sexta-feira, 3 de abril de 2009

A ostra e a pedra...

Por Domingos Pardal Braz

A dinâmica dos últimos textos dados a publicidade obriga-me por assim dizer a abordar um tema que desejeva ter abordado a muito tempo mas cuja publicação vinha protelando por uma questão de ordem e sistema.

Gosto de escrever sobre temas conexos e de relacionar um com o outro.

Mas...

Nem sempre é possivel faze-lo.

As vezes somos constrangidos a antecipar... e antecipar uns significa sempre postergar outro e sacrificar o espírito de sistema.

Mentalidade aristotélica com vezos de escolástica que sou não me é fácil sacrificar.

Entretanto se postergar agora perderei o Kairos e não o quero perder.

Quero desenvolver neste artigo uma posição que já situei no artigo precedente: o Criacionismo.

Não são poucos aqueles que conhecem minha luta contra essa ideologia fetichista.

Sou anti-criacionista convicto e combativo. Tenho a honra de pertencer ao mesmo sistema religioso a que pertendeu Th Dobzhansky, um dos pais da teoria sintética.

Para mim o Criacionismo incorpora em si duas teorias que eu como ortodoxo não endosso e nem posso endossar: o biblismo e a inspiração plenária e linear.

O protestantismo deverá ser sempre um campo propício ao crescimento dessa erva má e perigosa tendo em vista o desenvolvimento da ciência e da civilização.

Ou sacrificará seus princípios constituitivos reconhecendo sua origem puramente humana e sua inanidade ou mante-los-a fielmente. Se decidir mante-los será sempre seguido pelo criacionismo tal como o corpo é seguido por sua sombra.

Se somos evolucionistas convictos e Cristãos de fé é justamente porque nosso credo não comporta o biblismo e tampouco a inspiração plenária...

Entretanto para aquém dos dogmas e doutrinas a temática do evolucionismo e do humanismo comporta um significado muito mais amplo e profundo, uma espécie de visão de mundo ou espírito.

No século XVII o sacerdote papista Campanella e o cientista Galileu Galilei seu confrade escreveram algumas obras sobre as relações travadas entre a ciência nascente - após os delírios da Idade Média - e a religião.

Para compreender-mos o significado de tais obras e da luta titânica que ora travamos (nossa Kulturkampf) convem retroceder nossa analise ao surgimento das ciências lá na Grécia antiga, cerca do século VII - VI a C.

Antes do surgimento da Filosofia e das ciências suas filhas todas as explicações referentes ao mundo, a vida, ao homem e a sociedade eram oferecidas pela instituição religiosa sob a forma de mitos e alegorias.

Os remédios do homem eram orações, seu julgamento eram ordálios, seus guias em matéria de política eram os deuses que falavam por meio de oráculos... os sacerdotes eram a um tempo médicos, juizes e ministros dos reis e tudo controlavam, tudo detinham em suas mãos...

A Grécia todavia assistiu o desabrochar dum novo conflito ou duma nova luta sobre a qual infelismente sabemos muito pouco, mas que, pelo pouco que sabemos deve ter sido tão titânica quanto a nossa... Homens mataram, homens morreram, homens exilaram, homens foram exilados, homens toruraram, homens foram torturados, homens multaram e homens foram multados por suas idéias, melhor dizendo, por duas idéias e duas instituições visceralmente opostas uma a outra.

No momento em que a Filosofia e a Ciência surgiram nos tempos de Pitágoras e Tales iniciaram sua requisição que era explicar tudo quanto se refere a este mundo material: o planeta, a vida, o homem, a sociedade, etc

Ora tal requisição comportava uma perda significativa de terreno no que se refere a instituição religiosa e ela não estavam nem um pouco inclinada a abrir mão dele assim tão facilmente, ou seja, sem luta.

E os sacerdotes lutaram mesmo, lutaram por seu pão e por seu prestígio, gritando ateus, hereges, sacrílegos, etc todas as vezes que um Parmênides ou um Zenon ousava excluir a intervenção dos deuses, o fetichismo ou a mitologia de suas explanações...

Desde o começo a Filofosia ou a ciência teve muito que sofrer pois a religião estando mancumunada com os reis detinha o poder.

Resultado...

Pitágoras é queimado vivo em sua escola, Hípias de Élis passado a espada, Sócrates condenado a beber Cícuta, Protágoras tem seus livros queimados, Anaxagoras é processado pelo aerópago e só se salva devido a intervenção de Péricles, Aristóteles expulso de Atenas, Hipócrates acusado de impiedade e corrido de cidade em cidade, etc

Os Anitos e Melitos da antiguidade tudo fizeram com o objetivo de destruir a Filosofia e de sufocar a ciência em seu berço...

Não lograram todavia realizar seu pérfido intento e tiveram que aceitar conviver lado a lado com a ciência até a destruição do Império romano... Assim após a morte de Aristóteles estabeleceu-se um tático acordo: a religião ficava com os deuses, anjos, almas e o mundo invisivel para sí e a ciência ficava com o mundo material: com o universo, a vida, o homem e a sociedade...

Devido a este acordo a ciência antiga teve seu 'status' reconhecido e pode desenvolver-se até meados do século I quando o pensamento neoplatonico triunfou e por assim dizer deu cabo do pensamento empirico ou científico.

Depois vieram os bárbaros...

E devido a eles as coisas voltaram a ser o que haviam sido antes...

O sacerdote, pagão ou Cristão, passou a explicar praticamente todas as coisas... a Idade Média assiste a ressurreição da mitologia, especialmente da mitologia hebraica.

Pois como o Novo Testamento - escrito no contexto acima descrito - reflete um tipo de religião muito mais espiritualizada, (pertinente a Deus, as almas e ao mundo espiritual, uma verdadeira revelação do oculto e do transcendente sem pretenssões de penetrar e invadir o terreno do imanente, pertencente a ciência.) os sacerdotes tiveram de recorrer as fábulas do Velho Testamento compostas num tempo em que a ciência ainda não existia.

Durante os mil anos subsequentes o Velho Testamento, do mesmo modo que a mitologia grega antes, passou a ser encarado como uma espécie de panacéia ou almanaque dos escoteiros, ou seja como um livro que continha respostas sobre todas as coisas: o surgimento do universo (nada mais conforme a mentalidade dos conquistadores bárbaros que o fetichismo criacionista) o surgimento do homem, a forma da sociedade, etc

Entretanto no século XIII a Europa assiste ao renascimento das letras e vai sendo alfabetizada...

Como resultado desta alfabetização e do reaparecimento da literatura greco-romana que não fora destruida pelos bárbaros ou que foram traduzida do árabe, o século XV assistirá ao renascimento da Ciência, a invenção da pólvora e da imprensa, a descoberta da America, etc

No século XVI esta ciência incipiente cultivada antes de tudo por Leonardo Da Vinci, fincará seu pé na Europa e assinalará o surgimento duma nova Idade, a Idade moderna.

Os Agricolas, Vesalius, Copérnicos, Galileus, os Bacons, os Campanellas, os Descartes, etc fazem com que os ossos secos da ciências ganhem vida.

Reproduzir-se-a o antigo conflito entre o sacerdócio e a ciência como na Grécia antiga? Encetará o clero cristão a mesma luta inglória encetada pelo clero pagão?

A luta pelo pão e pelo prestígio é reiniciada com os mesmos gritos: ateu, herege, ímpio, etc as fogueiras são acesas e os sábios põe-se novamente em fuga...

Vesalius é exilado e morre de fome; Servet, Gentile, Bruno e Vanini são queimados; Copérnico é ferreteado por Lutero como sendo um 'Pôlones maluco', Galileu processado pela inquisição, Agricola deixado insepulto pelos fanáticos de sua cidade, Nils Celsius processado pelos líderes luteranos, Campanella aprisionado pelo papa, (sobre Priestley ja falamos), etc

Em tais contigências Campanella e Galileu fazem o que Tertuliano fizera pelo Cristianismo em tempos de perseguição, escrevem suas apologias da Ciência, propondo como modelo de sociedade a ser adotado aquele que fora adotado pelos gregos após a morte de Aristóteles e mantido pelo império romano ou seja a divisão das áreas entre a religião e a ciência.

Segundo um e outro a religião - inspirada no Novo Testamento por sinal - deve ater-se as coisas divinas, celestiais e insiveis: Deus, imortalidade, paraiso ou céu, Cristo, graça, etc as quais são por assim dizer seu terreno próprio, enquanto a ciência caberia esplicar a origem do universo, da vida, do homem, bem como a organização da sociedade, enfim tudo quanto é natural, eis o seu terreno.

Está idéia sumamente sábia foi desenvolvida posteriormente pelos Hobbes, Lockes, Humes, Baileys, Voltaires, Russeaus, etc e firmou-se cada vez mais tanto nas terras anglicanas, quanto nas romanas e até mesmo nas luteranas, enfim na Europa inteira que assim se viu expurgada das teorias fundamentalistas, fetichistas e judaizantes especialmente a partir do século XIX.

Ao menos na Europa contemporânea a ciência reconquistou seu espaço com anuência da religião. Tanto melhor para a religião que ao invés de perder seu tempo imiscuindo-se em assuntos já naturais, ja temporais, pode dedicar-se mais a teologia e sobretudo a benemerência e ao assistêncialismo.

Afinal quanto uma religião tem o que FAZER não dissipa seu tempo inutilmente tentando responder a questões que não lhe dizem respeito e a controlar todas as esferas. Uma religião que deseje dominar ou controlar a sociedade teocraticamente é com toda certeza uma religião paralítica, que não age, que não cumpre com suas funções sociais...

A igreja deveria estar completamente absorvida por problemas teologicos ou melhor Cristológicos e ocupada em assistir concretamente seus filhos... entretanto o que ela quer e deseja é invadir o território da ciência e semear novos conflitos, conflitos há muito sepultados.

O propósito do Criacionismo é justamente destruir este equílibrio ou acordo tácito e revindicar para a religião a competência que não lhe pertence de explicar a origem do mundo, da vida, do homem, da sociedade e de tudo controlar...

Lembram da Idade Média?

Por trás da cantilena criacionista se oculta a velha Hidra da teocrácia, porquanto após perder o controle sobre a ciência a religião veio a perder o controle sobre o político... assim a começar pela ciência emergiu o mundo secular e livre sem câmaras de tortura e fogueiras.

Após reconquistar o terreno perdido a ciência o sectarismo sentindo-se mais forte pretenderá assenhorar-se do político e ditar leis a sociedade...

Lembram da Idade Média?

Até mesmo a Idade Média se assemelhará a um paraíso se tivermos em vista o que está sendo urdido agora. Pois os fundamentalistas protestantes sempre idealizaram restabelecer a lei de Moisés em sua integralidade e converter o mundo inteiro numa nova Genebra...

O motor desse conflito é que o Velho Testamento foi escrito numa época pré científica na qual cabia a religião explicar absolutamente tudo. Assim sendo os sacerdotes hebreus consignaram nele explicações sobre a origem do mundo, da vida, do homem, da sociedade, etc inspiradas em narrativas sumero-babilônicas de matiz fetichista...

Os protestantes entretanto afirmam a teoria da inspiração plenária e linear pouco caso fazendo da distinção existente entre o Velho e o Novo Testamento, entre os patriarcas e profetas hebreus e o Verbo encarnado, para eles é tudo a mesma coisa, não distinguem entre o Gênesis e o Evangelho de João...

Portanto para a maioria deles todas essas fábulas opostas aos fatos cientificamente comprovados são como que dogmas da religião Cristã.

Percebeu o Cristianismo que sobre a pedra da fé ou da Igreja foi se desenvolvendo um complexo de teorias e fábulas judaicas... essas fábulas ou teorias poderiam ser comparadas com uma ostra ou um mexilhão.

A ostra ou o mexilhão se instala sobre uma superficie rochosa e sólida e ali se desenvolve, cresce, etc mas, sem embargo não consegue mudar ou alterar a natureza da pedra... ostras e mexilhões são de todo impotentes para danificar uma rocha...

Separadas as fábulas e as teorias judaicas do Novo Testamento ele permanece sendo o que é: o Novo Testamento... mortos os mitos o Evangelho e o Cristo permenecem de pé, sempre invictos!

Entretanto cristãos há que pretendem manter vivos os mitos para que Cristo continue a ser regeitado pelos homens instruidos...

Queridos o bonde de Cristo não precisa trazer Moisés, David ou Salomão no reboque...

Somente quando a Cristandade aprender a anunciar apenas o Cristo, seu amor, sua graça, sua lei, etc estará cumprindo seu papel. Por ora permanece cumprindo papel de tola: anunciando o judaismo.