segunda-feira, 30 de março de 2009

O Antigo Testamento e a prática da justiça

Por Carlos Seino


Nos, os evangélicos, gostamos muito de fundamentar algumas passagens do Antigo Testamento para justificar a nossa práxis, como por exemplo, recolher os dízimos na Igreja.

Mas fico a me perguntar se não acabamos por passar de largo de muitas outras passagens, igualmente importantes, e talvez, muito mais relevantes para o nosso contexto.

Não desprezo o Antigo Testamento; acho que, em muitos aspectos, ele é um tanto quanto atual; de qualquer modo, não podemos nos furtar em contextualizá-lo devidamente.

Este não pretende ser nenhum estudo histórico-exegético do antigo pacto, mas somente uma revisitação devocional de algumas passagens bíblicas.

Um texto que estava a ler outro dia é o de Êxodo 22.25:


"Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre que está contigo, não te haverás com ele como credor que impõe juros"

Veja, que interessante passagem, desprezada por toda a sociedade dita cristã, qual seja, o de emprestar dinheiro a juros.

Pouco entendo sobre a complexidade da ciência econômica, e das leis matemáticas, mas verifico aqui uma regra muito simples, e que por todos os que se julgam cristãos, deveria ser observada, qual seja: NÃO EXPLORARÁS A MISÉRIA DO TEU IRMÃO PARA ENRIQUECER!

Podemos até entender, que nos nossos dias, a desvalorização do dinheiro possa trazer muita perda a um empréstimo muito longo, o que pode ensejar alguma correção.

Mas, se não estou equivocado, percebo claramente que há uma proibição de se explorar monetariamente o pobre.

Ocorre que, para nossa sociedade, é como se tal passagem ainda estivesse em uma língua ininteligível...

Deve ser por isso que o mundo jaz no Maligno...

A passagem logo em seguida, do versículo 26 reza que:


"Se do teu próximo tomares em penhor a sua veste, lha restituirás antes do por do sol, porque é com ela que se cobre, é a veste do seu corpo; em que se deitaria?..."

Verificamos aqui que, além de estar proibida a exploração daquele que se encontra em estado de pobreza, vemos um segundo princípio, qual seja: NÃO UTILIZE DE COAÇÃO, TOMANDO DO POBRE OS SEUS MEIOS DE SOBREVIVÊNCIA PARA QUE PAGUE SUAS DÍVIDAS.

Pelo menos os meios básicos de sua sobrevivência digna devem estar garantidos.

E há um claro posicionamento por parte de Deus para com a parte oprimida, no vers. 27 do mesmo capítulo:

"Será pois, que, quando clamar a mim, eu o ouvivei, porque sou misericordioso"

Portanto, verificamos que Deus é o grande legislador da causa dos pobres, e imaginou uma sociedade em que ninguém fosse explorado por causa de sua pobreza e necessidade.

Esta utopia não desapareceu, por certo, das mentes mais lúcidas...

Há inúmeras outras passagens maravilhosas acerca deste tema, o da solidariedade social e econômica entre os membros de uma sociedade:

"Se teu irmão empobrecer, e as suas forças decairem, então sustentá-lo-ás. Como estrangeiro e peregrino ele viverá contigo" (Levítico 25.35)

Empobrecer é sempre uma probabilidade em qualquer sociedade. Entretanto, vemos aqui o mandamento do Senhor para que não se deixe tal sem amparo.

E veja que a responsabilidade não é jogada para o Estado, mas sim para os membros da própria sociedade. Afinal, é fácil delegar algo para que outros façam; pouquíssimos de nós querem se envolver. E é interessante, que não obstante, tal ser um ato da caridade pessoal, se encontra no corpo de mandamentos do Antigo Testamento, não sendo, para nós, portanto, uma opção, mas sim, uma obrigação.


Logo em seguida, há uma passagem similar a de Êxodo, lida anteriormente:


"Não receberás dele juros nem ganho; teme, porém, ao teu Deus, para que teu irmão viva contigo" (Lev 25.36).


Interessante. Não explorar a miséria do meu próximo é uma questão de temor a Deus.


E o lembrete para tanto é a própria libertação do Egito:

"Eu sou o Senhor, vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para vos dar a terra de Canaã, e para ser o vosso Deus" (Lev 25.37)

Ou seja, o mandamento para não se explorar a miséria do irmão tem como paradigma a própria libertação que Deus efetuou pela libertação do Egito. Logo, aquele que se considera povo de Deus também deve ser sacramento da libertação do oprimido, do abatido, do cansado, daquele que já perdeu a força para lutar. O conceito de graça permeia também o Antigo Testamento.

E sobre aquele que acaba por ter que vender os seus próprios serviços para não morrer de fome, ao que tomasse seus serviços, o Senhor determinava:

"Não te assenhorearás dele com tirania; teme, porém, a seu Deus" (v. 42).

Portanto, o fato de alguém ter que se colocar em posição de submissão econômica por causa da necessidade, não dá direito ao patrão, ao tomador do serviço de ser um tirano, pois ainda são as relações caridosas que devem nortear a sociedade.

Mas tudo isso, em nossa sociedade, parece estar tão distante...

Estas foram somente algumas passagens que podemos meditar. Há tantas outras que é difícil mensurar, mas, com o tempo, vamos postando elas por aqui também.