virtude, enfim a uma dimenssão ética.


É essa dimenssão ética, esse singelo realismo, esse salutar equilibrio, que leva em conta as necessidades integrais do homem encarnado que constitui o diadema mais glorioso do Cristianismo tendo em vista as fórmulas de salvação fácil.


Evidentemente que os homens vadios e preguiçosos, os acomodados e demagogos, os frageis e dissimulados, sempre haverão de oferecer ou de vender facilmente a salvação a tantos quantos se assemelhem a si em baixeza e vulgaridade. Aí de quem segue esses cegos guias de cegos!


Nos anunciamos a salvação díficil, a salvação da cruz quotidiana, a salvação que se opera no amor, a salvação que se conquista dia após dia. Tal o nosso anúncio.


Nos cremos que "Doravante são os fortes que tomam os céus de assalto." não a força de orações, mas a força de obras santas e piedosas geradas na justiça e no amor a luz do Evangelho.


E por isso indagamos: Que fizeram, que fizeram do nosso Cristianismo?


Outro hinduismo, outro zoroastrismo, outro budismo, outro judaismo?


Que fizeram da especificidade ou da peculiaridade do nosso Cristianismo?





"SE É SEMPRE O MESMO ENGODO E FALSO ENLEIO,


SE O HOMEM CHORA E PERMENECE ESCRAVO.


DO QUE É QUE JESUS SALVAR-NOS VEIO?"