sábado, 13 de junho de 2009

Desfazendo equívocos IV - Para além do capitalismo e do comunismo

Por Carlos Seino
Fiquei feliz e satisfeito ao ler o último artigo do Professor Domingos, desfazendo-se, assim, todos os possíveis equívocos de nossas últimas postagens.

Em 1974, salvo melhor juízo, ocorreu o Pacto de Lausanne, em que se reuniram evangélicos do mundo todo, cujo comando esteve nas mãos do anglicano Dr. Jonh Stott, de quem sou tributário de boa parte de seu pensamento.

A palavra de ordem de tal pacto foi justamente "todo o evangelho para o homem todo", e visava combater, justamente, o protestantismo de cunho norte americano, voltando unicamente para a salvação da alma, desprezando assim todo o resto.

Entretanto, como bem lembrou Domingos, a espiritualidade cristã é uma espiritualidade encarnada. Tal sabedoria levou inclusive a aprofundamentos dos estudos em antropologia teológica, tornando obsoletos boa parte dos debates entre dicotomistas e tricotomitas, passando-se a enxergar o ser humano como unidade psicossomática, mudando inclusive a forma de atuação as igrejas signatárias do referido pacto, buscando levar, conforme dito, "todo o evangelho para o homem todo".

Portanto, eis do desafio de todas as igrejas ditas cristãs. Desafio este muito difícil, sabemos, pois falta recursos e pessoal para as igrejas sérias. Mas um desafio que não pode ser ignorado.

De fato, quando falamos em dinheiro, sem dúvida nenhuma, o amor a este é a raiz de todos os males.

Por isso, em minhas aulas, costumo mencionar que o cristianismo não é, nem capitalista, nem comunista (marxista, ainda que, por uma certa ótica, possa ser considerado socialista - talvez utópico, ou mesmo anarquista).

Não é capitalista pois este prega o amor ao lucro, ao acúmulo, à concorrência, etc.

E o cristianismo prega o desapego, a partilha, o considerar o outro superior e ajudá-lo, não a concorrer com ele.

Entretanto, entendo não ser também o cristianismo marxista, visto este, até onde sabemos, ter historicamente se utilizado da violência para buscar seus fins, e criar uma igualdade artificial, forçada, além de um sistema, onde, nas palavras de certo pensador, autor de "A revolução dos bichos" e "1984", neste sistema, "todos eram iguais, mas alguns eram mais iguais que outros..."; em uma clara referência aos líderes do partido. Além do que, em tais sistemas, visto abolirem completamente a Deus, acabaram-se criando outros ídolos para serem adorados, quais sejam, os grandes líderes nacionais. E um ídolo, sabemos, é muito mais exigente e cruel com seus seguidores e opositores. Além do que, a destruição em massa de cristãos ortodoxos em todo o mundo socialista contribui para que eu desaprove completamente este sistema.

O cristianismo pode, no meu sentir, ser chamado de comunitarista, visto que, forma comunidades que, como um fermento, vão influenciando o mundo. Comunitarista, pois o seu fim mais perfeito é aquele em que ninguém considere nada como sendo exclusivamente seu, mas o coloque a disposição de toda a comunidade. Que divida o seu bem com todos. Mas isso, voluntariamente, não porque foi forçado.

O cristianismo, no meu sentir, tem esta capacidade de se criar o "homem novo", desejado por Marx, mas que o marxismo nunca conseguiu criar, pois neste, falta o conceito de graça, e onde falta tal conceito, falta a vitalidade necessaria para uma verdadeira transformação. As regras são sempre heterônomas, e não modificam o homem em seu interior. Já, a graça, trabalha de dentro para fora. Daí, eu nutrir grande admiração pelas comunidades anabatistas pacifistas dos tempos da Reforma, por Menon Simons e Balthazar Hubmeier, entre outros (não ignorando, obviamente, algumas esquisitices de alguns contemporâneos menonitas, mas ainda assim, nutrindo muita admiração por seus membros espalhados por todo o mundo). Acho que características muito marcantes deste tipo de cristianismo, que, no meu sentir, está muito distante do que é o cristianismo histórico, seja católico, ortodoxo ou protestante, também estão presentes na comunidade quaker (há algumas cartas maravilhosas de Voltaire elogiando este grupo, numa coleção denominada, salvo melhor juízo, "escritos filosóficos").

Entretanto, apesar de tudo isso, verifico que a presença do cristianismo é fraca no mundo. A da religião cristã é forte, mas do caminho determinado pelo mestre, é muito escassa. Se adotarmos a leitura de Tolstoi acerca do cristianismo, o que há realmente espalhado por todo o mundo, é a superstição cristã. Tolstoi, que não nutria nenhum respeito pelos sacramentos, entendia serem estes meras superstições inúteis, que tornavam todo o povo dependentes deste clero detentor de tais poderes mágicos. E toda uma população fora violentamente forçada, por séculos e séculos, desde Constantino, a acreditar nisso. O clero, naquele país, sempre utilizado para escravizar e conformar todos ao poderio dos czares.

Entretanto, a medida que a miséria foi se tornando insuportável, a Igreja não percebeu, mas tinha perdido os pobres para uma outra ideologia. Isto porque, a igreja deixara de ser a igreja dos pobres, para ser a igreja dos nobres que escravizava os pobres. O mesmo ocorreu na Alemanha, segundo Tillich, com a Igreja oficial. Foi essa evazão que possibilitou a revolução comunista em um país que, diferente do que Marx preconizara, tornou-se socialista antes de ser capitalista (na verdade, nenhum dos países que se tornaram socialistas havia passado por um capitalismo maduro). De qualquer modo, tenho por mim que, ainda que com todas estas falhas, quase um século de socialismo não foi suficiente para extinguir a Ortodoxia (afinal, as portas do inferno não prevaleceriam contra a igreja de Deus) daquele país, mas talvez a tenha fustigado para se tornar uma igreja melhor, assim como Nabucodonosor também um dia fustigar Israel para que este nunca mais caisse no culto idólatra. Particularmente, entendo que, o socialismo nunca "pegou" nos países protestantes e reformados porque a desesperança e falta de oportunidades da população nunca chegou aos níveis do que ocorreu em alguns países católicos e ortodoxos, como é o caso da população dos países latino americanos, que estão novamente repetindo a história, tomando-a em suas mãos, mas praticamente à parte da Igreja Católica. Além do que, ainda que mais burguês, o protestatismo, no meu sentir também logrou maior êxito em atrair o povo leigo para a participação eclesial, visto que, desde Calvino, os presbíteros são eleitos por votação de toda a congregação, seja na igreja Presbiteriana, seja Reformada, seja Batista, seja Anglicana, seja Luterana (além do que, qualquer um pode fundar a sua própria igreja protestante, e se tornar, com o tempo, uma grande denominação). E, quanto maior o número de proprietários, ainda que pequenos proprietários, mais forte o capitalismo. Ou seja, ainda que por um princípio, para muitos equivocados (o do sacerdócio universal), o fiel parece ter se tornado um pouco mais interessado em religião, ao contrário do que ocorre no catolicismo, digo romano, em que o leigo entrega tudo nas mãos do clero, e toca a vida pra frente (aquilo que Boff chamou em seu livro de "desapropriação dos meios de produção religiosa do povo por parte do clero", o que lhe rendeu tantas críticas ao seu livro "Igreja, Carisma e Poder", escrito, no meu sentir, com algumas chaves claramente luteranas). Com tudo isso, penso que, era muito melhor (ou menos pior) ser um súdito anglicano na Inglaterra, ou luterano, na Escandinávia, ou republicano reformado em Genebra ou nos EUA, do que um súdito ortodoxo, na Rússia, naqueles tristes e conturbados tempos. E, nos EUA, o protestantismo acabou transmitindo no "pacote" um certo republicanismo, talvez algo parecido com a religião civil do protestante Russeau, algo que também já constatou o filósofo Olavo de Carvalho, quando defende que tal país foi o que melhor conjugou a democracia, com uma cultura cristã e uma economia de mercado. Esta dita "economia de mercado" é tão poderosa que, mesmo nos países socialistas atuais, quando se instaura uma economia destas em determinadas localidades (como o que ocorreu na China), o governo é obrigado a impedir o êxodo maciço de pessoas do interior para tais cidades, demonstrando, no parecer de alguns que, até mesmo o pobre tem mais esperança na economia de mercado do que em um sistema socialista. Daí, o falecido economista Roberto Campos (aquele dos tempos da ditadura) sempre fazer chacota do fato de, em países socialistas, o governo sempre ter que obrigar os seus cidadãos dissidentes a ficar, impedindo-os de sair do país, e nos capitalitas de ponta, sempre haver a necessidade de se impedir que todos entrassem desordenadamente.

Bom. Tudo isso é muito mais complicado do que podemos imaginar. Acho que o cristianismo jamais propôs um sistema em que abolisse a propriedade privada, por uma regra heterônoma, mas sim, animado pela graça, que tais propriedades fossem divididas, por uma regra autônoma, voluntária, interior.

Conforme havia dito lá atrás, a presença do cristianismo é fraca no mundo. Assim como a presença de Deus também, em certo sentido, é fraca no mundo, e a de Cristo, também foi fraca.

Por isso, em certo sentido, Deus, em Cristo, permitiu-se ser expulso do mundo! (Bonhoeffer). A cruz foi a mensagem de Deus de amor e compaixão ao mundo, mas também foi uma mensagem do mundo para Deus dizendo: FORA DAQUI! NÃO TE QUEREMOS AQUI!!!! Ou seja, na cruz, expulsaram Deus do mundo! Foi a rejeição máxima do mundo a Deus.

E quando Jesus ressuscita, também não o faz aos seus inimigos, mas somente aos seus amigos, àqueles que já acreditavam nele.

E o Espírito do Senhor, também se permite ser rejeitado pelo mundo, inclusive, ser entristecido e apagados pelos próprios fiéis!

E o próprio Jesus tentou, como bem dissera, reunir o seu povo como a galinha, com suas asas, tenta proteger os seus filhotes, mas o seu povo não o quis!

Portanto, é com grande pesar, que, muitas vezes, os cristãos acabem por perceber que, talvez devam deixar o mundo ser mundo... e que o sujo, suje-se ainda mais...

Porque a palavra que não se permite a rejeição, é a palavra fundamentalista, que destrói a base criativa do ser pela imposição. Os discípulos queriam mandar fogo do céu. Jesus respondeu: "não sabeis de que espirito sois...".

Mas o triste é quando, nem mesmo nós, cristãos, mesmo dentro de nossas próprias tradições eclesiais, não conseguimos viver esta antecipação escatológica do reino, vivendo este amor que "conquista a simpatia de todos", em que "os discípulos são reconhecidos pelo amor que nutrem uns pelos outros".

Deus tenha piedade de nós!

Mas ainda assim, me associo ao Professor Domingos, e tantos outros, nesta luta, nesta batalha, por me ver conquistado inteiramente por Aquele que creio ter me chamado, e, levar toda mente cativa à obediência de Cristo, para, que, mesmo em meio a tantas dificuldades, tentar levar e viver Jesus no mundo. O evangelho todo para o homem todo. Todo o evangelho para todo homem.


Um grande abraço a todos.