quinta-feira, 2 de abril de 2009

Cristianismo e Comunismo - reflexões inconvenientes...

Já perdi a conta de quantas vezes fui chamado de comunista...

Mas não me ofendo com isso, vindo donde vem tais palavras soam como elogio...

Ofendido ficaria e muito se me tivessem chamado de liberal ou de capilatista ou seja de adorador de Mamon ou idólatra...

Mas jamais me curvei perante o vil metal...

Vá de retro...

Eu só cultuo a Jesus Cristo e não posso servir a outros senhores, aos deuses podres e carcomidos como o capital...

Também já perdi a conta de quantas vezes tive de ouvir o refrão: Não se pode ser Cristão e comunista ao mesmo tempo...

É próprio da gente mediocre fazer chover no molhado e afirmar o obvio com ares de novidade...

Diante de tanta sabença, olho para meus botões e pergunto:

- Será que nossos gênios já folhearam Cottier?

- Calvez?

- Derisi?

- Hewlett Johnson?

- Charboneau?

- Bastos Davila?

- Hikelammert?

Nada, nada...

Será que já leram:

- Sismondi?

- Bonfim?

- Leon Bloy?

- Berdiaeff?

- Henry George?

- Mounier?

- Maritain?

E povinho analfabeto...

Durante o governo militar algumas patrulhas costumavam levar consigo uma resenha de 'O Capital". Quando se deparavam com a juventude comunista, levavam os culpados para uma saleta e começavam a interroga-los sobre a obra de Marx, geralmente aquele que sabia responder as perguntas formuladas era preservado sob a promessa de que não se envolveria mais em tumultos, protestos, etc

Quantos aos que nada respodiam eram impiedosamente surrados e achincalhados: toma porrada comunistinha de quinta... toma essa comunista de araque... então não conheces o 'evangelho vermelho' seu safado... da-lhe comunistóide imbecil...

Também eu quando cursei minha primeira graduação tive a oportunidade de cruzar com esses tipos...

De marxistas que nada sabiam de Marx ou do capital... Comunistas de boca...

E ainda nutro por eles o mesmo desprezo...

Não concebo um comunista ignorante de Marx e do capital...

Entretanto nosso bom Cristão se sai melhor...

Caso as patrulhas se munissem de Evangelhos, patrologias e enciclicas papais, quantos protestantes, ortodoxos e romanos de quinta categoria não levariam dessas memoraveis coças aplicadas aos pseudo comunistas...

Faltariam carrascos para surrar tantos hipócritas...

Dos protestantes em sua maioria ouso dizer que conhecem bem mais ao Velho Testamento - a Lei judaica, aos Salmos e provérbios e a Daniel - ao Apocalipse e as Epistolas de Paulo (em especial a de Romanos) do que ao Evangelho.

Conhecem de fato a Bíblia e certos livros decorram de cabo a rabo... Mas e o Evangelho? E as bemaventuranças? E o derradeiro Sermão de Jesus? E o prólogo de S João?

Quanto aos nossos ortodoxos a situação é ainda pior.

Poder-se-a contar nos dedos os que examinaram as obras dos Santos Padres ou a tradição da Igreja.

Os muçulmanos conhecem detalhadamente seus Sahihs e os judeus seu talmud, mas os Católicos ignoram supinamente as tradições dos antigos e nada sabem de padres apostólicos, padres apologetas, padres ante nicenos (são capazes de ler anti nicenos) e padres pós nicenos...

Quem dentre os nossos já leu "O pedagogo" de Clemente, "Os principios" de Origenes, "A Demonstração" de Eusébio, "O Espírito Santo" de Basilio, O "Panarion" de Epifânio, as Cartas de Jerônimo, os Sermões do Crisóstomo, o "Cuidado devido aos mortos" de Agostinho, "O mendigo" de Teodoreto de Cirro, o "Ímpio gramático" de Severo, a "Sacra paralela" de Damasceno ou a "Panoplia ortodoxa" de Eutímio?

A maioria de nossos padres e muitos de nossos teologos sequer ouviram falar nessas obras ou em seus autores.

E se pavoneiam arrogantemente como mestres e líderes em matéria de religião...

Com a grande maioria dos papistas se sucede o mesmo.

Pois a maioria deles jamais ouviu falar em doutrina social da igreja.

Perguntai-lhes se já leram o Aquino...

Suarez?

Ao menos as Enciclicas de seus chefes como a "Rerum Novarum", a "Quadragesimo anno", a "Mater et magistra" ou a "Populorum progressio" ou ainda a "laborens exercens"?

"Grecci... non parlamo."

Cacetada neles patrulha...

Se há comunistas que ignoram Marx... há cristãos de sobra ou seja aos montes ignorando supinamente, o Evangelho, a tradição, os decretos de seus mestres, etc

Julgo que essa canalha de ignorantões devia furtar-se de lançar pedras ao telhado alheio, mas... o fanatismo não conhece limites.

Coisa triste é pontificar sem conhecimento de causa, repetindo o jargão alheio...

Caracteristica de beócios e aparvalhados.

"Ninguém pode ser Cristão e comunista."...

Tal a fúria do 'Aquiles' redivivo...

Mas Aquiles tem defeito no calcanhar.

Devia protege-lo, mas não o faz.

Deite-mos pois nosso aquiles ao chão.

Certamente que niguém em sã consciencia pode ser ao mesmo tempo comunista e Cristão.

Pretende-lo seria pretender ser alto e baixo ou gordo e magro ao mesmo tempo.

O Cristão afirma a encarnação de Deus enquanto Marx era agnósta ou como dizem ateu ( na fase da juventude fora ateu, depois agnósta. )...

O Cristão afirma a ressurreição da carne enquanto Marx era materialista negando a existência do espírito ou sua imortalidade.

A antinomia é manisfesta.

O Cristão não pode aceitar o comunismo enquanto sistema fechado ou ser comunista ortodoxo.

Há elementos na teoria marxista ou no pensamento de Marx - como o agnosticismo e o materialismo antropológico - que ele jamais poderia endossar.

Todo Cristão mais ou menos instruido tem plena consciência quanto a tais obstáculos.

De minha parte não conheço Cristão que endosse os postulados marxistas a respeito do Cristianismo ou a respeito da natureza humana. Regeitamos pois o conteúdo 'filosofico' ou 'psicologico' do marxismo e a pretensa infalibidade de Marx nessas áreas.

Logo, não somos marxistas ou comunistas...

Por outro lado, nos distinguimos dos hipócritas, porque sabendo que Marx errou neste ou naquele ponto, não afirmamos que ERROU SEMPRE E EM TODOS OS PONTOS. MUITO PELO CONTRÁRIO ENDOSSAMOS TODA SUA CRÍTICA NOS PÓDROMOS DA ECONÔMIA E DA SOCIOLOGIA.

Quem generaliza vã e tolamente são nossos adversários alegando que nada há de digno ou de aproveitável na obra de Marx, elogiada até mesmo pelo Papa romano Bento XVI em seu último livro...

Ousarão dizer que Bento XVI é comunista?

Concordamos em gênero, número e gráu com a crítica feita por Marx ao sistema liberal ou capitalista.

Vós sois os capitalistas e nós não somos nem capitalistas e nem marxistas...

Vós é que advogais o Reino do dinheiro, do capital e do lucro... marx teve o mérito glorioso de vindicar o homem... nós buscamos o Reino de Deus...

Como Marx, admoestados por Jesus, também lutamos pelo homem e sua dignidade. Portamos armas diferentes, mas a luta, o objetivo é o mesmo: destruir o Reino da injustiça, da morte e da mentira.

Aceitamos sim um conteúdo marxista dentro do terreno da econômia e não as injunções duma teocracia hipócrita que não foi capaz de evitar a formação dum sistema econômico materialista que se julga acima do bem e do mal.

Porque em face a uma igreja moralmente fraca o econômico ousou fazer petição a Maquiavel e proclamar sua autonomia ou independência com relação a moral. E fe-lo em países nominalmente Cristãos...

Foi em nossos países teoricamente Cristãos que germinou e medrou pela primeira vez a erva má do economicismo. O economicismo é isto: que o econômico se afirme como irredutivel perante a moral e que pretenda tomar as rédeas da sociedade afirmando valores...

O capitalismo representa a falência definitiva duma certa forma de Cristianismo. Significa sua derrota perante o materialismo, pois é a religião do dinheiro em oposição a religião de Jesus.

O capitalismo torna manifesto perante o mundo que o Cristianismo Ocidental não cumpriu com sua função de Cristianizar o mundo ou de lançar os fundamentos duma nova ordem, duma ordem mais afeita as coisas espirituais...

O capitalismo significa a vitória ou o triunfo da lei de mercado em oposição a lei baixada do céu.

Trata-se dum sistema visceralmente anti-humano e neste sentido muito mais anti-Cristão e apartado do Cristianismo que o marxismo.

Não pode o homem ser Cristão e liberal ao mesmo tempo porque o Cristianismo afirma a submissão do político e do econômico, enfim de tudo quanto é humano, a esfera da moral, enquanto que o liberalismo - como diz o próprio nome - insinua que o político e o econômico são regidos por leis próprias as quais não tem relação alguma com a moralidade estando acima do bem e do mal.

Afirmar ou reconhecer a autonomia do político e do econômico quanto ao Decalogo e o Evangelho é fazer uma afirmação imoral.

Para o Cristão todos os setores da vida humana - incluindo as relações políticas e econômicas - passam pelo Evangelho, pela tradição cristã e por elas são julgadas, balizadas e inspiradas.

Para o ortodoxo a pretensa autônomia do econômico afirmada pelos liberais é absolutamente vã. Não foi o homem feito para a econômia, devendo adequar-se a ela, mas antes a econômia é produto do homem, foi criada por ele e ele é certamente um ser moral.

Deve o político, a luz do Evangelho e por ele inspirado, controlar o econômico e legislar a favor do homem sempre que sua dignidade estivar ameaçada. Deve o estado Cristão proteger e vindicar os direitos de trabalhadores que como Jesus e seu pai adotivo conquistaram o pão com o suor de seus rostos...

Onde há suor e não há pão, ou agasalho, ou teto ou saúde, lá deve estar presente o Estado e intervir, limitando as exigências de um mercado que nada representa senão o egoismo de seus participantes.

Ambas as teorias: a maquiavélica, do Estado imoral e a Smithiana da não intervenção estatal no setor econômico são intrisecamente anti-cristãs.

Os padres e doutores da Igreja jamais conheceram um estado imoral e uma econômia livre, para eles um estado de coisas semelhantes pareceria o Reino do anti-Cristo e de fato assim o é.

Cristo não pode reinar sobre uma sociedade cuja política seja impermeável aos valores afirmados no seu evangelho e cuja econômia construa seus próprios valores, sejam a margem ou em franca oposição aos valores autenticamente Cristãos.

Onde tais valores ou tal ética não forem proclamados e respeitados não há Cristianismo, mas puro e simples farisaismo.

Não pode o homem ser simultaneamente Cristão e capitalista.

Quem nega a antinomia patente entre ambos os sistemas mentiroso é.

Pois a instituição Cristã, como o nome já diz é de Cristo e faz com que tudo, absolutamente tudo gire em torno de sua pessoa: social, o político, o econômico, etc

Tudo passa por Cristo, com ele se relaciona e é por ele santificado.

Para a insituição capitalista tudo, absolutamente tudo ( em caso de dúvida leiam Haieck e Friedmann) gira em torno do capital e do lucro.

Friedmann ousará falar em capital humano...

E já percebemos que aqui tudo passa pelo dinheiro, tudo se relaciona com ele e é por ele disvirtuado.

Pois havendo - e sempre há, conflito entre o Cristo e o dinheiro, o dinheiro deve levar a melhor e o Cristo ficar a ver návios...

Por isso tal sistema merece ser rotulado como idólatra...

Suponhamos que Cristo nos mande investir no céu auxiliando o mendigo que está a passar diante de nossa porta... o sistema porém recomenda que poupe o dinheiro e invista aqui mesmo na terra: na poupança, na bolsa de valores, etc

As portas fechar-se-ão e os pobres morrerão de fome, de frio ou de peste em plena era da auto-suficiência, quando sabemos que há abundãncia de recursos. Entretanto tais recursos não chegam aos necessitados... e porque? Porque são transformados em capital tendo em vista o aumento dos lucros.

Num tal estado de coisas não há espaço para o pobre. Ele é pois lançado a sarjeta, marginalizado e sacrificado aos deuses infernais ou seja aos intereses do capital...

E a Cristãos que encaram esta situação de rivalidade e morte como absolutamente natural. Pessoas desse nivel perderam já todo sentido do Evangelho, todo amor fraterno e todo temor de Cristo... são verdadeiros pagãos disfarçados de Cristãos.

Coam o inseto do marxismo mas lambem o rabo deste elefante chamado capitalismo sem fazer caso do evangelho ou das moralidades...

Mostra-nos há mestra da vida que não foi o comunismo quem pariu o economicismo, o materialismo, o relativismo moral e tantas outras entidades monstruosas que assombram o nosso tempo... todas foram expelidas por esse Orco que é o capitalismo, inclusive o comunismo, que dele recebe tudo quanto tem de negativo: o ateismo e o materialismo.

Pois o comunismo é legítima cria do capitalismo por via de oposição, enquanto negação do mesmo. Se não houvesse existido capitalismo selvagem antes, ele não poderia ter sido objeto de negação da parte do comunismo...

Por isso o primeiro significa ação e o segundo reação o primeiro causa e o segundo consequência.

Ora não se pode suprimir uma reação ou consequência sem que se suprima sua causa...

Por isso o comunismo só poderá ser destruido quando o capitalismo for superado por uma humanização ou personalização das relações economicas. Enquanto as relações econômicas permanecerem atreladas aos falsos conceitos exarados pelos srs Smith e Ricardo ou seja enquanto forem materialistas e geridas pelo mercado existirá comunismo e terá razão em existir.