quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Da suspensão dos dons carismáticos após a morte dos teóforos apóstolos.








Postos como uma cerca protetora em torno uma frágil plantinha, recém nascida, os dons carismáticos foram revogados e suspensos logo que o fim a que foram propospos - a garantia de continuidade para a igreja - foi atingido.

É o que se sucede com a cerca assim que a planta se converte em arvorezinha e já não corre o risco de vir a perecer.

A consciência mesma da Igreja testemunha a respeito da gradativa suspensão dos dons concedidos aos apóstolos e seus cooperadores tendo em vista a conversão dos gentios.

Tais dons - os únicos dons verdadeiros - os apóstolos de discípulos jamais pretenderam comunicar a quem quer que fosse não havendo qualquer registro de transmissão, continuidade ou permanência deles após a morte deles e de seus colaboradores mais próximos, o último dos quais, Policarpo faleceu por volta do ano 160.

Tanto isto é verdade que a geração subsequente, ao afirmar o carisma profético de Melitão, Bispo de Sardes, assinalava-o como sendo uma excessão... e quando ele pereceu, cerca de 190, os Bispos e doutores afirmaram que morrerá o último profeta dado a Igreja...

Justino e Tertuliano em suas obras praticamente nada falam sobre ressurreições, curas miraculosas ou linguas - que para eles obviamente ja eram fenômenos pertencentes a um passado quase distante - limitando-se a salientar a triste fama que já naquele tempo os Cristãos começavam a adquirir. Refiro-me a fama de exorcistas, a qual de algum modo manteve-se mais ou menos ininterrupta até nossos dias e por uma razão bastante simples: os possessos nada mais são que perturbados mentais, aos quais a encenação do exorcismo, eventualmente, faz tornar a sanidade...

Diversos psicologos e exorcistas incrédulos já se referiram a tal esquema fantasiástico segundo o qual por vezes o exorcismado se convence de que foi liberto do poder do Diabo pelo exorcismo, disto resultando-lhas uma certa melhora, as vezes definitiva... afinal uma enfermidade que não passa de sugestão, bem pode ser sanada por outra sugestão, no caso a do exorcismo...

Irineu - morto em 200 - que foi discipulo e ouvinte de Policarpo e Pápias foi certamente o último doutor da Igreja a referir-se a tais dons como estanto em operação e no entanto parece jamais chegou a testemunhar tal operação, pois assim se expressa:

"Assim nós ouvimos falar que existem muitos irmãos na igreja que possuem carismas proféticos e que, por meio do Espírito Santo, falam toda classe de linguas e põem a descoberto os segresdos do coração quando é proveitoso e que explicam os mistérios de Deus." in Adv Haers 5,6,1

Já há cinquenta anos os dons e carismas vinham minguando...

E a maior prova de que os dons estavam sendo suspensos pelo céu é o surgimento de um movimento herético denominado montanismo, na década de setenta do segundo século...

Pois não se pode compreender historicamente o Montanismo e sua razão se ser caso não admitamos que desde algum tempo os dons carismáticos estavam diminuindo sensivelmente no corpo da Igreja. Diminuição que cominou em sua quase que total extinção após a morte de Policarpo em 160...

Tal diminuição ou suspensão dos dons carismáticos no seio da Igreja de Deus foi que propriciou ao estuto Montano, ex coribante ou seja sacerdote da deusas frígia Cibele (e os registros históricos vem a calhar apontando-nos os sacerdotes desta divindade como dados a transes e extravagências místicas), a possibilidade de vir a baila, com o pretendido intuito de restaurar a econômia carismática no seio da igreja, desta vez, em franca oposição ao sistema episcopal...

Secundado pelas beatas Priscila e Maximila poz-se nosso Montano a tartamudear linguas e a profetizar e apelando a tradição carismática da igreja logrou atrair a si um bom número de saudosistas, alguns da envergadura de um Temision ou dum Tertuliano o que produziu grande comoção em toda Cristandade.

Pois o dito Montano acabou por convencer-se de que ele mesmo era o prometido Paracleto ou encarnação do Espírito Santo a ponto de fazer com que suas profeciais fossem postas por seus seguidores acima do Evangelho.

Enquanto as coisas iam tomando estes rumos, os Bispos, já um tanto alarmados resolveram investigar tanto mais de perto as tais manifestações do "espírito santo"...

Foi assim que o velho e ralado Zóticos de Comagene e Sotion de Anquialo, companheiros o falecido martir Papírio, deram de ir a Pepuza, averiguar o que estava se passando por lá...

Antes não fossem pois ao verem Priscila profetizar quizeram exorcisma-la quase que de imediato, perduadidos de que estava possuida não pelo Espírito de profecia, mas pelo espírito das trevas...

Por sua vez Temision ousou afirmar que "O Paracleto revelará mais mistérios através de Montano que Cristo através do Evangelho."

Foi a gota dágua, os ortodoxos chefiados por Juliano de Apaméia, Polícrates de Éfeso, Aurélio de Cirene - classificado como mártir em vivo - Apolinário de Hierápólis, Melitão de Sardes e Milciades, o retor, convocaram diversos sínodos do Ponto a Trácia e a Capadócia, apartando Montano e seus seguidores da comunhão e anatematizando-os como heréticos...

Montano por sua vez expeliu um oráculo segundo o qual, a legítima autoridade eclesiástica pertencia aos profetas e iluminados e não aos Bispos, que não passavam de usurpadores... e vaticinou que a Jerusalem celestial não tardaria a baixar sobre a Santa Pepuza, a qual atualmente não passa dum amontoado de ruínas...

De modo que os montanistas se apartaram da igreja episcoliana ou ortodoxa e se tornaram heréticos e cismáticos. E no entanto mesmo separados da videira verdadeira não perderam seu impeto proselitista organizando conventículos da Síria a Espanha e subsistindo organizadamente até o advento do Islan no século VIII. De modo que os primeiros heresiólogos maometanos ainda lhos apresentam sob a alcunha de Montanyya por em meados deste século...

Posteriormente todavia nada mais se soube sobre eles e apesar de seus dons, carismas, profecias e milagres dos quais tanto se vangloriavam, extinguiram-se obscuramente enquanto que a grande e antiga igreja dos Bispos persseverou até nossos dias atravessando a Idade Média, o islan, o papismo, a reforma e todas as crises modernas sem os tais dons maravilhosos do espírito Santo.

Em que pesem os sentimentos de meus amigos pentecostais para mim o pentecostalismo atual não passa de mera reedição do montanismo e duma vã tentativa de se reproduzir naturalmente os dons sobrenaturais do Espírito Santo irremediavelmente perdidos após a morte dos Santos apóstolos e seus colaboradores.

Cinquenta anos após a crise provocada pelos Montanistas Origenes registrou em seus escritos que os dons haviam se extinguido quase que em sua totalidade no século precedente (o segundo) restando apenas o exorcismo (!!!). cf Neander "História geral do Cristianismo" I, 74

Já Agostinho de Hipona, que floresceu no IV século, refere-se aos dons como algo pertencente apenas ao passado ou a história da Igreja.

"Quem poderia pensar, evoca ele, hoje que a imposição das mãos provoque o dom das línguas?" (De Baptismo III, 16,21).

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"Aquele que desce as fontes agora e professa o Cristo já não fala em linguas estranhas, disto sacarei que não recebeu o Espírito Santo? Longe de nosso coração tão pensamento tão sacrílego." in Kata Johanes 32,7

S Crisóstomo por sua vez assim se expressa:

"Esta passagem é totalmente obscura; tal dificuldade provém do fato de que ignoramos o que ocorria outrora e não mais acontece em nossos dias" (In epist. 1 ad Car. Homilia 29,1).

E sobre a econômia carismática:

"A Igreja era então um céu. O Espírito a dirigia como dono, dirigia e inspirava a cada um de seus dignatários. Hoje não restam mais que os símbolos e os vestígios desses dons... mas tudo isto cessou de existir ao menos até onde me é dado saber." Hom in Cor 36,4

Para nos ortodoxos é pois ponto pacífico e fato estabelecido que os dons carismáticos foram suspensos pela vontade mesma de Nosso Senhor Jesus Cristo no decurso do tempo.

Nenhum de nós cre ou pode crer na legitimidade dos dons alegados por nossos irmãos pentecostais ou carismáticos, pois do contrário estariam regeitando a tradição da Igreja e o testemunho dos padres teoforos que sucederam aos apóstolos.

Nós ficamos com o testemunho da História de nossas igrejas apostólicas e sequer lamentamos a suspensão de tais dons, já porque conservamos a unica coisa verdadeiramente necessária, a sucessão apostólica que garante a legitimidade de nossos santos sacramentos.