segunda-feira, 6 de julho de 2009

Olhos simples

Por Carlos Seino
"Mesmo depois que Deus abriu os olhos de nosso entendimento, e algo buscarmos ou desejarmos fora de Deus, como se obscurece desde logo nosso estulto coração! Então, outra vez descem as névoas sobre nossas almas. Dúvidas e trevas outra vez nos assaltam. Balançamo-nos em evanços e recuos e não sabemos que fazer, ou qual a estrada que devemos seguir".

"Mas se teus olhos forem maus, todo o teu corpo ficará às escura". "Se teus olhos forem maus": vemos que não há meio termo entre olhos simples e olhos maus. Se teus olhos não forem simples, então eles serão maus. Se a intenção em tudo que fizermos não for unicamente para Deus, se outra coisa buscarmos alhures, então nossa mente e nossa consciência se acham poluídas".

(WESLEY, Jonh. Sermão XXVIII. Sobre o Sermão do Monte in Sermões de Wesley. 2º volume. Imprensa Metodista, p. 46)

Wesley pregou e viveu, segundo os seus biógrafos, a doutrina da santificação total do cristão, qual seja, a total derrota do mal em nossas vidas.

Para tanto, o fiel deve ter olhos simples, que seriam o buscar de Deus, em Cristo Jesus, em todas as obras que fizesse. Viver de tal modo na presença de Deus que não buscasse outra coisa que não fosse o próprio Cristo, sua glória e o estabelecimento de seu senhorio em tudo.

Se, em algo que o cristão operasse, outra fosse a intenção que não fosse o próprio Cristo, por mais aparentemente boa que tal obra fosse aos olhos das pessoas, ainda assim não seria uma obra genuinamente cristã, ou virtuosa.

Isto porque, para que uma obra seja verdadeiramente virtuosa diante de Deus, há de existir pelo menos dois elementos: um elemento subjetivo, que é a intenção em si, e um elemento objeto, que é a obra em si.

Uma obra objetivamente virtuosa, certamente poderá ter uma um efeito social benéfico, como a daquele que dá esmolas para se vangloriar diante dos homens, mas diante de Deus não terá virtude nenhuma para tal "obreiro", pois tal filantropo o fez somente para "aparecer", conforme dito popular.

Daí, ser preciso sempre fazer uma reflexão sobre si mesmo para se auto-examinar que tipo de fonte está a jorrar de nossos corações ao operar tal e qual coisa. Se, em tudo, buscamos realmente o Cristo, Deus, se nossa obra é abnegada, ou se é somente uma extensão do nosso próprio egoísmo e desejo de aparecer.

Ter olhos puros, é buscar o Cristo em tudo o quanto fizermos. Não deixarmos nenhuma área de nossas vidas fora desta bendita alegria que é estar em comunhão com ele, recebendo esta paz que o mundo não dá, mas somente ele dá. É cultivar o fruto do Espírito para que ele cresça em nós em seus diversos "cachos" (alegria, paz, bondandade, longanimidade, benignidade, mansidão, domínimo próprio...), e superabundar em toda boa obra, não para querer algo em troca, ainda que seja a salvação, mas sim por reconhecer que todas as coisas boas, que o melhor de Deus, já me foi dado em Cristo Jesus.

Todas estas obras religiosas em que muitas igrejas apregoam para que o fiel busque a si mesmo, seja em qualquer área que for, não são boas obras religiosas, pois ali, não se busca em primeiro e último lugar, o próprio Deus, mas busca-se a si próprio.

Mas foi o próprio bendito Salvador que advertiu que, bastava buscar primeiro o reino para que todas as outras coisas fossem acrescentadas.

Estes, buscam primeiros as outras coisas, e o Reino não chega nunca.

Isto porque, não buscam o Cristo em primeiro lugar.

E, dos dez leprosos curados, ainda hoje, somente um volta para agradecer...

Isto porque, ainda não têm simplicidade no olhar...

Mas há um outro aspecto ainda de tal simplicidade que quero abordar.

É entender que, para ter tal simplicidade, não obstante conhecer o ensino de Cristo sobre tais coisas, ainda assim, não me colocar como juiz diante das intenções alheias.

Pois o único que conhece os corações e a real intenção do coração é Deus.

Neste sentido, para o cristão virtuoso, a simplicidade no olhar também significará buscar vislumbrar o seu semelhante com simplicidade e com amor (ainda que não com ingenuidade, pois são coisas diferentes).

Buscando, ainda que uma "pitada", um "tequinho" de Jesus em todas as pessoas, pois ele é a luz que ilumina a todos os homens.

A amá-las como Cristo as amou. A tratá-las como Cristo as trataria. Ser benigno é não causar tristeza desnecessária ao meu próximo, é "não fazer perecer por causa do alimento" ou por qualquer outra coisa, aquele por quem Cristo morreu e ressuscitou. É tratar com brandura e mansidão ao meu próximo, a não ser que Deus nos dirija de modo contrário.

Que o Senhor nos ajude a ter tais olhos simples a ponto de buscá-lo em todas as coisas de nossa vida.