domingo, 1 de março de 2009

A substituição do Cristianismo ético pelo Cristianismo mágico.





Por Domingos Pardal Braz




Quanto mais leio o Evangelho, quanto mais estudo a palavra de Cristo, quanto mais bebo da Castália divina, tanto mais me supreendo diante do nosso Cristianismo.


Não quero dizer com isso que o padrão apostólico tenha se desviado da ortodoxia doutrinária estabelecida pelo Verbo divino, não. Eu não acredito na apostasia doutrinal da igreja.


Creio numa igreja doutrinariamente infálivel, guardiã indefectivel do depósito que lhe foi confiado.


Refiro-me já a ortopraxia desta igreja, esta sim passivel de desvio e reformável...


Não creio numa igreja ética e moralmente infálivel pois me percebo diante duma igreja doutrinariamente verídica e moralmente fálida...


Quando digo moralmente fálida quero dizer que essa igreja, deixando-se influenciar por teorias estranhas a sí, comprometeu-se com a ordem deste mundo e deixou já de anunciar o amor, já de condenar o reino da morte.


Evidentemente que está a serviço da verdade. Estará porém a serviço do amor e da vida? Da justiça, da misericórdia e da paz, que são os valores supremos do Cristianismo?


Não pense o leitor que ao denunciar a 'apostasia' ética ou moral da ortodoxia justificarei as formas latinas: romana e protestante, apontando-as como môdelos consumados de fidelidade as exigências do Evangelho. Caso vivesse nos confins do Iran, do Iraque ou do Cazaquistão, talvez o fizesse ignorando a estrutura e a ideologia que animam essas insituições religiosas...


Sou completamente inume ao proselitismo ocidental.


Nascido num ambiente protestante rigorosamente puritano, desde cedo tenho nutrido vivo interese pela problemática religiosa, por isso que conheci um grande número de seitas e pude examinar uma grande número de obras antes de passar a igreja romana em busca de paz e sossego.


No seio da igreja romana conheci praticamente todas as correntes que lha fragmentam, acantonando-me no lefrevismo antes de passar a ortodoxia... Entrementes examinei de perto as doutrinas e pretenssões do espiritismo e das diversas formas religiosas não Cristãs, especialmente do budismo e do islan.


Apesar da sincera simpátia que nutro tanto pelo espiritismo quanto pelo budismo e o islan, devo confessar que para mim a ortodoxia é o último e derradeiro vagão no plano religioso... Em oposição a ela só poderia abraçar o agnosticismo, não nos termos modernos de Huxley, mas nos termos teistas de Aristoteles.


Deista assumido já sou pois não creio na existência de milagres no tempo presente...


Por isso ao lançar pedradas na igreja a que pertenço nem por isso flerto com as organizações religiosas do Ocidente as quais conscientemente abandonei, julgando que falharam mais que a ortodoxia corrompendo a divina revelação e a pureza da fé.


Sempre me pedem para dizer alguma coisa sobre a ortodoxia. Gosto muito de dizer que a ortodoxia é semi-pelagiana e que este é um dos principais motivos porque sou ortodoxo.


Quando protestante tinham plena consciência de estar compactuando com um erro monstruoso, refiro-me evidentemente a doutrina da predestinação, corolário natural do gracismo... essa coisa de solifideismo, gracismo, predestinação, etc era como que um espinho na minha carne. Ao menos, no protestantismo, era um espinho visivel.


Quando professei no romanismo tornou-se para mim um espinho dissimulado e oculto pois essa confisão é propositalmente vaga e reticente quanto a forma de nossa salvação. Desde Trento que o romanismo converteu-se num dilema: professa fidelidade a agostinho, condena Vicente de lerins e repúdia Calvino, uma posição incoerente, cuja incoerência salta a vista.


Na ortodoxia encontro uma definição clara e objetiva: o semi-pelagianismo, e não me escadalizo dela, antes me regozijo...


Pois estou persuadido que, ao menos em parte, o contratestemunho ortopratixial de nossas igrejas apostólicas, deve-se a uma influência cada vez maior das teologias romana e protestante, ambas gracistas e que ao gracismo se deve a falência do Cristianismo Ocidental. No fim das contas Ocidente e Oriente foram contaminados pela mesma praga, o neoplatonismo, sob duas frentes...


Desejo abordar aqui apenas a frente Ocidental do neo platonismo.


Na próxima semana abordarei a frente Oriental.


Antecipando a conclusão de que estamos assistindo a convergência de ambas e uma espécie de apoteose triunfal do neoplatonismo - pai de todas as formas de misticismo 'cristãs' - sob o conteúdo cristão ou ético do Cristianismo.


No ocidente esse influxo neoplatônico tem dois nomes bastante característicos, sendo conhecido já por gracismo, já por agostinianismo, tendo em vista a pessoa de seu patriarca: S Agostinho, Bispo de Hipona, insigne teólogo do século IV.


Ao desertar do protestantismo tinha a falsa impressão de que ao afirmar a prioridade da graça, a suficiência da fé e a predestinação, Lutero hávia afirmado algo de inteiramente novo... egresso na Igreja romana pude estudar a questão mais a fundo e chegar a conclusão de que, ao dizer: Agostinho ensinou a minha doutrina, a razão e a justiça assistiam a Lutero.


Cheguei pois a conclusão de que não fora Lutero, o reformador do século XVI, quem inovara; mas Agostinho, o bispo do século IV. Mais tarde ao ler uma das cartas escritas pelo patriarca Fócio, pude constatar que não fora nem o primeiro nem o último ao chegar a essa conclusão...


Fazia-se mister chegar a Agostinho.


E constatar que esse grande padre não permaneceu integralmente nos quadros da ortodoxia, introduzindo elementos neoplatonicos e maniqueus em seu seio. Toda essa sopa: cristã, neoplatônica e maniquéia veio a ser chamada agostinianismo, serviu de base a teologia protestante e ao ser canonizada por Trento, atingiu fóros de dogma em todo Ocidente. Para protestantes (exceto os arminianos que romperam com a tradição luterano-calvinista) e romanos fiéis o agostinismo ou gracismo é a pedra de toque da ortodoxia. Para uns e outros a doutrina de Cristo e a de Agostinho sobre a graça e a salvação, constituem uma só.


Agostinho foi o primeiro pregador e ministro Cristão a afirmar que a natureza humana foi totalmente corrompida pelo pecado, doutrina de procedência maniquéia, como já dizia Juliano, Bispo de Eclano, regeitada por Justino, Clemente, Origenes, etc


Quando soube que João Crisóstomo, arcebispo de Constantinopla, não só ignorava, como combatia a teoria do batismo obrigatório de crianças e a conclusão de que as criancinhas não batizadas arderiam nas chamas eternas, Agostinho replicou dizendo que: "Deus não se agrada da doutrina de João de Constantinopla sobre o pecado", doutrina que felizmente a igreja oriental tem conservado. A ortodoxia não constitui pois um anti humanismo...


Ao que parece Agostinho, antecipando a Flacyus e aos luteranos substancilistas, concebia a graça como uma espécie de substância ou matéria, subdividindo-a em duzias de espécies, tal e qual um entomólogo subdivide seus insetos. Para ele havia graça pré existente, atual, habitual, recorrente, etc uma penca delas...


Nem é preciso dizer que essa minudência em devassar o invisível constitui um dos grandes pecados da Cristandade nominal...


Chegando a conclusão de que o intelecto humano fora afetado pelo pecado e de que a linguagem humana era inadequada para expressar a verdade eterna, Agostinho concluiu que todos os homens precisavam ser diretamente iluminados por Deus e convertidos pelo céu a verdadeira religião... E já percebeis que estamos na fronteira do predestinacionismo e chegando ao Calvinismo.


Pois se Deus é quem ilumina e converte a uns, é certamente ele que não ilumina, não coverte e logo perde aos outros.


Ainda não me deparei nas obras de Agostinho com a solução arminiana, de que Deus ilumina a todos os homens, mas que alguns aceitam a iluminação enquanto outros regeitam. Pois se o homem pode julgar a iluminação que recebe, pode julgar qualquer outra coisa...


Parece que Agostinho jamais teve a coragem de afirmar em alto e bom som as derradeiras consequências de sua teoria antropo-soteriologica... Contenteou-se em ser indigitado como "torturador de criancinhas" mas não ousou afirmar a predestinação absoluta para o mal e o pecado.


Como filósofo ele bem sabia que afirmando a predestinação positiva para o mal, estaria afirmando Deus como autor do mal e do pecado ou afirmando que o mal e o pecado correspondiam a vontade do Deus Santo e Pai amoroso revelado por Jesus Cristo. Como ainda lhe restavam muita dignidade e boa fé, Agostinho preferiu permenecer calado e deixar aos pósteros a inglória tarefa de sacar as devidas conclusões de seus sistema.


E ele bem sabia que seus sucessores não deixariam de saca-las, completando a edificação que ele iniciara e cujos fundamentos podres ele lançará.


Todas as doutrinas inventadas ou introduzidas na ortodoxia pelo Bispo de Hippona foram denunciadas em sua geração por um grande número de doutores e teologos: Pelágio ( que foi levado ao extremo oposto), Juliano, Aniano celedense, Teodoro de Mopsusestes, Crisóstomo, Vicente de Lerins, João Cassiano, Genadios de Marselha, etc, etc, etc Sua doutrina da graça causou grande escandalo e mereceu a reprovação universal de sua ilistrada geração.


Entrementes os bárbaros invadiram o império, destruindo bibliotecas, museus, galerias de arte, escolas, etc e semeando a peste, a fome e a morte. As comunicações entre Oriente e Ocidente foram interropidas, as grandes sés apostólicas do Lesta não mais puderam iluminar as congregações do Oeste, o nivel intelectual do clero - o que não dizer dos leigos - caiu vertiginosamente, o talião foi imposto como lei suprema, etc de modo que em menos de cem anos - 529 - um Ocidente completamente barbarizado e selvagem estava ja preparado para receber e aprovar as concepções agostinianas ou mágicas de salvação fácil e predestinação. Foi o que de fato se sucedeu no sínodo de Orange...


O sínodo de Orange reproduziu em parte as opiniões do teologo ultraagostiniano Próspero de Aquitânia, segundo as quais "Deus salva a quem quer e perde a quem quer". Próspero foi quem primeiramente tirou as conclusões e ousou afirmar a predestinação como decreto estrito de Deus em benefício de alguns apenas e com a exclusão positiva dos demais. Calvino, como ele mesmo diz, limitou-se a ler as obras desse homem e os decretos de Orange, e a reedita-los mil anos depois.


Não inventou o calvinismo, o qual por assim dizer nem existe, mas reeditou as teorias bizarras de Próspero, amigo de Agostinho, o qual por suas vez pedira-as de empréstimo ao maniqueismo e ao neoplatonismo, seitas porque passara antes de passar a igreja Ortodoxa.


Como Orange não passará de um simples sínodo e não dum concilio geral, a questão permaneceu em aberto, cindindo-se em dois grupos a igreja romana, durante toda a idade média, no decorrer de mil anos.


O partido por assim dizer ortodoxo ou semi-pelagiano, que via de regra não se assumia como tal tendo em vista a influência teologica de Agostinho, e o partido agostiniano ou gracista, representado a principio pelos padres de Orange, depois por Goteschalck ( que também afirmou a predestinação para o pecado), por Bernardo de Clairvoux, pelos Francsicanos, pelos agostinianos e enfim pela teologia aleman... o partido oposto foi representado pelos lerinenses,

por Gregório o grande, por Hincmar, pelos dominicanos, por Tomás de Aquino, pelos humanistas do século XV...


Até a grande explosão da reforma, que concedeu vitória ao agostinianismo tanto fora, quanto dentro da igreja papista.


Se Lutero e Calvino não inventaram o gracismo, certamente lhes cabe a fortuna de te-lo feito triunfar em todo Ocidente e de insinuar-se cada vez mais na igreja Oriental (como se já não lhe bastasse a ação deletéria do palamismo).


Vinte anos antes de Trento ser congregado, o teologo belga Alberto Pighius ainda impugava João Calvino sob uma ótica estritamente semi-pelagiana.


Os padres de Trento, já por burrice, já por má fé, receberam o sínodo regional de Orange como se fosse um concilio geral, atribuindo-lhe o mérito da infalibilidade e canonizando-o. Desde então o gracismo converteu-se em dogma de fé para os romanistas. É possivel que essa opção tenha sido tomada com o objetivo de agradar aos protestantes e de reconcilia-los... mostrando-se sob este aspecto absolutamente inutil... os protestantes jamais aceitaram limitar ou atenuar o gracismo professado por Lutero e Calvino.


Quem comprometeu-se com uma causa inglória foi a igreja romana, afastando de sí muita gente sensata que já se afastara da reforma ou percebera seu conteudo anti-humanista, refiro-me justamente aos humanistas e por consequência aos cientistas e intelectuais sempre irredutiveis a formas mágico-fetichistas.


Verdade é que a igreja papista jamais afirmou a depravação total da natureza, a transmissão do pecado pessoal de Adão, a condenação das criancinhas não batizadas e tampouco a predestinação para o mal. Assim que foram publicados os decretos de Trento - que reproduziam Agostinho, Próspero ou Orange - foram logo maquilados ou interpretados pelos sábios dominicanos e jesuitas num sentido semi-pelagiano. A mais engenhosa dessas tentativas de retorno ou de conciliação entre o gracismo tridentino e a velha corrente semi-pelagiana recebeu o nome de molinismo e penetrou a reforma, dando origem a uma verdadeira contra reforma interna sob o epiteto de Arminianismo.


Digam o que disserem arminianismo e molinisno não passam de novas roupagens ou farrapos sob os quais se oculta a veja doutrina semi-pelagiana ou, as vezes, o próprio pelagianismo. Todos os gracistas fiéis, sejam tridentinos ou calvinistas sabem-no muito bem, e é mesmo assim.


O emprego dos termos molinismo ou arminianismo deve-se ao respeito humano tributado já a Agostinho, já a Próspero, já a Lutero, já a Calvino ou por submissão teologica meramente formal já a Orange, já a Trento, já as Institutas... Aos protestantes dói afirmar em alto e bom som que Lutero e Calvino tomaram o bonde errado... e a todos, romanos e protestantes, dói mais ainda reconhecer os erros de Agostinho!


Durante toda a Idade média os teologos romanos encararam Agostinho como uma espécie de doutor infalivel, quando na verdade ele mesmo compoz um tomo de retratações e foi duramente censurado pelos teologos de sua geração. Essa construção artificial e mitológica do Agostinho indefectivel como doutor supremo da igreja foi a grande responsavel pela apostasia ética do Cristianismo ocidental e pelo surgimento das formas místicas e subjetivas de religiosidade.


Lamentavelmente a igreja romana preferiu apelar ao mistério ou nada afirmar preservando a imagem de seu grande doutor. E agindo dessa forma semeou e colheu o jansenismo... Conforme Jasenius optou por ser estritamente fiel ao pensamento de Agostinho e não fielmente dissimulado. Todas as tentativas da igreja romana em desvincular a imagem tradicional de Agostinho de seu conteúdo luterano-calvinista tem redundado em fracasso, o único recurso possivel é a submissão cega a palavra infálivel do papa ou o infalibilismo papal...


Para aqueles que preferem o caminho da tradição não resta outra saída a não ser reconhecer e afirmar o desvio de agostinho e a falsidade de suas teorias sobre a natureza humana, a razão, a graça, o pecado, a salvação, a eternidade... No que tange a esses pontos Agostinho é muito mais maniqueu e neo platônico que Cristão.


É justamente ao veneno neoplatonico e maniqueu que a Cristandade universal deve sua falência no que concerne a ortopraxia.