sábado, 9 de maio de 2009

As escrituras santas, a igreja e os soldados!

Lí, como sempre leio, com máxima empátia e interese o último artigo publicado pelo Dr Carlos Seino sobre o tosltoismo ou pacifismo e a guerra.

E gostaria de assinalar igualmente minha grande veneração pela querida alma do unitário e universalista (logo liberal) Adin Ballou, de cujo pensamento tanto Tolstoi quanto eu somos tributários. Pois Adin Ballou ao examinar seriamente os Santos Evangelhos não tardou a fazer-se: abolicionista, pacifista e socialista... e ele não compreendia, como nós não compreendemos como alguém pode examinar as mesmas fontes sem chegar as mesmas conclusões, óbvias alias, apresentando ao mundo um Cristianismo totalmente descaracterizado e revestido de farrapos judaicos.

Refiro-me aquela espécie de Cristianismo citada em meu último artigo ou seja a esse Cristianismo escravocrata, individialista, truculento, belicoso, elitista (refiro-me justamente a teoria ímpia da presdestinação de alguns eleitos) e pró capitalista, tipicamente calvinico e fundamentalista. Não percebo nesta espécie de Cristianismo nenhum valor genuinamente Cristão mas apenas o amargor farisaico tendo em vista tudo quanto é belo, nobre, bom e elevado...

Apesar de Ortodoxo - porque meu credo é o credo das santas Igrejas plantadas pelos apóstolos (não sou unitário) - ouso proclamar-me como um dos inumeros herdeiros desta causa partilhada por todos os Cristãos verdadeiros e por todos os bons protestantes. Pois se afirmar que os contrários são, também eles, verdadeiros Cristãos e simultaneamente proclamadores de doutrinas de mortes estou a relativizar a pregação de Nosso Senhor Jesus Cristo o que é para mim a suprema falta de respeito para com ele: a leviandade para com sua palavra enquanto expressão de sua vontade.

Porque sou Cristão?

Porque creio que Jesus Cristo comunicou objetivamente, de modo claro, direto e franco, sua santa vontade aos seres humanos para que estes - por força de sua divina graça - passassem a viver em sintônia com ela. Pois caso acreditasse que a vontade de Cristo é obscura e ininteligivel o Cristianismo para mim se assemelharia a um galho de árvore ressequido e podre. Entretanto a consciência Cristã alimentada pelo Evangelho puro e sem mistura bem como pela tradição - mesmo no terreno do protestantismo - jamais perdeu de vista tais valores, essências aquela vida espiritual que tende a divinização na eternidade... Venero pois aquela ética predominante entre todos os bons protestantes cujos corações estavam voltados para esse Verbo e me inclino com reverência diante dos Ballou e dos Diamond enquanto ao mesmo tempo denuncio a esse protestantismo ortodoxo representado por Calvino como a suprema ameaça a ação desse Verbo luminoso sobre a terra...


Se estendesse as maõs aos calvínicos e fundamentalistas dizendo que são perfeitos Cristãos e salvos apesar das convergências, estaria incidindo no relativismo e atraiçoando a única e real vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo a qual exige de mim, como exigiu de João, de Ambrósio, de Crisóstomo, de Martinho, de Agostinho, de Waso, de Palleario, de Castellion, de Fevardentius, de Ballou, de Diamond, de Tostoi, de Bonhoeffer... uma adesão incondicional e irrestrita a vida e a sua dignidade.

Portanto só me resta admitir que parte dos calvinicos devem estar de boa fé porquando a leitura literal do Antigo Testamento lhes tapa aos olhos como um véu e lhes cauteriza as mentes carnais.

Mas vamos logo ao que interesa...

Havia dito o Senhor Cristo que os "Filhos da escuridão são mais dedicados que os filhos da luz." e ao que parece as coisas tem permanecido mais ou menos nesse pé até o dia de hoje.

Todos sabemos que Jesus condenou a agressão, a violência e a opressão talvez com uma ferocidade maior do que aquela com que Nietezche afirmou-as... Esse Nietezche que tanto odiava ao Evangelho e que tanto apreciava os livros judaicos... esse Nietezche filho de pastor luterano e educado na tradição de lutero...

Como poderia aquele que disse: amai-vos uns aos outros... santificar as guerras que são monumentos de iniquidade erguidos em homenagem ao ódio?

Entretanto os judaizantes encontraram logo um dispositivo ou uma brecha com que anular ou relativizar a palavra de Cristo...

E desde o princípio teem recorrido a ele em suas polêmicas pró guerra - digo nas mais lúcidas que tendem a firmar-se no campo do Novo Testamento - de Tertuliano e Hipólito a Ballou e Tolstoi...

Jesus e seus apóstolos conviveram com soldados, acolheram os soldados e foram benevolentes para com eles ao invés de condena-los ou de afirmar que os exércitos deveriam ser abolidos.

Entretanto esta escrito que Jesus acolheu aos pecadores todos, visando, evidentemente sua transformação, especialmente no que diz respeito aos publicanos ou cobradores de impostos, porquanto a Zaqueu foi ordenado fazer penitência e não permanecer roubando.

Do fato de Jesus ou de seus apóstolos terem sido afaveis para com um determinado tipo de pessoas não significa que a instituição ou profissão a que elas pertencem bem como todas as suas ações e operações sejam aprovadas por Jesus...

Admiti-lo seria admitir que por acolher as prostitutas Jesus quiz dizer que nossas filhas deveriam converter-se em hetairas ou que conferiu imprimatur ao Kama Sutra...

Não podemos pois deduzir, do fato de Jesus Cristo ter acolhido diversos soldados, que ele aprovou a todo tipo de guerras em especial as guerras de agressão e de imperialismo. Pois pronunciou-se claramente a esse respeito quando disse: Ditosos os pacíficos.

Se os pacificos são ditosos os não pacificos ou belicosos só podem ser classificados como desditosos e ímpios.

Existem três motivos bastante plausiveis que nos auxiliam a compreender porque Jesus Cristo - esse mesmo Jesus Cristo que condenou o espírito de agressão - acolheu aos soldados romanos com tanta delicadeza:


a) Porque não teve em vista a instituição a que pertenciam, mas apenas e tão somente o cárater da pessoa em questão.

Admitam nossos adversários, ao menos por um momento, que Jesus é pacifista e que condenou todo e qualquer tipo de agressão ou de opressão pautada na força bruta.

Entretanto esse mesmo Jesus acolhe caridosamente aos soldados romanos, soldados que eram empregados na guerra e que dela tiravam seu sustento.

Cumpre assinalar que nenhum dos acolhidos por Jesus eram generais ou capitães como Múmio ou Pompeu, os verdadeiros responsáveis pelo imperialismo romano e seus principais beneficitários, Jesus acolheu a simples soldados, no máximo a cabos ou auxiliares.

Individuos que naqueles tempos procediam de estamentos sociais tanto mais humildes e que não levavam uma vida assim tão fácil.

É possivel que parte desses soldados fossem conduzidos ao exército e a guerra, mais por necessidades de ordem material do que pela vontade de ver o sangue correr, e que no fundo alguns deles abominassem essa triste ocupação... Pois muitas vezes para sobreviver o homem é constrangido a fazer, contra seus sentimentos e vontades, coisas que seu coração e alma abominam... e sofre verdadeiramente por isso, entretanto não goza de liberdade (exceto para morrer ou assistir seus queridos morrerem de fome).

E onde não há verdadeira liberdade não há verdadeira responsabilidade ou grave culpa.

Outros tantos estavam barbarizados pela educação e pelo sistema sendo igualmente diminuida suas culpas.

Por isso acolheu Jesus a esses homens ou pessoas oprimidos e desorientados pela própria instituição a que serviam e tão vítimas quanto aqueles que porventura imolavam sem se deleitar com isso...

Distinguiu Jesus como sábio que era entra a instituição e seus fins e os homens ou pessoas que por força de estruturas a que não podiam resistir faziam parte dela.

Percebeu Jesus que o coração destes soldados não apreciava a morte, a carniçaria, a opressão e a injustiça. Captou a nobreza dos sentimentos que estavam por baixo daquelas couraças...

Acolheu a homens sim, mas de modo algum teceu encômios a instituição a que pertenciam ou aprovou seus abusos.

Ao acolher os soldados não acolheu Jesus a pena capital ou a guerra que expressamente condenará em outras ocasiões, mostrou-se tolerante e compreenssivo para com os homens e não para com as doutrinas de morte...


b) Porque haviam guerras que eram justas tendo em vista a defesa ou preservação de um Estado fraco atacado por um Estado mais forte.

E tais estados - mais fracos - deviam necessariamente possuir um exército e soldados para que o estado vizinho não fosse levado a ataca-lo e invadi-lo.

Se Jesus tivesse determinado a desmobilização de todos os exércitos estaria colocando os paises menores e mais fracos nas mãos dos grandes impérios e fortalecendo a prepotência e o imperialismo dos mesmos.

Por isso Jesus não condenou ao exército de modo absoluto e tampouco o oficio de soldado, pois destarte estaria impedindo as vítimas ou os agredidos de se defender e auxiliando aos fortes e poderosos.

Em tése a existência de um exército - refiro-me a exércitos e soldados e não a armas de destruição em massa - não é apenas lícita mais até mesmo necessária tendo em vista uma política internacional equilibrada, especialmente se levamos em conta que nações inteiras promovem a guerra e o imperialismo em nome de Jesus.



c) É necessário considerar ainda que a polícia enquanto instituição 'sui generis' separada do exército é de origem bastante recente.

Como não havia polícia no tempo de Cristo cabia ao exército ou aos soldados essa função social bastante importante que era reprimir aos crimes e impedir que nas nações mergulhassem na anomia ou na anarquia.

Abolido o exército os cidadãos deixariam de ser fiscalizados, os crimes de serem punidos, a justiça de ser feita e os recursos de serem colatados impedindo toda e qualquer organização política ou estatal. Naquele tempo mais do que hoje era impossivel que um pais ou uma nação subsistisse sem exército de modo que ordenando a abolição do exército naquelas conjunturas Jesus estaria atingindo igualmente ao estado e ordenando sua dissolução.

Disto resultaria uma situação muito pior de anarquia e individualismo plenos e sem qualquer vinculo social e que conduziria o mundo antigo a sua total destruição.

Na antiguidade o exército e os soldados eram um mal necessário a organização e manutenção do estado compreendido como uma situação de paz e harmonia interna.




Entretanto mesmo sem condenar a instituição do exército e as guerras injustas é absolutamente certo que a Igreja nascente - ao menos até o século III - condenou inexoravelmente o cárater belicoso do imperialismo romano e seu espírito agressivo.

Disto temos referência já em Tertualiano, já em Hipólito que condevam a função ou cargo de soldado tendo em vista a situação específica do império romano e seu cárater agressivo com relação aos povos limitrofes que desejava submeter e conquistar.



Conclusão: se a igreja - tendo em vista as considerações acima elencadas - jamais condenou, como seu fundador jamais condenara, de modo absoluto a existência do exército e a função de soldado, é certo que em certas ocasiões condenou tal instituição e cargo, sempre que ele distinguiu-se pela agressividade e o espírito belicoso, os quais são, por assim dizer incompativeis com os valores expressos pelo Evangelho.

Não condenou nem o exército, nem os soldados, nem as guerras de defesa que são justas, condenou entretando todas as guerras de agressão ou conquista que são iniquas e a pena capital.

Atingiu o mal em seu coração mesmo condenando ao espírito ou a ideologia da força e da agressão.