quarta-feira, 18 de março de 2009

Graça útil X graça fútil...

Não pretendo redigir um tratado de graçologia...

Como oriental só posso esboçar um sorriso diante da tendência agostiniana de classificar 'graças' como o entomologista classifica insetos...

Um dos continuadores do Bispo de Hipona, escreveu a última página dessa curiosa enciclopédia, postulando a substancialidade ou materialidade da graça. Noutras palavras concebeu a dita graça como um ser existente ou como uma personalidade renovando os erros dos antigos pagãos que personalizaram os sentimentos e as virtudes: a justiça, a concórdia, a amizade, etc

Efetivamente a personificação dos fenômenos é uma tendência humana bastante comum.

Diante de tanta ginástica intelectual só posso mesmo rir.

Concebo a graça como estado de união com Cristo. Está em graça aquele que está em Cristo e em desgraça aquele que não está nele.

Não sou capaz de compreender a dita graça doutra maneira, para mim a graça é sinônimo de comunhão ou de amizade com o divino Mestre.

Não compreendo a graça como um poder mágico, mas como a posse duma vida espiritual que nos capacita a viver santamente. Aquele que está em comunhão com o Deus Santo, Santo deve ser e não pode haver meio termo... ou meia santidade...

Se a graça é estar em união com a Fonte Suprema de todo bem sou levado a concluir que a graça deve tornar bons tantos quantos dela se apropriam...

Portanto aquele que prática obras mas este não pode estar verdadeiramente em Cristo, do contrário suas obras seriam como as de Cristo. Ou cremos que Cristo é suficientemente poderoso para nos capacitar a viver como ele viveu ou Cristo não serve para nada...

Para mim uma santidade ou justiça puramente jurídica não tem valor algum, cheira-me a farisaismo. Cristo porém condenou a todo instante as obras más dos fariseus.

Não condenou a fé dos fariseus, porque o farisaismo era a ortodoxia e ele mesmo era doutrinariamente fariseu. Condenou o comportamento dos fariseus.

Logo o Cristão não pode viver farisaicamente ou seja praticando o mal e pecando com a desculpa de que é fragil, miserável, inerme, etc

Não desejo entrar no mérito do que seja o mal e o pecado ou da situação do homem antes de estar na graça de Deus... Pretendo abordar essa questão no próximo artigo.

Por hora me interesa apenas a questão do homem cristão, conhecedor de Cristo, batizado, e portanto em posse da graça... Estou balizando muito bem o que digo: refiro-me ao homem novo que esta em Cristo e não ao homem natural.

Admitirei com os protestantes que o homem natural, isento da graça de Deus não tem forças suficientes para praticar o bem e viver piedosamente. Mas advirto desde já que não confundo A GRAÇA DE CRISTO COM O CONHECIMENTO DE CRISTO E TAMPOUCO COM A FÉ.

Aqui faço uma ressalva muito importante: quando digo que o homem natural não é capaz de perseverar na prática do bem, não quero dizer com isso que este mesmo homem não possa discernir, querer, desejar e abraçar ao bem, ou seja apreender a verdade divina e abraça-la exercendo fé. Se concordo com os protestantes no que tange a força para obrar o bem e a virtude não posso concordar com eles no que tange ao intelecto, a compreenção e a fé.

Como cristão admito que a natureza humana foi ferida pelo mal ou debilitada, mas não creio de modo algum na teoria da corrupção total que Agostinho tomou de empréstimo a seus mestres maniqueus.

Tenho sempre diante de mim o primeiro capítulo da Epistola de Paulo aos romano, no qual ele afirma que o homem natural será julgado pelo conhecimento natural que obteve da divindade por meio da razão. Por ai se vê que o pecado não privou os seres humanos do exercício da razão ou da capacidade de discernir e de optar.

Se admitimos a corrupção total da natureza, inclusive do intelecto, a única teologia possivel é a de Calvino e da predestinação...


Logo: minha compreenção de soteriologia é a de Justino, Origenes, Eusébio, etc A qual tornarei como já foi dito na próxima postagem.

Concedo que o homem natural esteja como que preso e amarrado ao pecado carecendo de um libertador.

Esse libertador é Jesus Cristo que unindo a si toda a humanidade lhe concede a graça por sua encarnação (ih Já me antecipei!!!)

Agora demos um passo a frente e abordemos outro tipo de situação, que já não é a do homem natural, mas do homem sobrenatural. Refiro-me ao homem que tendo ouvido o anuncio da boa nova, exerceu fé, recebeu o batismo e filiou-se a igreja... esse homem, o homem Cristão, o crente, pretende estar na graça de Cristo e em união com ele.

Aqui começam nossos desencontros e não podemos mais nos entender.

Pois parte da Cristandade tem compreendido que a situação do homem restaurado não é de modo algum a situação do homem natural. Todas as coisas se fizeram novas afirma o apóstolo bendito...

Quando afirmamos - porque faço parte dessa corrente, as vezes denominada semi-pelagiana e as vezes pelagiana - que a situação é diferente, queremos dizer com isso que o homem foi salvo não apenas do mal ou como dizem do inferno, mas do pecado.

Se não entrou na comunhão de Cristo por obras, certamente nela entrou PARA as obras.

Se sem Cristo nada pode fazer, com Cristo pode tudo, pois é Cristo quem o fortalece...

Da mesma maneira como o aparelho de TV é uma coisa quando desligado da tomada e outra totalmente diferente ao ser ligado a tomada assim é aquele que se liga a Cristo e vive na graça, comporta capacidades ou habilidades que o homem natural não possui e por isso não pode agir como ele...

Se o homem privado da graça é como caniço brandido pelo vendaval, o Cristão é como árvora frondosa plantada no jardim de Deus. São realidades diferentes e não há como confundi-las.

Confundir a situação do homem natural com a condição do homem Cristão é expor-se aos piores erros em matéria de fé e prática.

O advento da doutrina fetichista da salvação vicária ou jurídica foi a pior catastrofe que se abateu sobre a instituição Cristã, engendrando uma maré de apostasia que não deixou de crescer até hoje. Pois o homem não há que se satisfazer com uma religiosidade artificial, na medida em que seu intelecto ou sua cosciência amadurece, aspira por uma religiosidade vital...

Misturar as duas realidades: do antes e do depois de Cristo equivale a supor que Cristo só se fez carne para prover-nos duma etiqueta... ou dum rótulo...

Mas a graça é justamente isto: força ou capacidade para executar firmemente a vontade de Deus.

Não pode se suceder que o homem deseje o bem ou seja cumprir a vontade de Cristo, viver piedosamente e a graça não o assista ou capacite, permitindo que ele caia...

Uma graça que falhe ou que desampare o homem de boa vontade é absolutamente inutil é vã. Não serve para nada, é mero enfeite, artificialidade...

A graça de verdade assiste a todo que cre e impede-o de cair na tentação ou seja de pecar.

Por isso se diz que os verdadeiros servos de Cristo não estão dispostos para o mal e o pecado, porque a graça lhes é util e os preserva.

É uma graça.

Coisa que torna possivel, que capacita, que modifica, que sustenta, que santifica, que aperfeiçoa e que plasma nos batizados a imagem de Cristo, daquele Cristo crucificado e morto para o mundanismo.

Imaginemos que o Cristão lê as bemaventuranças - que deveria ler todos os dias para que elas dominassem seu subconsciente - e que deseja vive-las... O homem natural diria para si mesmo é muito dificil, é impossivel, é utópico, não posso, minha natureza é frágil... O homem assistido pela graça verdadeira cumpre-as, porque o poder de Cristo lho reveste e Cristo nele vive. Se não pudesse vive-las como o homem natural e só lhe restasse tecer lamúrias a graça lhe seria uma desgraça e ele um derrotado como qualquer mundano.

Não há como fugir desta verdade prístina: a graça dispõe o Cristão a única adoração verdadeira que é a obediência a Cristo...

Manual que caiu do céu já o temos: O sermão do Monte, as bemaventuraças, o último sermão referente ao juizo, e o Evangelho todo por sinal...

Não há como negar que o Evangelho contenha uma parte legal. Lutero ousou nega-lo porque era um fanático e quiçá metalmente afetado...

Os padres, como diz o apóstolos deram aos hebreus leis não boas e que não podiam ser cumpridas em sua totalidade.

E porque o Eterno permitiu que eles se enganassem e promulgassem tais leis?

O mesmo apóstolo responde: para que se desesperassem de se salvar por meio da lei, sem fazer caso da graça ou do poder de Deus!!! Deu a esse povo leis que não podiam observar para que se voltassem para o messias prometido!

Como pois se diz que a lei de Cristo, lei eterna e definitiva, lei santa e perfeita, lei pura e imaculada não pode ser observada, tal e qual a lei dos hebreus... Tal situação nos levaria a desesperar e a descrer de Cristo, mas isto não se sucede...

Pois por Moisés veio apenas a lei...

Ele nada sabia da verdade e da graça.

Nosso legislador todavia é muito superior a Moisés, porque é o Mestre da Verdade e o autor e consumador da graça.

Conclusão: possuimos um manual objetivo ou mapa da salvação que é a lei Evangélica, lei sem a qual é impossivel agradar a Cristo! Temos uma verdade revelada e custodiada pela mãe igreja e temos por fim acesso aquela graça grandiosa que nos permite cumprir a lei de Cristo e viver como é de seu agrado: na luz e não nas trevas, superabundando em obras e não pecando, praticando o bem e não o mal, imitando ao Justo e não a Judas ou Caim...

Tendo pecado nos tempos de cegueira ou ignorância, quando estava afastado de Cristo, aquele que passou a viver ele rompeu com o pecado, venceu e já não peca mais. Quem é de Deus não vive pecando afirma o Apóstolo do amor!!!

Quem vive pecando ou não está na graça o despreza a graça e sendo assim não pode avançar espiritualmente enquanto não abandona o pecado.

Não pode haver concomitância entre a fé, a esperança, a caridade e o pecado. O homem não pode servir a dois senhores; uma árvore não pode produzir frutos bons e maus; uma fonte não pode verter água doce e amargosa...

Afirmar a salvação no pecado não é glorificar a graça mas anula-la. Pois o mal é a negação da graça.

Se se afirmar que Cristo leva o ímpio ao céu como ele é, sem que suas obras se modifiquem ou que exerça penitência, é afirmar que Cristo não foi capaz de destruir o pecado nele...

Por isso afirmamos que Cristo vence e destroi o pecado no pecador, não alegorica ou vicariamente, mas verdadeiramente, fazendo dele um santo.

Cristo toma um perseguidor cruel e dele faz um Paulo ou não faz coisa alguma...

E assim faz um Basílio, um Francisco, um Wesley, um Abeé Pierre, etc Eis o produto da graça cooperando com a boa vontade.

A boa vontade dispõe e a graça cumpre...

Isto é a graça e não teoria sobre a graça.

Acontece que desde o ventre materno os sentidos humanos captam o pecado, assimilam uma cultura que comporta elementos pecaminosos e cria conexões neuronais que atraem e dispõe os homens ao pecado.

Certamente que a fé, o batismo, a graça e os demais sacramentos divinos não destroem tais elementos pecaminosos ou germes maléficos presentes em nosso subcosciente. Tal a origem daquilo que se chama tentação: impressões ou imagens do pecado que se encarnaram ou hipostaziaram nos homens...

Tais impressões não podem ser apagadas e acabam por produzir um conflito interno nas almas dos santos e justos, enquanto procuram alicia-los tendo em vista o pecado: é o que se chama tentação.

Todos os cristãos são tentados por essas imagens ou impressões que os antigos demoninaram concupiscência, todos sentem que a natureza lhos convida a pecar.

Ser tentado porém não é pecar.

Só pode haver pecado quando a assentimento e deleite.

Aquele que esta em Cristo porém sempre poderá resistir e vencer.

Cristo conhece nossa fé, nosso amor, nossa dedicação, os constragimentos que as tentações causam aos justos equivalendo a um mártirio lento e se permitiu que seus adoradores passassem por tal situação foi prevendo que eles triunfariam e grageariam merecimentos eternos.

Conservando a boa vontade e cooperando com a graça o Cristão esta apto a resistir a toda e qualquer tentação, pois a tentação não pode constrange-lo a pecar.

A minha graça te basta, disse o Senhor ao Apóstolo!

Portanto a tentação não pode vencer a graça e destruir o Cristo que vive em nós.

A graça é um princípio superior porque procede de Cristo, não pode pois ser anulada!!!

Pecar é pois uma opção consciente duma vontade que decidiu privar-se da graça e romper com Cristo. É um estado anormal ou anomalo na vida do Cristão e de forma alguma uma constante.

A igreja apostólica só absolvia os pecados três vezes, a excessão do adultério, do assassinato e da apostasia que eram considerados imperdoáveis...

O Cristão que pecou assassinou o Verbo que nele habitava, como diziam os antigos recrucificou seu Senhor...

Os antigos sabiam detestar o pecado, muitas vezes até o sangue, pois criam de fato na vida eterna e viviam pela graça.

Os Cristãos de hoje merecem mesmo ser chamados de Cristãos de palha, porquanto encaram o pecado com naturalidade, dizendo frequentemente: Todos pecam... A natureza é fraca... Quem nunca pecou? e outras quejandas!

Oh inconsequência, afirmam que o tal pecado foi o preço do sangue do Senhor, e entretanto justificam o pecado e admitem viver pecando, ou seja vertendo aquele sangue como os soldados romanos!!!

No próximo artigo analisaremos a questão da fé, da graça, dos pagãos e da salvação e de como a Cristandade afirma viver em pecado porque perdeu a própria noção de pecado aderindo a teorias maniquéias.