sexta-feira, 20 de março de 2009

Cristianismo sistema moral ou imoral? O problema da liberdade.

Um amigo certa vez perguntou-me quase a queima roupa:

-- Vôce está mesmo convencido de que o Evangelho de Cristo é uma espécie de compêndio de moral destinado a regulamentar nosso comportamento e a controlar nossas vidas?

Respondi-lhe: Também. Se abro o Evangelho como tenho a felicidade de fazer todos os dias e leio o sermão da Montanha ou o derradeiro sermão e me deparo com regras bastante claras sobre comportamente devo crer que foram postas ali só para enfeitar?

Meu amigo pensou um pouco e respondeu: Encaro o Cristianismo como um princípio espiritual ou uma graça e não como um sistema de moral.

Limitei-me a replicar: E onde está a oposição?

O dialogo terminou ai porque meu amigo, boa pessoa, inda que limitada, não foi capaz de compreender o alcançe da pergunta...

Desde então tenho refletido bastante sobre essa questão do alcançe do Evangelho e me persuadido cada vez mais de que a oposição moral X graça não passa dum falso dilema...

Afinal porque o Evangelho não pode conter simultaneamente (ao mesmo tempo) uma orientação moral e o princípio divino da graça?

Porque esses dois aspectos devem se opor um ao outro?

Por mais que pense não posso atinar com a tão decantada oposição entre moral e graça.

Certamente que o Evangelho contem uma mensagem de regeneração e de restauração para todos os seres, não se trata todavia duma restauração futura tendo em vista apenas e tão somente o além, mas uma restauração presente que começa ja neste plano...

Cristo não postergou a vitória do bem sobre o mal para a eternidade, ele vence efetivamente o mal em cada um dos batizados porque são seus membros?

Pode aquele que é o sumo bem ter mebros maus e dominados pelo mal?

Certamente que somos restaurados por iniciativa de Cristo, por sua encarnação nosso sacramento e adjutório, mas restaurados no que?

Reintegrados em nosso estado inicial de amizade ou contato com Deus?

Reintegrados em sua graça?

Inbubitavelmente...

Logo, somos reintegrados forçosamente no bem, na virtude e na moralidade, pois o Deus a que nos unimos é bom e a lei moral obra sua.

Não podemos estar nele e reter sua graça se praticamos o mal e vivemos imoralmente, a margem da lei eterna que reflete sua vontade eterna.

Se fomos religados a Deus é para cumprir a sua vontade e sua vontade não pode ser a prática do pecado que é a violação de sua lei.

Aqueles que afirmam a compatibilidade entre a fé ou a salvação e o pecado, equivocam-se amargamente.

Primeiro somos regenerados pela encarnação de nosso Deus, bem supremo de que não somos merecedores. Mas somos regenerados para cumprir a lei de nosso Deus e para empreender a salvação!

Não somos salvos magicamente como julgam muitos, mas regenerados para poder efetivar a salvação. Pois a salvação é um processo...

Nenhuma palavra define melhor a salvação nos termos do Novo Testamento do que a palavra processo.

Iniciada de fato por uma ato gratuito de Deus: sua encarnação, que nos restaura e nos capacita para o bem, a salvação só se efetiva pela perseverança, pela santificação e pela perfeição.

Cristo jamais disse: Permanecei imperfeitos porque sois frageis, mas SEDE PERFEITOS COMO O PAI CELESTE É PERFEITO.

Eis a pedra de toque para que distinguamos o falso do verdadeiro evangelho: O PAI PERFEITO NÃO PECA E NÃO PRATICA O MAL, LOGO OS QUE FORAM RESTAURADOS PELA GRAÇA NÃO DEVEM PECAR OU PRATICAR O MAL.

Se a regeneração é algo que se recebe, a santificação é algo que se conquista dia a dia, por isso diz o apostolo: por vossa salvação trabalhai!!!

Recebemos uma grande graça: a de poder trabalhar pela salvação, por isso não cruzamos os braços mas nos movimentamos na direção apontada pelo Verbo divino: a lei moral.

Nem poderia ser doutra forma...

É Deus autor da lei moral?

Ou afirmamos um Deus imoral?

Assim sendo ele não poderia salvar-nos sem reconstruir nossa moralidade... sem fazer-nos aptos para o bem e as boas obras...

Caso Deus salvasse os homens sem obras estaria abolindo a lei moral de que é autor, mas como pode abolir algo que concebeu e sancionou se é imutável?

Portanto Deus não pode querer que nos salvemos sem obras, pela fé somente, porque a salvação pela fé somente significaria a inutilidade de todas as outras virtudes> inclusive do amor e da esperança para não falarmos na justiça.

As obras proclamam a restauração concreta do homem integral no amor de Deus, são sinais duma salvação encarnada e visivel e não duma salvação descarnada.

Creio na encarnação de um Verbo que se faz visivel e palpavel. Por isso não posso compreender uma salvação invisivel ou uma igreja invisivel, um Cristianismo fantasmagórico ou espectral que não deseja penetrar a matéria e encarnar-se a exemplo do Senhor.

Esse Cristianismo que teima em ser invisivel como o deus dos judeus ou dos maometanos não lho posso compreender...

Sou materialista como meu Senhor que assumiu e santificou a matéria... o espiritualismo grego ou maniqueu não me seduz, um Jesus doceta não me atrai, um Cristianismo que não se faz perceber não me convence...

Aqui retorno ao meu amigo...

Passados alguns dias nos encontramos novamente e ele me disse: Não creio no Evangelho como um conjunto de regras ou normas comportamentais ( nem eu creio que o Evangelho se restrinja a isso...) porque onde esta o Espírito esta a liberdade, o Cristão é um homem livre e emancipado. Lembrei-me de Lutero mas fiquei calado, pois meu amigo, mesmo sendo protestante, é daqueles que afirma não ter parte alguma com Lutero...

Já vai longe a era em que Themudo Lessa e outros escreviam longas apologias dedicadas a Lutero e Calvino...

Limitei-me a retrucar (gosto de cutucar a onça para conhece-la melhor): mesmo para pecar e para executar o mal?

Meu amigo parou, encarou-me vivamente e após pensar um pouco teve de bater na velha tecla: se o homem é livre, certamente que sua liberdade deve comportar a possibilidade de vir a pecar ou a praticar o mal...

Logo o Cristão já por ser livre teria como que o direito ou ao menos a possibilidade de vir a pecar. Caso não pudesse pecar não seria livre...

Foi minha vez de parar e pensar...

Lembrei-me daquela bela passagem do Evangelho que diz: QUEM PECA É ESCRAVO DA MALDADE.

Jesus jamais afirmou que a pratica ou a possibilidade do pecado comporta liberdade, disse que comporta servidão, e assim o é.

A teoria de Jesus sobre pecado e liberdade não é a modernista, mas a escolástica...

A escolástica tão crucificada em nosso tempo.

Pois bem segundo a teoria clássica o HOMEM NÃO É LIVRE PARA ERRAR, PECAR OU COMETER O MAL.

Pois a liberdade tem também ela um fim que é possibilitar a execução livre da vontade de Deus.

Pecar é certamente uma possibilidade como foi para os primeiros homens, mas não uma possibilidade libertadora...

Os primeiros pais ao pecarem não nos libertaram de absolutamente nada, ou melhor nos libertaram de Deus e do bem...

A única libertação referente ao pecado é que nos liberta e afasta de Deus Nosso Senhor...

O erro, o pecado ou o mal não são usos mas usos incorretos ou abusos da liberdade, a verdadeira liberdade só existe quando dela fazemos bom uso ou um uso correto...

Portanto quando pecamos não nos tornamos livres mas escravos... A liberdade só existe para o bem...

O mal mesmo quando voluntariamente escolhido escraviza, a lei de Cristo ao ser obedecida liberta...

Quando nos furtamos a lei universal imaginamos ser livres, mas não somos... Imaginamos que a lei escraviza e que a obediência prende, mas é a oposição a lei que escraviza e a desobediência que prende.

Pela revolta e a desobediência violamos nossa consciência e alimentamos o ego... até que por fim nos angustiamos e nos debatemos, é o inferno. O amor efetivamente emancipa o homem, quando nos submetemos a lei eterna do amor, satisfazemos aos apelos da consciência, crescemos como pessoas e nos sentimos verdadeiramente livres.

Livres para servir...

Viver apenas para si mesmo, pensar apenas em si mesmo e em suas necessidades individuais e conceber-se como única lei para si mesmo não comporta liberdade alguma, mas frustração duma liberdade que não atingiu sua meta.

Não o mal e o pecado não nos fazem livres e não constituem entes necessários dos quais precisamos para viver. O Cristão fiel necessita apenas de sua consciência e da graça de Deus, possuindo ambas será livre, inda que aos olhos dos tolos se assemelhe a um escravo.

Afinal ser escravo de Deus é ser livre, enquanto ser livre de deus e legislador de si mesmo é ser escravo...

Libertou-nos Cristo e desvinculou-nos do mal para que livre e fielmente cumpramos suas leis e decretos.

Nisto é livre o Cristão: não em ser padrão de si mesmo e por poder fazer o que bem quer, mas em observar a lei de seu Senhor.

Não foi liberto da lei moral, filha e emanação de Deus, mas da rebelião urdida pelo ego que é uma lei do pecado.

Não foi liberto pela lei, mas foi liberto para a lei.

Disse Jesus: "Conhecereis a verdade e ela vos fará livres, assim, libertos pelo Filho livres sereis em verdade."

Livres do que?

Do abuso ou do uso incorreto da liberdade.

Livres para que?

Para que amemos aos irmãos como ele amou e passemos pela vida como ele passou: fazendo o bem a todos.

Eis o verdadeiro sentido da liberdade.