domingo, 15 de março de 2009

Sofistas pseudo Cristãos a favor da miséria...









Encarado de fora o Cristianismo deve parecer - e de fato parece - uma monstruosa contradição e o mais absurdo dos antagonismos já afirmados pelo homem...


Pois de um lado, uma de suas formas, promete a mais completa isenção de sofrimentos para aqueles que se mantiverem fiéis, em especial ao pagamento dos dízimos... enquanto outra forma parece insinuar que o Cristão veio a este mundo apenas para sofrer, devendo não só suportar todos as formas de sofrimentos com que se deparar em sua existência (inclusive as formas superáveis de sofrimento) mas até mesmo procura-los quando tudo estiver bem...


Diante destas duas concepções extravagantes de Cristianismo: a primeira afirmando-o como uma espécie de panacéia miraculosa e a segunda afirmando-o como puro e simples masoquismo...


O primeiro oferecendo uma libertação já absoluta, já impossivel, já miraculosa neste plano material; pura e simples escamoteação... o segundo propondo uma solução por assim dizer anti-natural; que o homem se conforme em sofrer o que pode evitar ou que até busque aumentar seus sofrimentos...


Eis os antipodas da loucura...


Meu estomago parece embrulhar diante de Sila e Caribde disfarçadas...


Por isso odeio e repudio igualmente a todas as formas de extremismo ( exceto a da justiça proposta por Sócrates e a da caridade proposta por Bernardo de Clairvoux) como emanações patológicas de cérebros mal conformados.


Para piorar a situação, quando alguns espíritos realistas postulam a eliminação ou diminuação da miséria humana por meio de ações sociais concretas. Quando alguns espíritos de escol, verdadeiros profetas e apóstolos da modernidade levantam a sagrada bandeira da justiça e do equílibrio social...


Os extremistas de um e outro partido se levantam e bradam em côro:


-- A proposta até que é boa, mas os meios são inadequados, no Cristianismo TODOS OS MEIOS DEVEM SER SOBRENATURAIS E MIRACULOSOS.


Deixemos que Deus mesmo tome a iniciativa da acabar com a miséria universal no dia do Harmagedon...


-- De forma alguma, a proposta de se acabar com todos os sofrimentos é um atentado a mensagem da cruz que é o instrumental de nosso aperfeiçoamento espiritual.


Tais conjecturas cheiram a marxismo... até parece que esses Cristãos desavisados desejam converter este mundo num paraíso. Ora a completa isenção dos sofrimentos só pode ser obtida ou conquistada no paraíso celestial, pela alma.


Quanto aos miraculosos meios, propostos pelos adeptos de certa teologia mágico-fetichista, nada direi... Diante de propostas magico-fetichistas que se jactam em ignorar a verdadeira estrutura do universo e as mais remotas descobertas científicas, so nos resta sorrir e esperar que a educação faça seu trabalho: lento talvez, mas seguro e certo...


Trata-se do ácido do pensamento como diziam nossos avós e ele decerto corroerá e lançara por terra todas as edificações sobrenaturais e miraculosas que alienam e esmagam o povo de Deus.


Agora quanto aqueles que nos acusam que querer acabar com todos os sofrimentos humanos e de estabelecer o paraíso sobre a terra, a estes, somos obrigados a tachar de canalhas.


Sim, de canalhas, pois eles bem sabem que existem duas classes bem distintas de sofrimentos:


Os que são evitaveis ou superáveis, podendo ser eliminados pelo homem a curto ou longo prazo.


E os que são inevitáveis ou insuperáveis, ou seja que jamais poderão vir a ser eliminados pela ação humana.


Um tipo de sofrimento proveniente de estruturas humanas ou econômicas, que tem se mantido impermeáveis e alheias a mensagem Cristã e que por isso mesmo comportam uma distribuição injusta de renda e servem de base a miséria é um exemplo de sofrimento perfeitamente dispensável ou seja que não é necessário.


Efetivamente, apesar das profecias do Dr Malthus, em parte corretas porquanto o espaço terrestre é finito, a natureza e a tecnologia tem bastado para assegurar a auto-suficiencia de alimentos até o dia de hoje... Sem embargo a fome, como assinalou Josué de Castro, ainda é um fato.


Admirável não é que ela diminua gradativa e lentamente como assinalam nossos liberais, EXECRÁVEL É QUE SUBSISTA ao lado de nossas estruturas tecnologicas e recursos naturais...

Porque então não foi eliminada do contexto?


Porque desgraçadamente o natural e o tecnologico passam pelo humano ou pelo econômico, por um humano que comporta egoismo, mesquinharia e que engendra necessariamente a miséria por meio duma distribuição falaciosa de alimentos. Alimentos acabam sendo amontoados, guardados, especulados, destruidos, etc


É na passagem do natural e do tecnologico para o econômico que se instalam a fome e a miséria.


Querem apresenta-las como naturais e quiçá vincula-las a natureza humana forjando uma espécie de metafísica da fome e da miséria, debalde o fazem, a fome e a miséria não partem da natureza nas de ações humanas que não são inspiradas nos valores Cristãos.


Partem duma econômia que não ouso denominar como pagã por respeito a Sócrates, Platão, Aristóteles e os estóicos, mas desumana. Duma econômia que se apresenta como autonoma ou independente dos demais aspectos da existência humana, que ousa afirmar-se como bem superior e que por isso mesmo sendo irredutivel a ética - nesse sentido maquiavélica - esmaga os seres humanos e assassina-os...


Escamoteiam aqueles que apresentam o Marx como tendo sido o primeiro materialista ou economicista...


Marx apenas e tão somente analisou as engrenagens podres do materialismo e do economicismo, buscando uma superação que os hipócritas e fariseus identificam com o paraíso, porque o materialismo e o economicismo são anti-valores ou emanações pútridas e deletérias da assim chamada econômia liberal...


Emancipando a econômia da ética e afirmando-a como superior a todas as demais esferas da atividade humana o liberalismo converteu o mercado num deus e num deus funesto, num deus infernal, num plutão senhor de mortos...


E tal é a origem da miséria: não é a natureza benfazeja ou a ciência elevada, mas uma doutrina falsa no campo da econômia e que sem embargo tem o desplante de apresentar-se como natural ou clássica, metafisicando-se...


Renan já assinalará que o regime de propriedade e produção era um na Idade antiga e outro na Idade média - eu acrescentaria outro na pré história - significando claramento que nosso regime apresentado como divino, sagrado e inviolável pelos neo fariseus e materialistas enrrustidos, pode e deve ser superado. Exige-o essa própria dinâmica evolutiva que os leva a compactuar desesperadamente com o Criacionismo enquanto base duma ordem social imexivel e fixa...


Afinal o liberalismo, instruido por Maquiavel, não escolhe armas, acusa o marxismo de ser imoral quando na verdade ele mesmo viola todos os estatutos da moral e da ética com o obejtivo de manter-se no poder.


E assim, frustrados em seus capiciosos sofismas, não pejam de ir ao Evangelho joeirar algum texto obscuro em favor de seu sistema anti-cristão, sacrílego e blasfemador...


Logram assim converter a palavra do amor, da vida e da justiça, num oráculo de ódio, morte e iniquidade...


Sim, eles tudo invertem, confundem e disvirtuam em nome do deus milhão a quem serve. O idolo petrificou seus corações e eles nada respeitam, nem mesmo ao Evangelho, as palavras de Jesus!!!


E com versículos da palavra divina pretendem forjar canhões e baionetas para Smith e Ricardo, esses péssimos exegetas, esses exegetas de fancaria...


Em estado de necessidade, todo liberal, todo leigo, converte-se logo em mestre de exegese e pontifica sobre tudo quanto supinamente ignora...


Eles se emproam, se elevam, se incham e verberam: Jesus disse: POBRES SEMPRE TEREIS!!!


Ouviste socialista estúpido!!!


Ouviste comunista imbecil!!!


Ouviste marxista desmiolado!!!


É Jesus mesmo quem diz: POBRES SEMPRE TEREIS...


Logo: vossa cruzada contra a miséria é uma utopia ou melhor um atentado contra a miséria. Ao tentar erradicar a miséria do mundo vos fazeis heréticos ou sacrílegos...


Só faltava arrematar com toda a sinceridade deste mundo: Nós pelo contrário oprimindo ao operário e perpetrando as maiores injustiças garantimos o cumprimento da palavra divina, nossa produção de pobres e miseráveis é absolutamente ortodoxa...


Mas a quem esta se dirigindo o Verbo da vida senhores expositores?


Pois é regra elementar de exegese interrogar a quem o oráculo divino é direcionado...


Onde vossas sumidades encontram que Jesus dirigiu tais palavras aos fiéis e gerações de todos os tempos em forma de profecia?


Muito pelo contrário o contexto especifica que tais palavras foram direcionadas aos apóstolos que com ele estavam tendo em vista determinada ação - a unção de seus pés pela pecadora - acontecida naquele momento...


Sim e daí, retrucam os adversários?


Dái que na falta de qualquer determinativo que aluda ao futuro, a extensão do sempre, deverá ser medida por aqueles a quem foi dirigida a expressão, assim a medida do sempre nesta passagem será a duração da vida dos apóstolos e daquela geração, uns setenta anos talvez...


Quiz dizer com isso o Senhor que a expansão e a prática do Cristianismo não dimuiriam a miséria, já na judéia, já no mundo a longo prazo? Certamente que não.


Quiz dizer apenas que os apóstolos e evangelistas não viveriam suficientemente para contemplar o fruto concreto da pregação Cristã, tal e qual, nós que vivemos dois mil anos depois também não teremos a felicidade de contempla-los... Nem por isso desesperamos como o idoso que plantava jabuticabas a beira da estrada...


O bem satisfaz a si mesmo e em si mesmo encontra recompensa...


Isto não significa que daqui a dois ou três mil anos tais frutos de justiça não possam ser contemplados por uma geração menos infeliz e escrava do que a nossa... Tal situação é perfeitamente possivel e desejavel, desde de que o Cristianismo começe a ser encarado com seriedade e posto em prática do modo como Jesus mesmo recomendou.


No momento em que o Cristianismo deixar de ser uma doutrina morta ou simples fé convencional, para ser um modo de vida ou instinto vital, a miséria começara diminuindo e por fim desaparecerá cedendo lugar a outra ordem material, uma ordem que libertará o homem tendo em vista ascenssões maiores no Reino do espírito (Renan).


A pregação e o cumprimento da justiça estrita são inconciliaveis com a miséria!!!


Não precisaria, sem embargo, ter ido tão longe...


Bastar-me-ia seguir na esteira de certos exegetas discretos e lançar em vossa face, que se não pudermos eliminar a miséria por completo - levando-se em conta suas fontes volitivas como a preguiça e a vadiagem - podemos diminui-la muito - especialmente no que tange a suas fontes volitivas como a injustiça - Uma coisa é sempre ter pobres conosco e outra totalmente distinta manter sempre o mesmo número de pobres, como se não houvesse qualquer distinção entre uma ordem moral mais elevada, como a Cristã, e a ordem judaica ou a ordem pagã.


Neste caso o Cristianismo não passaria dum rótulo ou nome com o objetivo de nos distinguir dos judeus ou pagãos... pura e simples frivolidade.


Se podemos diminuir o número de pobres, então devemos faze-lo!!! Se é possivel fazer recuar os limites da miséria humana, eis um ideal nobre e digno da Cristandade.


Cumpre assinalar por fim que erradicando ou diminuindo a pobreza não estamos, como afirmam os nossos críticos, erradicando com o sofrimento ou suprimindo a escada que nos conduz ao céu.


Porque a pobreza ou a miséria não constituem a única forma de sofrimento existente neste plano em que vivemos, antes existem muitas outras que o homem nésciamente desejaria eliminar, mas que jamais logrará faze-lo... Por isso Marx reconheceu que o paraíso ideal dos Cristãos jamais poderá ser implantado neste mundo, o paraíso de Marx é um paraiso palido e precário...


Mas é, mesmo assim, uma condição necessária, para que o homem evolua no desenvolvimento integral de seu ser...


Eliminados os sofrimentos que podemos debelar: como a miséria, os masoquistas ainda terão muito para festejar se levarmos em conta já as enfermidades incuráveis que tiranizam o corpo humano, como o câncer, o fogo selvagem, etc já o reinado invencivel da morte, verdadeira rainha e senhora deste mundo...


Assim o home jamais deixará de sofrer ou de padescer neste mundo e não há que temer ou recear por isso...


Sempre haverão chagas que martirizem seu corpo e separações definitivas que lhe firam na alma, ocasiões em que o Cristão, não tendo outra alternativa, se recordarádo quanto sofreu seu Senhor e se unirá a ele exarando uma prece!!! Tal consolo de sofrer meritoriamente em união com o divino crucificado jamais será abolido...


Porque para ser meritório o sofrimento deve ser aceito livremente e não imposto por estruturas opressoras. Um sofrimento imposto e imposto em nome de Cristo é expressão da suprema maldade...


Quem deseja sofrer por Cristo sofre discretamente ao invés de exigir dos outros que sofram! Exigir dos outros que sofram é rematada crueldade...


Faz lembrar aqueles fariseus que não queriam empurrar sequer com o dedo os fardos que colocavam sobre os ombros alheios...


Assim também esses discursos que leigos e religiosos das classes elevadas dirigem as classes inferiores admoestando-as para que seja virtuosas, ou seja morigeradas e obedientes, contentando-se com a situação que lhas caracteriza... Tais discursos seriam trágicos se não fossem cômicos...


Não existe melhos admoestação tendo em vista a virtude que o exemplo. Tal foi o método empregado por aquele que morreu na cruz, e não pode haver outro...


Imaginem os senhores se Jesus tivesse nos admoestado a carregar a cruz quotidiana e tivesse fugido a sua abandonando o calvário...


Tal a monstruosidade contida nesses apelos conciliatórios que partindo do luxo exorta os demais a ascetismo... porque não abandonas teus charutos, licores, caviares, sedas, jóias e praticas tu mesmo o ascetismo???


Desconfio muito desse ascetismo recomendado por gente roliça...


Não, não se pode recomendar a um homem provido de dignidade que concorde em ser explorado todos os dias e diariamente conduzido ao matadouro para ser tosquiado.


Jesus não nos disse apenas para que sofressemos resignadamente tudo quanto não pudessemos evitar. Disse também e não com menos enfase, que procurassemos aliviar aos sofrimentos alheios...


Mandou que aliviassemos e não que aumentassemos ou multiplicassemos tais sofrimentos. Podemos certamente sofrer o evitavel se lho consideramos benéfico... mas não podemos deixar de aliviar e dimiuir os mesmos sofrimentos nos outros. Com relação aos outros há uma ordem clara: servir, aliviar, socorrer e jamais acometer...


Cristianismo que peça sofrimentos aos outros o que neles se deleite é tudo, menos Cristianimo.


A apologia ao sofrimento alheio constitui um verdadeiro escândalo no contexto Cristão chegando as raias do sadismo. Sofrer discretamente é uma coisa, rejubilar-se enquanto o outro é torturado ou tomar parte na tortura, alegando ao paciente que adquirira merecimentos no outro mundo já é outra... mórbida inversão por sinal.


O pobre, o trabalhador, o operário não sofre voluntariamente dum sofrimento insuperavel, mas sofre contrariado, porque se vê mutilado em sua pessoa, sofrimentos superaveis que lhe são impostos por uma sociedade apóstata, materialista, egoista, cruel e hipócrita que perdeu seu rumo e ainda ousa proferir aquele nome!!!


Não é ele quem odeia por princípio ou que tomou a iniciativa de odiar, antes sendo receptáculo do ódio alheio é e deve ser incitado a não odiar... Isto não quer dizer que deva concordar em ser explorado ou deixar de lutar para libertar-se... Poderá e deverá indignar-se e indignado denunciar, combater e lutar tendo em vista sua dignidade. Não respoderá entretanto a burguezia com o mesmo sentimento rasteiro que a anima...


Se por fraqueza humana resvalar e odiar, seu ódio jamais será tão grave quanto o ódio matriz, o odio fonte, o ódio inicial engendrado pelos poderosos.. seu ódio será apenas uma resposta...


Se desesperar do Cristo e se tornar materialista, inda seu materialismo será desculpável, como diz Renan, como porém desculpar o materialismo daqueles que já possuem o necessário para viver, que dizem estar em Cristo, mas que só cogitam de ganhar mais e mais dinheiro as custas do esforço alheio? Taí um materialismo essencialmente pecaminoso, que não se desculpa, pois como diz o apóstolo:


TODOS OS MALES SE ORIGINAM DO AMOR AO DINHEIRO.


Se vivemos num sistema que apregoa o amor ao dinheiro não vivemos num bom sistema...


Afinal a quem amaremos: ao dinheiro ou ao próximo?


Por quem optaremos?



Domingos Pardal Braz