sexta-feira, 20 de março de 2009

A grande alma de Wesley.

Sempre sonhei em formar uma mesa redonda com teólogos e doutores das mais variadas correntes e debater com eles os principais temas da vida Cristã...

Infelismente não pude faze-lo porque muitos teologos ainda vivem de anatemas, excomunhões e infernos... ora eu não creio em nenhuma dessas 'tralhas' mas apenas e tão somente na caridade.

Embora seja constrangido a amar esta ortodoxia que encaro como lídima expressão da verdade revelada e incorrupta, sou mais constrangido ainda a amar os heterodoxos, porque eu mesmo fui heterodoxo crendo ser ortodoxo e estar na verdade plena...

Não me comprazia no erro, não mentia, mas de tinha o coração voltado para Cristo e a consciência limpa de qualquer delito...

Aprendi pois a compadecer-me do heterodoxo e a encara-lo com franca simpátia, MESMO PORQUE - como dizia o mestre dos Bispos da Gália - PARA ELE O HETERODOXO SOU EU.

Portanto, se desejo ser encarado com simpátia...

Ao menos nesse ponto fico com o pai do gracismo, Agostinho de Hipona: odeia apenas os erros e teorias, aos que estão equivocados, ama apenas.

Nem estimo falsas doutrinas tendo em vista a honestidade dos que lhas professaram, nem encaro tais homens como ímpios ou réprobos...

Uma religião que me obrigasse a odiar os que não lha professam se me parece demasiado bárbara e selvagem.

Nem por isso consegui realizar meu velho sonho...

É para mim um grande prazer e uma verdadeira alegria ler os artigos do Dr Seino, mas... infelizmente - isto é uma gracejo - ele é arminiano ou wesleyano e o arminianismo antes de existir weslyanismo já havia sido definido pelos calvinistas de Dordth como um retorno ao papismo (ou a ortodoxia oriental neste ponto de pleno acordo com o papismo)...

E os calvinistas não são luteranos... pois Calvino afirmou a necessidade de que os salvos exerçam obras. São frutos necessários da FÉ, portanto...

Fica díficil polemizar com Wesley, porque Wesley sempre combateu o que nós combatemos e pelo que combatemos: a doutrina ortodoxa e santa da perfeição Cristã, estampada em cada página do único Evangelho... Que dizer então de Fletcher de Madley???

Até que ponto Wesley ou Fletcher tinham consciência de estar refutando as vãs teorias de Lutero, não o sei, mas que estavam, estavam...

O protestantismo hoje - afirma-o Dr Seino - em sua maioria (se assim o é não o sei eu mesmo, mas dou crédito a palavra de meu bom amigo ) regeita o antinominiasmo, Lutero todavia apregoou o antinominiasmo em alto e bom som e morreu professando-o essa teoria recebida pelos anabatistas e mantida por eles até o dia de hoje como pedra de toque de toda a ortodoxia.

Quando era jovem pude ler as vidas dos principais reformadores em diversas ressenções, a maioria das quais protestantes inclusive, e de tal leitura produziu em minha alma um imenso amargor e uma imensa indignação que me acompanha até hoje...

A igreja papista devo a maior conquista espiritual de minha existência: A LEITURA DIÁRIA E MEDITADA DO EVANGELHO.

O protestantismo apresentou-me o Velho Testamento e a epistola aos Romanos, mas, nada me disse de especial sobre os Evangelhos.

Do protestantismo recebí os Evangelhos como parte de um livro.

Do romanismo recebi os Evangelhos como parte principal do livro.

Também do espiritismo aprendí algo e parece-me de acordo com a mentalidade ortodoxa: aprendi o Evangelho como O livro, O livro pleno, O livro que satisfaz...

Disto não abro mão. Não estou nem um pouco disposto a fazer a volta do parafuso e ir de Jesus a Moisés ou quem se fez passar por ele... Não troco Jesus nem mesmo por Paulo, o homem que mais admiro e acato depois dele...

Leio Paulo sim, mas numa perspectiva Cristologica, não submeto o Cristo ou o Evangelho a Paulo, mas Paulo a Cristo e ao Evangelho, se é que há alguma discrepância entre eles o que desde já nego.

Paulo, bem compreendido, não pela leitura duma só epistola ou pela leitura linear de cada uma delas, mas pela leitura cronologica de todas, revela-se como perfeito anunciador do Evangelho.

Os paulinismos todos partem todos duma leitura isolada e superficial da primeira epistola escrita pelo grande apóstolo e enviada a igreja de Roma.

Nós Examinamos essa epistola em seu corpo, em seu lugar e levando em conta o texto grego.

Mas tornemos as vidas dos reformadores...

Para mim o contraste entre tais vivências e os valores evangélicos foi marcante...

Entrei em pânico.

Como nunca tinha ouvido falar em arminio ou Wesley o metodismo e até mesmo o anglicanismo (que sob sua forma alta ou anglo católica é perfeitamente ortodoxo, tendo repudiado os preconceitos luteranos) eram encarados por mim como seitas tão perniciosas quanto o luteranismo ou o calvinismo...

Depois fiz um esforço dialético para superar tal estado de ânimo e acabei estudando detalhadamente a História do anglicanismo e de sua verdadeira restauração espiritual na ortodoxia, iniciada pelo Santo Arcebispo - Mártir por sinal - W Laud. Hoje nutro uma simpátia e carinho infinitos já pela alta igreja, purificada dos elementos protestantes, já pela igreja larga e sua teologia liberal, talvez mais pura do que a ortodoxia no que tange aos elementos judaicos, em que pese suas liberdades para com o evangelho e a tradição...

Posteriormente pude ler a vita Wesley de Flitchett começando pela vida de sua mãe Susana.

Era Susana quando jovem uma espécie de membro de igreja baixa, com tendências já anabatistas, calvinistas.

Entrementes naquela geração iniciou-se uma grande obra saneadora, promovida pelo romanismo no continente, por certos elementos do luteranismo na Alemanha e pelo alto anglicanismo na Inglaterra. Refiro-me a publicação das primeiras coletaneas de obras dos padres da Igreja ou bibliotecas patristicas...

A mãe de Wesley teve acesso a uma dessas bibliotecas e leitora insáciavel - até nisto somos parecidos - devorou-a em menos de um ano, ao termo do qual aderiu fervorosamente ao alto anglicanismo sob sua feição laudiana... O mesmo viria a suceder-se com tantos e tantos outros protestantes e romanistas inclusive comigo.

A História de Susana Wesley é também a minha História e julgo que ter nascido dessa mulher fascinante foi um grande privilégio.

Perguntou-me o Dr Seino certa vez sobre minhas experiências religiosas...

Jamais tive isso que se chama experiência mística.

Ou se tive, quando conheci de passagem a RCC, encaro-as atualmente a partir duma perspectiva psicologica e afirmo que não me acrescentaram nada e que nada me trouxeram de bom...

Esperiências vitais ou intelectuais imensamente ricas tive duas, ambas na igreja romana.

A primeira já o disse: foi aquilatar o valor dos evangelhos e não creio que possa haver experiência maior ou superior...

No protestantismo muito ouvia falar em Evangelho ou Evangélicos, mas esse Evangelho era algo de muito vago que começava lá no Gênesis e terminava no apocalipse. Ainda ontem um de meus alunos, jovem de viva inteligência por sinal, disse-me que em sua seita o pastor afirma que Jesus é o autor do genesis e de todo o Velho Testamento, os quais por isso mesmo nada ficam a dever aos evangelhos...

Eu vivi isto, exatamente isto e não gostei nem um pouco.

Minha segunda experiência foi idêntica a de Susana Wesley, foi o conhecimento da tradição eclesiásticas ou das obras dos padres, conheciment0 que me levou a romper justamente com a igreja romana, a igreja que me fizeram conhece-los...

Paradoxal...

Depois lí a vida de Wesley e surpreendi-me ao verificar nela as mesmas tendência que as tendências presentes na vida de sua mãe, um afastamento gradativo das teorias e preconceitos luteranos e uma aceitação sutil, mas gradativa de princípios romanos ou ortodoxos: como sinergismo, perfeição, marianismo (Wesley no fim da vida afirmou tacitamente a virgindade perpétua de Maria), etc

Wesley ouso dize-lo é um espírito católico ou no mínimo catolicizante...

Alguém que como sua mãe vai se afastando cada vez mais da ortodoxia protestante. Seus contemporâneos 'ortodoxos' já luteranizantes, já calvinistas perceberam-no claramente e ferretearam-no como herético... e quem lho ferreteou foi Watfield...

Arminius ja fora anatematizado cem anos passados... e nem chegará a teologia da perfeição, magnificamente descrita pelo amigo Seino.

Para Lutero perfeito é quem cre e para Calvino perfeito é quem é predestinado. Nada mais alheio ao pensamento de Wesley.

Só posso compreender o Cristianismo como essa grande alma, sem concessões a Lutero e seu Cristianismo derrotista perante o mal...

Sou limitrofe e não posso entender esse Cristianismo que se dirige aqueles que desejam cumprir a lei moral para lhes dizer: Inutil, não conseguireis, não tens força suficiente...

Se a finalidade da graça - porque a graça é funcional - é o cumprimento da vontade do Deus bom, devo concluir que Deus conceda liberalmente sua graça a todo homem que deseje praticar o bem e de viver conforme sua soberana vontade.

Se o homem deseja-se viver bem e Cristo não lhe concede-se sua graça Cristo seria o responsavel por seus pecados.

Portanto Cristo sempre corresponde a boa vontade do homem concedendo-lhe sua graça.

Se a graça é gratuita como ser diz, fruto da encarnação de Deus, sacramento universal de salvação, não se pode admitir que seja trocada pela fé.

Porque se a graça é condicionada pela fé, é graça comprada, comprada pelo preço da fé e não gratuita.

Ou essa amizade é gratuita, liberalmente oferecida a toda a humanidade sem condição ou preço.

Ou trocada, comprada, negociada... tendo em vista a fé...

Ai já não é graça.

Afirmareis que a fé já é em si uma graça, com Agostinho.

Sois predestinacionistas...

Eu não o sou.

Creio que a fé é uma resposta ou assentimento intelectual da natureza tendo em vista a divina revelação ou seja a tudo quanto Jesus fez, ensinou e determinou.

Não creio que a fé seja um virtude infusa posta por Cristo dentro do homem. Seria aderir ao Cristianismo mágico...

Creio num Cristianismo que é divino, num princípio espiritual e invisivel (que tende a encarnar-se sempre), num germe, força e energia transcendente, mas que opera em conformidade com a natureza, sem destrui-la. Não sou maquiqueu, não sou fetichista...

Sobrenaturalismo certamente... anti-naturalismo não.

Creio que a natureza corresponde ao pensamento e a vontade de Deus e não a um princípio paralelo e oposto a ele.

Graça por graça no sentido de dom ou presente gratuito, a razão e a boa vontade também o são, tudo é graça inclusive a natureza filha de Deus...

Porque se a natureza é uma desgraça, deve provir doutro artífice...

Não dispensamos de forma algum os frutos da encarnação de Cristo, fonte e principio de nossa restauração, mas tampouco regeitamos a cooperação humana pela qual se obtem a santidade e a perfeição.

Uma coisa é regeitar os talentos divinos... não lhos regeitamos.

Outra enterrar os ditos talentos no chão, sem explorar suas potencialidades...

E são muitos os que querem ser santificados e aperfeiçoados pela posso dos talentos, sem se esforçar para faze-los render ou para multiplica-los.

Nós temos algo a fazer com a graça de Deus. Temos a graça de Deus para fazer algo.

Não dispensamos o sacramento de Cristo, mas tampouco lho recebemos como algo pronto e acabado, do apóstolo recebemos a ordem de: COMPLETAR NA NATUREZA O QUE FALTA A PAIXÃO DE JESUS.

E que falta a paixão de Jesus?

Falta que nós a empreguemos bem e nos tornemos santos e perfeitos, que assimilemos seu cárater e reproduzamos sua imagem...

Como podemos faze-lo?

Temos um mapa ou manual vindo do céu e baixado a terra, a constituição do Reino de Deus: O Evangelho da glória.

Honramos pois a graça quando tudo cumprimos e não pecamos.

Evidenciamos não possuir a graça ou lha perdemos quando desobedecendo as ordens do crucificado, pecamos.

Nos próximos artigos examinaremos a doutrina do pecado e da penitência nos séculos da fé (I - IV) e o complexo do pecado na mente da Cristandade atual.