sexta-feira, 20 de março de 2009

A doutrina da perfeição cristã

Durante a história da cristandade ocidental, protestante, podemos verificar uma tendência denominada doutrina da "perfeição cristã", preconizada principalmente por John Wesley.

Este, pregador anglicano, criador do movimento metodista, que mais tarde viria dar forma à Igreja Metodista, aos movimentos de santidade, maior fôlego e popularização à doutrina arminiana (hoje, domimante no meio evangélico) e ao movimento pentecostal, afirmava que era possível ao cristão viver em absoluta santidade e não mais pecar.

Há um livro publicado por uma editora metodista, denominado "doutrina da Perfeição Cristã", excelente.

A doutrina Wesleyana causou alguma comoção, visto que, de modo geral, os cristãos entendem que ainda são pecadores, não obstante serem convertidos.

Penso que Wesley não negava a nossa condição de pecadores, entretanto, afirmava que Jesus veio nos salvar, não "em" nossos pecados, mas "dos" nossos pecados.

Havia até um dito popular metodista, no sentido de que, se você ficou um minuto sem pecar, pode ficar dois, se ficou dois, pode ficar três, se ficou três, pode ficar seis, e assim sucessivamente...

E assim, o cristão, vivendo em estado de graça, não era mais obrigado a pecar, visto que, se Deus deu uma ordem, dá também a potencialidade para que os pecados não mais ocorram...

Particularmente, e intelectualmente, nada tenho contra esta doutrina. Sem sombra de dúvida, ninguém é obrigado a pecar, e a tentação, em si, não é pecado. Caso isso se afirmasse, dada estava a desculpa para se pecar infindamente...

Entretanto, é forçoso reconhecer, em minha opinião, a dificuldade de se manter constantemente neste estado chamado de graça, e a possibilidade para o pecar é sempre uma realidade. Daí, todas as igrejas manterem sempre em seu ato litúrgico, seja indiviudal ou coletivo, alguma forma de contrição pelos pecados cometidos.

Cada cristão, sem dúvida nenhuma, deve olhar para a doutrina da perfeição cristã, e almejá-la como meta de sua vida; mas talvez seja bom não se iludir pensando que se a alcançou, deixando tudo para o julgamento de Deus. Isto porque, no meu sentir, costumamos olhar para a questão do pecado de forma muito jurídica, entendendo-o como atos negativos, coisas ruins que fizemos, transgressão aos mandamentos e a lei, preceitos que transgredimos em seu sentido negativo. Entretanto, deixar de pecar, neste sentido, não é virtude alguma. Não basta de mera obrigação de nossa parte. Ninguém pode se gloriar porque deixou de adulterar, cobiçar ou roubar. Isto é o mínimo que qualquer mente razoável pode almejar para ter um mínimo de saninade, seja individual ou coletiva. O problema é quando pensamos nos atos positivos, visto que, saber fazer o bem, e não praticá-lo, em si, já é pecado, ou seja, os pecados por omissão. Quem sabe fazer o bem, e não o faz, já peca. Há sempre uma possibilidade, no meu sentir, de se estar equivocado diante da sua própria condição, daí, talvez, o salmista pedir perdão, inclusive "dos pecados que lhes são ocultos".

De qualquer modo, ainda que viva de forma inteiramente santa, é, em minha opinião, central na doutrina cristã a idéia de que Cristo morreu pelos pecados da humanidade, o justo pelos injustos. E que, esta possibilidade, a de se viver santamente, só existe justamente por causa de seu sacrifício. Tenho por mim que apostatar deste entendimento é apostatar de um dos alicerces principais da fé critã...

Se a humanidade pudesse, no meu entender, salvar-se "à parte de Cristo", não precisava o Filho de Deus ter vindo ao mundo. Bastava "ditar" um manual, um livro lá do alto, e continuar a ficar confortavelmente sentado em seu trono celestial...

Mas isto não ocorreu. O Filho de Deus não tomou o ser igual a Deus coisa a qual devia se apegar, e, tomada a condição humana, morreu a morte de cruz, e ressuscitou para, de fato, destruir o pecado, rasgando o nosso escrito de dívida. Ou seja, a doutrina da encarnação e de que o Filho de Deus experimentou a morte por nós, pecadores, é fundamental em nosso sistema cristão.

Apesar de Paulo afirmar categoricamente que "os gentios, quando não têm lei, procedem por natureza de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos, mostrando a norma da lei escritas em seus corações" (isto, descrevendo nos primeiros versículos de Romanos a condição, tanto do judeu, quanto do gentio), tão somente uma meia dúzia de versículos depois afirma que "todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (3.23), de modo que, Cristo é fundamental para todos, sem exceção. O que Paulo quis dizer é que, nem o judeu, detentor da lei mosaica, nem o gentio, detentor da lei natural, vivem de acordo com tais preceitos, pois "não há nenhum justo, nem um sequer". Mesmo universalistas, de Orígenes a John Stott, não entendiam a salvação do mundo inteiro à parte de Cristo. Todos precisam dele para se salvar. Por melhores as obras que os gentios possam praticar, e, em não poucos exemplos, até melhores e mais virtuosas dos nominalmente cristãos (Wesley chegoua afirmar que os índios americanos, em muitos aspectos, eram muito masi cristãos do que os educados ingleses - o que lhe custou o preço de nunca mais poder pregar em Oxford), ainda assim, não podemos ter uma visão romântica da existência como se os tais não precisassem também de Cristo e fossem impecáveis. O próprio Wesley não mediu esforços para pregar o evangelho onde que que pudesse estar, pois a ordem é que se pregue o evagelho a toda a criatura.

Por isso, não podemos entender a doutrina da perfeição cristã, em Wesley, afastado deste entendimento; que a tal perfeição é impossível à parte de Cristo. E Wesley também não confundia, mas também não separava a doutrina da justificação com a da santificação, como geralmente fazem os católicos.

De modo que fica para nós este desafio. O de não mais viver me pecados. Sejam eles por ações negativas ou por omissão das obras positivas. Pois Jesus morreu para salvar o seu povo "dos" seus pecados, e não "nos" seus pecados. O que talvez tenha causado mais reação à doutrina wesleyana foi o fato de seus seguidores dizerem que é impossível ao cristão pecar. Bom... se isso foi verdade na vida deles, melhor para eles. Em minha própria experiência pessoal, e das do que tenho visto e convido, percebo que o pecado é uma possibilidade na vida do cristão. Por isso, como escrevi, todas as igrejas, sejam em sua liturgia coletiva ou particular, destinam um espaço para contrição, confissão e arrependimento dos pecados.

Mas voltando ao raciocínio, todo o cristão deve, sim, buscar uma vida sem pecado; sem pecado nenhum; deve, sem dúvida, buscar a "theosis", unir todo o seu ser a Cristo (esta é a única fé que salva, não a do assentimento intelectual, mas sim a da união do ser com Cristo), e exterminar, como a um caçador sem piedade as suas concupiscências (Col 3.5), e, ter em mente, que tudo o quanto nos foi escrito, conforme disse o apóstolo do amor, para não pecarmos, mas caso isso ocorra, "temos um advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo, que é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro"... Adúlteros, assassinos e apóstatas poderão entrar, caso se arrependam, pois a misericórida triunfa sobre o juízo...

Carlos Seino.