domingo, 29 de março de 2009

Teologia moral: aplicando as conjunturas atuais as regras do Decalogo e do derradeiro Sermão.

Por Domingos Pardal Braz

Depois de tudo quanto foi dito cumpre fazer uma última indagação:

É possivel a construção de uma teologia moral 'infalivel' para além do que esta escrito?

Penso que uma tal questão é pertinente tendo em vista a alegação de certas formas religiosas segundo as quais seus pronunciamentos em matéria de moral são infaliveis ou indiscutiveis.

Para nós tudo isto não passa de vã pretenssão.

Não podemos receber como infalivel decisão alguma ou corpo teologico algum que não faça parte efetiva do Santo Evangelho de Cristo.

Regeitamos pois as pretenssões da Igreja Cristã de ser infalivel em matéria de moral, embora sejamos partidários de sua infalibilidade e incorruptibilidade em matéria de fé.

A moral Cristã não precisa de interprete.

Percebe-mo-la, capta-mo-la e por assim dizer ve-mo-la já nas páginas do Evangelho, já nos sermões dos padres e doutores dos séculos primevos.

O fundamentalista que tudo confunde ou não lê o Evangelho (prefere ler Paulo ou o Velho Testamento), ou ô lê como se fosse uma simples 'parte', ou pura e simplismente descre...

Quantas e quantas vezes não ouvi os pseudos Cristãos lamentando e murmurando contra a abolição da lei judaica - Lei de Deus como chamam! - e amaldiçoando a liberdade, a tolerância, a suavidade, etc destes nossos tempos...

Mas foi justamente Jesus quem aboliu a essas leis...

E Paulo quem proclamou os valores da liberdade, da tolerância, da suavidade, etc

Não, não creio como insinua a igreja, que a lei de Cristo seja obscura e que a grande maioria dos Cristãos tenha se confundido de boa fé... Antes foi ela, a igreja, que fomentou a confusão e mostrou-se falivel, no momento em que compactuou com os elementos da cultura hebraica e em que associou ao Decalogo e ao sermão da montanha outros preceitos e regras de origem puramente humana.

Acobertou a igreja, cada vez mais, um sem número de fábulas e preconceitos, oriundos da sinagoga farisaica.

A grande tragédia foi que quando a plebe pode ler e interpretar as escrituras, leu e recebeu o que era do seu agrado: as leis hebraicas e não o Evangelho de Cristo. Aonio Palério, Castellion e outros bons e legitimos reformadores morais da Cristandade clamaram contra tal estado de coisas, mas a própria reforma protestante, herdeira do espírito romano no que possuia de mais tacanho e alheia ao espírito de Cristo, abafou tais clamores...

Assim a posse das escrituras piorou a ainda mais o estado da igreja Cristã e prestou auxilio a judaização e corrupção da fé.

Desde então a mente reformada em geral tornou-se presa da letra morta do Testamento Velho e mais presa que as igrejas grega e romana...

O homem foi encadeado e acorrentado aos livros de Moisés e ficou provado do verdadeiro conhecimento de Cristo.

A grande malignidade da teoria da inspiração plenária e linear esta justamente nisto: que o Evangelho de Cristo é encarado como uma parte apenas.

Enquanto tal espírito prevalecer e Cristo for encarado como simples patriarca, profeta ou enviado, e não como aquilo que verdadeiramente é, a Cristandade permenecerá em estado de agonia... definhando lentamente como um homem enfermo...

Enferma esta a Cristandade toda de judiarias, de fábulas, de mitos, de preconceitos e de crenças vãs que o Senhor do Céu veio arrancar pela raiz, mas que foram inconscientemente replantadas e cultivadas por seus seguidores.

Todas essas mesquinharias tem alienado a Cristandade quando ao necessário que é a lei do amor.

Até os pagãos e infiéis sabem que o supremo escandalo do Cristianismo não são suas divisões doutrinárias, mas sobretudo a existência de Cristãos que odeiam...

A existência do Cristão que odeia é supremo escândalo da Cristandade.

Entretanto nem o Papa, nem os patriarcas, nem os Bispos, nem teologos, nem pastores, nem ninguém ousou escrever um tratado contra o ódio alertando o povo de Cristo sobre sua malignidade.

Os catecismos e livros de teologia moral pretensamente infaliveis estampam dezenas e dezenas de páginas sobre sexo e apenas uma ou duas sobre o ódio... Entretanto a maior parte dos cristãos assexuados odeia... que digo? A maior parte da Cristandade odeia e dá provas inequivocas de ódio e ferocidade semeando leis férreas de mercado, guerras, cadafalsos, etc

Se quem odeia seu irmão é de fato um homicida como poderiamos qualificar nossa Cristandade domingueira?

Vestimos roupas novas e luxuosas, jóias, etc nos empetecamos e perfumamos para ir desfilar diante do altar de Jesus Cristo uma vez por semana e tartamudear algumas fórmulas... Foi isto que Cristo pediu?

Depois voltamos para casa e não há mais missa ou culto... então podemos falar mal dos vizinhos, mentir, prejudicar, cometer injustiças, etc

Desde quando isto é Cristianismo?

Benditos sejam os pagãos! Pois ao menos não profanam o nome glorioso daquele que passou pelo mundo fazendo apenas o bem.

Será possivel que a teologia moral desta Cristandade leviana seja infalivel?

Não, mil vezes não!

Tal teologia não é apenas falivel, mas essencialmente corrupta e má.

Precisa ser demolida até os alicerces.

Esta podre e carcomida.

Nada há nela que seja são...

É como um corpo tomado pela lepra... pela lepra de preceitos judaicos que não foram promulgados pelo Verbo da Vida.

Precisa ser limpa e purificada pelo toque divino do Senhor...

Então ficaremos presos e parados junto ao Evangelho?

E condenaremos todo e qualquer esforço para se construir uma teologia moral que não seja infalivel, mas apenas e tão somente Cristã?

Apenas segura...

De modo algum.

Tendo em vista que a sociedade se move, caminha, avança e que não há força reacionária que a possa parar...

Que rompe todas as fraldas e faixas com que procuram amarra-la... e cresce...

É nosso dever tomar os preceitos divinos do Evangelho e aplica-los as novas situações com que nos deparamos.

Para isto não é preciso nenhuma igreja infalivel.

A luz da razão é mais do que suficiente...

Pois todas as correntes teologicas que apareceram no seio da Cristandade deste o principio não passaram de tentativas de compreender e racionalizar a fé.

Jamais houve ou haverá teologia revelada, Tertuliano bem o compreendeu.

Nem por isso a teologia deixa de ser util e importante embora de fato não seja absolutamente necessária ou essencial. Mais vale o cristão que conserva a ortodoxia da profissão de fé e que prática essa fé, do que um teólogo iniquo...

O que nos qualifica diante de Cristo é a bondade e não a sabedoria. Hierarquicamente falando a sabedoria ocupa um lugar inferior... o primado da vida espiritual numa perspectiva Cristã pertence ao amor...

Não há como fugir de tal constatação ou sofismar.

É ponto pacífico sobre o qual é inutil discutir.

Portanto nossos esforços consistirão em de alguma maneira reatualizar ou reeditar o Decalogo e o Evangelho submetendo as estruturas sociais da modernidade ao veredito dos mesmos...

Tal aplicação dos preceitos do Decalogo, do sermão da montanha e do derradeiro sermão as estruturas da sociedade moderna significa de carta forma ampliar ou aprofundar o significado de tais preceitos... não se trata todavia de uma operação infalivel feita sob o influxo de qualquer inspiração, mas duma operação absolutamente natural, empreendida pela razão, passivel de cometer erros, mas humanamente segura...

Cogito com meus botões que a simplicidade, e a objetividade, e a clareza de tais preceitos facilitem sua aplicação racional as estruturas contemporâneas de organização social e a formulação duma doutrina social bastante fiel ao espírito que lhos animou.

Tal doutrina social comporta o estádio mais avançado que posso imaginar tendo em vista a aplicação dos preceitos evangélicos e a penetração do espírito de Cristo nas engrenagens sociais. Assim creio eu é completada ou finalizada a encarnação de Cristo e ele se encarna na sociedade Cristã...