sábado, 24 de outubro de 2009

Ensaio sobre o elemento miraculoso presente nas formas tradicionais do Cristianismo.










Antes de iniciar-mos nossa analise sobre a presença do elemento miraculoso nas formas tradicionais do Cristianismo, cumpre definir o que compreendemos por 'formas tradicionais' de Cristianismo.

Por 'formas tradicionais do Cristianismo' compreendemos as formas apostólicas ou seja os sistemas e organizações que pretendem firmar-se sobre a doutrina da sucessão apostólica, recebendo por isso mesmo as tradições apostólicas e as definições conciliares.

Posto esta que nos referimos aos 'três ramos' da igreja primeva:

- Catolicismo ortodoxo.

- Romanismo e vetero romanismo.

- Anglicanismo e galicanismo.



Obs.: Com relação aos romanismo nossa analise aplica-se tão somente aos tradicionalistas, tradicionais, moderados e progressistas e não aos carismáticos, cujo éthos é tipicamente pentecostal.



A vantagem que há em se analisar tais formas é que todas tedem a objetivizar suas crenças de dois modos:

- Através das fórmulas litúrgicas que norteiam o culto público.

- Através dos símbolos de fé ou credos que exprimem a fé.



Por meio da litúrgia somos informados sobre como tais igrejas oram ou oravam e em que medida imploravam e esperavam a intervenção miraculosa da divindade.

E por meio dos símbolos somos informados sobre como as igrejas criam ou creem no miraculoso, ou seja, sobre a extensão e límites de tal crença.


Julgo portanto que fundamentados nas litúrgias e simbolos de fé, podemos estabelecer com relativa precisão o espaço que o miraculoso ocupava e ainda ocupa na instituição Igreja, mesmo reconhecendo que dificilmente tal espaço corresponde ao espaço que o mesmo ocupava na mente dos fiéis, em especial nas mentes dos fiéis mais simples e admitindo que certamente não era menos amplo do que aquele que hoje ocupa as mentes dos adeptos do pentecostalismo...

Pois o que nos interesa aqui não é o espaço ocupado pelo miraculoso nas mentes dos fiéis mais simples, mas sim o espaço ocupado por ele na vida oficial da igreja para aquilatar-mos em que medida a igreja correspondeu as aspirações desta parcela de seus filhos, adaptando-se ou em que medida não correspondeu a elas deixando de instituicionalizar o miraculoso ou em que medide e com que progressão o miraculoso foi sendo institucionalizado.

É a posição da igreja frente ao miraculoso e não as crenças nutridas pela irmandade que nos interesam antes de tudo. Pois no fim das contas estamos firmemente convencidos de que a consciência da igreja, dos séculos IV a VIII, tendeu a coibir o elemento miraculoso, tendência que jamais desapacereu do cenário Cristão... sendo retomada pelos primeiros reformadores e por certo número de teólgos e doutores papistas até desaguar no moderno liberalismo teológico abertamente semi-deista e naturalizante.

Principiemos pelo terreno da litúrgia ou melhor da litúrgia, pois examinaremos três fórmulas:

- A litúrgia Bizantina (A divina litúrgia de S João Crisóstomo - 2000 - empregada pela Diocese antioquena de S Paulo capital)

- A litúrgia Tridentina (Lefebre, Gaspar. "Missal quotidiano e vesperal", Descleé, 1955)

&

- A litúrgia Old Sarum (Livro de oração comum, Globo, 1930).


Gostariamos naturalmente de examinar as demais litúrgias, como a de S Tiago, a de Addai e Mari, a de S Basílio, a de Cirilo de Alex., a de S Gregório Dialogos, A de S Isidor, a de S Irineu (galicana) etc a extensão deste trabalho porém nos impede de empreende-lo.

Quanto a litúrgia de nosso S Pai, S João o Crisóstomo, homem puro, perfeito e apostólico consta de 33 (trinta e três) páginas, havendo nelas apenas três menções expressas ao elemento miraculoso:

- Na ladainha parg sexto 'Pela salubridade dos ares...' e seguinte (sétimo) referente aos viajantes.

& no passo referente ao anjo da paz como intuito de que guarde dos corpos dos fiéis.

Todas as outras referências podem ser interpretadas em sentido meramente espiritual, o que por sinal esta de pleno acordo com o espirito de nossa Litúrgia, pautado mais na profissão dos mistérios de Cristo e sua mãe e no louvor, do que em pedidos de graças e auxilios materiais.

Concluimos pois que na litúrgia bizantina o apelo ao miraculoso encontra-se em apenas meia página, das trinta e tres páginas que lho compõe (ao menos na ed que possuimos).

Em termos de proporção há apenas cerca de 1% de elemento miraculoso no culto ortodoxo, quase que exclusivamente voltado, insistimos para as realidades e mistérios divinos, para as necessidades da alma e para a louvação.

Folgamos pois que o culto público que nós ortodoxos consagramos a Deus, seja de tal forma racional e espiritual que haja nele um conteúdo quase que inexpressivo de imediatismo e fetichismo. Talvez por isto sejamos tão atraidos por ele...


Passemos agora ao exame o culto romano:


A missa tridentina conta - se consideramos como nós os varios prefácios - com cerca de 70 paginas, e apesar de ter sido em parte composta durante a horrorivel Idade Média, não nos deparamos com uma única petição por milagres ou graças materiais em seu conjunto, o que é a um tempo supreendente e magnífico. Pois o canon romano, tal e qual a litúrgia do Crisóstomo, ôrbita totalmente em torno dos Mistérios do Cristo, de sua mãe e dos santos e exprime-se por louvações e petições de teor nimiamente espiritual.

Mesmo as preces ou coletas mais antigas, referentes as grandes festas e mistérios mantem esse viez espiritual sendo parcas de petições miraculosas, de modo que na antiga litúrgia romana não chegam sequer a meio porcento.

Naturalmente que uma tal 'omissão' pretinente ao culto público original, suscitou durante a idade Média, a composição de um grande número de missas votivas ou fetichistas voltadas para uma série de situações comuns para as quais os fanáticos esperavam o auxilio miraculoso dos santos.

No geral tais missas devem atingir cerca de um quarto ou mesmo cerca de um terço da litúrgia romana, e se lhes acrescentamos as missas dedicadas aos santos e cujo teor é mais ou menos imediatista, percebemos que com o passar do tempo o culto romano foi cada vez mais tomado pela crença no miraculoso, até que restou apenas a missa dominical como uma espécie de Ilha em meio a tanta superstição...

Eis alguns exemplos referentes as ditas missas fetichistas:

Para a Sementeira
Após as colheitas
Em tempo de fome ou pelos que a passam
Em tempo de terremoto
Para pedir chuva
Para pedir bom tempo
Para repelir as tempestades

E depois os romanistas de hoje ainda ousam censurar aos indigênas, por estes dançarem pedindo chuva...

Por ai se vê quanto o culto latino foi se desviando de sua sobriedade original e se tornando cada vez mais, no decurso da idade média uma verdadeira feitiçaria de branco.


Passemos agora ao culto anglicano:


Dezoito são as páginas referentes ao culto público anglicano nas quais nos deparamos com apenas duas petições, alias bastante discretas, imediatistas impetrando graças temporais ou milagres coisa de 2 ou 3 porcento se levamos em conta a estrutura genérica do rito.

Conclusão: Também o culto público anglicano é bastante discreto quanto ao elemento miraculoso.

As coletas das grandes festas e mistérios são geralmente tributárias dos missais galicano e/ou romano, destacando-se pelo mesmo teor espiritual e discreto.



Conclusão: O padrão de culto tradicional ou apostólico tende a mininizar o elemento miraculoso ou fetichista concentrando-se quase que exclusivamente nos mistérios do Cristo, na louvação e nas necessidades do espírito.

Não é pois um culto que possa ser considerado supersticioso ou que induza seus participantes a superstição. Antes tal culto tende a educados e a elevar suas mentes a Cristo, a seus mistérios, a louvação e a satisfação das necessidades da alma.

Pode pois tam culto ser classificado como um culto verdadeiramente racional, sóbrio e digno da soberânia e da glória divinas.




Examinemos agora a fé das mesmas igrejas quanto ao elemento miraculoso:


Num primeiro momento desejo esclarecer o amado leitor de que ambas as comunhões - ortodoxa, romana e anglicana - tomam por guia (amana) ao símbolo de Nicéia/Constantinopla e que o dito símbolo é de todo retiscente quanto ao Diabo, ao inferno, ou a possesões...

Pois quem jamais ousou proclamar:

- Creio no inferno...

- Creio no Demônio...

Ou - Creio na possessão diabólica...

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No mais refere Wilges:


"Assim só pode haver fé divina onde Deus falou. A revelação acabou-se com Cristo.
Logo o que dizer das aparições de Fátima, Lourdes, etc Onde se diz que Maria apareceu e falou? A igreja aprova o culto naqueles lugares. QUER DIZER ISTO QUE A IGREJA, DE FATO ASSEVERA QUE MARIA LÁ APARECEU A FALOU? NÃO E NENHUM CRENTE TEM OBRIGAÇÃO DE CRER NISTO. POSSO CONTINUAR A SER CATÓLICO NÃO CRENDO NEM EM FÁTIMA NEM EM LOURDES." (1988 - Vol II - pg 13)

O mesmo asseveram os embolorados mas sempre uteis manuais de Cauly e Boulanger, bem como a 'Caixa de perguntas' e o grande catecismo de Spirago...

Segundo a doutrina romanista apenas os milagres realizados pelo Senhor e seus apóstolos e registrados no Novo Testamento são dignos de fé e o romanista não está nem mesmo obriago a admitir a possibilidade de que ainda hoje ocorram milagres. Conforme asseveram os doutores e teologos do Vaticano os fiéis só estão obrigados a crer que Jesus Cristo realizou os milagres que o Evangelho lhe atribui e que concedeu aos apóstolos o poder de realiza-los também, não passando daí a fé...

Foi justamente graças a tal formulação que Roma logrou atrair a suas fileiras um grande número de filósofos e cientistas in extremis, os quais doutra forma - tendo que admitir as loucuras da Idade Média ou as frioleiras de Lourdes - teriam repudiado todo e qualquer tipo de conciliação.

Em geral os doutores e teologos das igrejas Ortodoxa e anglicana concordam com tal proposição teológica.

Portanto segundo a doutrina de tais igrejas a doutrina que estende a possibilidade de que ocorram intervenções miraculosas até o tempo presente não é de fé e nem poderia se-lo, pois só pode ser de fé o que se encontra registrado pelas santas e divinas escrituras canônicas.

Aquele que ousa impor a possibilidade de que ocorram milagres no tempo presente como 'de fé' ultrapassa tanto as escrituras santas quanto a tradição apostólica e o sentir dos doutores e teólogos.




Conclusão geral:


- A possibilidade de que milagres ocorram no tempo presente não é proposta como artigo de fé pelas igrejas, podendo o Cristão regeita-la e admitir apenas e tão somente os milagres narrados no Novo Testamento e atribuidos aos três primeiros séculos pela tradição.

- Disto resulta necessariamente que o culto Cristão ministrado por tais igrejas não é um culto miraculoso centrado em manifestações sobrenaturais.

A forma original do culto Cristão parece ter sido laudatória, tornando-se cada vez mais impetratória com o correr da Idade Média, sob influxo daquele estado de ignorância e superstição engendrado pelas invasões bárbaras.





Apêndice: Didaké - do elemento miraculoso no culto Cristão primitivo.



Por Didaké designa-se comumente uma breve instrução ou catecismo, composto pelos apóstolos ou alguns de seus sucessores imediatos, na Síria, cerca de 70 - 130 d C.

Para nós o que importa é que dois de seus capítulos - IX e X - comportam a mais antiga fórmula litúrgica que chegou até nós ou seja uma espécie de Missal ou liturgicon.

São duas páginas subdivididas em nove pequenas preces, todas pertinentes aos mistérios de Cristo e da igreja e nenhuma impetratória...

"Deixem que os profetas louvem à vontade." são as últimas palavras de instrução sobre o culto.

Observe-se porém que não há referência explicita nem a profecias propriamente ditas, nem a orações em linguas estranhas, mas apenas e tão somente a louvores, quiçá analogos aos Salmos e aos primitivos hinos litúrgicos que chegaram até nós.