terça-feira, 10 de março de 2009

Ao meu discípulo: sobre excomunhões, aborto, etc...

Prezado discípulo.

Não costumo me manifestar sobre estas coisas que saem na mídia, nem gosto de meter o bedelho em religião alheia, mas pela sua insistência, dou um breve parecer.

O povo anda meio indignado com a atitude daquele arcebispo de Olinda/Recife que excomungou o pessoal que apoiou e ajudou a realizar o aborto de gêmeos naquela criança de nove anos.

Eu, particularmente, me associo a tal indignação, mas não sem antes fazer uma observação.

Tal coisa não se trata da atitude de um arcebispo em particular. É o posicionamento da própria Igreja Católica Apostólica Romana, daqui para frente, nomeada de ICAR.

Ou seja, não tem a ver com o posicionamento particular de um líder, mas sim reflete o que a ICAR pensa a respeito do assunto.

Portanto, muitos católicos romanos parecem não entender a sua própria religião. O que o Magistério falou, naquela religião, está falado, e ponto final. “Roma não muda”, diz um velho ditado, e o povo, pouca, ou talvez nenhuma participação tenha nestas questões. No meu sentir, a grande maioria dos fiéis católicos romanos não percebe que estar naquela igreja, significa assentir a tudo o quanto ela ensina acerca de moral e de fé.

Por isso, nestas pesquisas de opinião que são feitas na televisão e demais meios de comunicação, que apontam de cinco a dez por cento favoráveis a atitude do bispo, reflete, na verdade, a opinião dos “bons católicos”, na própria perspectiva de “bom” no sentido católico, qual seja, daquele fiel que aceita tudo o quanto a ICAR diz acerca da regra de fé e de moral.

Por outro lado, a indignação do povo aumenta ainda mais quando se diz acerca do padrasto, do estuprador, do bandido que cometeu tal ato contra a inocente criança, e não fora excomungado.

Bom. Aqui, vai a opinião deste rebelde protestante. No meu entender, a ICAR deixou de ser, em alguns aspectos, uma igreja nos moldes bíblicos faz muito tempo. Na própria Escritura temos, na primeira epístola de Paulo aos Coríntios, o exemplo de um homem que tivera relações sexuais com sua madrasta. Ora, qual foi a atitude do apóstolo dos gentios ao saber de tal fato? Determinou que a pessoa que cometeu tal ato, que não se vira nem entre os pagãos, fosse excluído da igreja.

Ora, se pararmos para pensar, o crime deste homem fora mui menor do que o do padrasto que violentou a criança. E aquele fora expulso publicamente da congregação.

Por isso, Roma se tornou um estado jurídico, algo muito diferente de uma comunidade de fiéis, uma congregação, uma igreja bíblica, em certos aspectos. E os caras que legislam lá não passam pelas mesmas experiências de vida da maior parte dos seres humanos, que são pais, constituem família, etc. Ou seja, não passam, no meu entender, pelo principal crivo de escolha de um bispo, ou presbítero, prescrito nas Escrituras, como sendo alguém que governe bem a sua própria casa, antes de tentar governar a Igreja de Deus.


Então, no meu sentir, não faz sentido nenhum não ter excomungado o autor de tal crime. E nem se diga que o tal se auto-excomungou a cometer um pecado tão grave, pois o efeito de uma excomunhão pública é muito diferente, ainda mais no que tange á justiça do ato.

Em relação aos fetos também inocentes, não há dúvida que o ocorrido deve nos gerar um profundo pesar, uma profunda tristeza. Mas a vida da criança era muito mais importante. E esta, segundo informações médicas, corria risco de morte. Às vezes, na vida, ficamos diante de duas escolhas boas, e temos dúvidas, quando só podemos abraçar a uma. Às vezes, ficamos diante de duas escolhas ruins, mas temos que abraçar, no mínimo, a que entendermos ser a menos pior. Fazer aborto é algo ruim, mas permitir a criança correr risco de morte, era algo muito pior. E mesmo se não corresse tal risco, deveríamos pensar sobre a viabilidade de se manter a gestação em alguém que sequer sabia estar grávida! Você conhece a minha filha, sabe do amor que tenho por ela. Penso que teria agido como a mãe da garota. Penso ainda que seria capaz de pedir perdão ao nosso Deus, e de lamentar profundamente pela vida dos gêmeos que não nasceram. Choraria a miserável e triste condição humana. Se fosse o pastor desta família, penso que teria acompanhado o procedimento do início ao fim. Teria tentado confortar a família, orar e chorar junto com eles. Também pedir perdão a Deus caso o tenhamos ofendido em algo. Ter orado pela alma do agressor (mas sem, de modo algum, desconsiderar o fato de que deve pagar criminalmente pelo ato que cometeu). Enfim, penso que teria agido diferente do que o padre romano (para ser sincero, não sei se algum padre fez este tipo de acompanhamento pastoral).

O que é interessante é que mesmo na lei mosaica, salvo melhor juízo, havia uma penalidade diferente para quem praticava ou provocava um aborto, e que matava um ser humano. A lei mosaica, em alguns aspectos, consegue ser até bem mais moderna ...

Então é isso, prezado discípulo. Lamento por todo o ocorrido. Devemos orar, não só por esta, mas por todas as crianças que sofrem abusos covardes deste tipo. Infelizmente, tais coisas ocorrem com freqüência em ambientes domésticos, o que torna difícil a fiscalização. Não há limites para a maldade humana. Por isso, precisamos de um Salvador. Tem hora, que só nos sobram as lágrimas. Mas fico feliz que a menina, segundo a mídia, agora passa bem.

Que o Senhor tenha misericórdia de todos nós, e nos ajude, não a aumentar, mas a aliviar o sofrimento humano...