quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A eternidade das penas, o protestantismo e as escrituras...












Tenho em minhas mãos a afamada obra de C H Collete - inovações do romanismo - (ampla súmula de invenções e pseudo invenções implementadas pelo Vaticano S/a), vou até o século XIV, mais precisamente a 1336, e nenhuma palavra sequer sobre a 'canonização' do inferno.

Diante disto fico a me perguntar pelo porque de tal omissão...

Durante séculos a fio os autores protestantes, com ou sem base, tem atribuido ao papa romano, tudo quando creem ser falsa doutrina: a confisão, a Maternidade divina de Maria, sua virgindade perpétua, a invocação dos Santos, a veneração de imagens, a litúrgia, o descanso dominical, etc, etc, etc Entretanto nenhum deles jamais prestou atenção ao fato do Papa romano ter definido a crença no juizo particular e no inferno como artigos de fé no ano da graça de 1336...

No entanto o mesmo Collete -vide a pg 203 da primeira ed portuguesa - sabia muito bem que os antigos padres da Igreja em sua maioria ignoravam supinamente tais dogmas...

O motivo de tal omissão é bastante simples: o protestantismo é mais infernista que o romanismo.

Pois o romanismo, tendo canonizado a opinião dos padres latinos, admite a existência de uma espécie de lugar intermediário ou purgatório, até o dia do juizo final.

O protestantismo no entanto admite apenas dois lugares, o juizo particular e a eternidade das penas...

Isto significa que segundo o entendimento dos líderes protestantes de hoje - porque o de Lutero, por exemplo, era bastante diverso (ele admitia o estado intermediário tal e qual a Igreja ortodoxa) - há apenas céu e inferno, sendo cada homem remetido a algum destes dois locais imediamente após a morte e sem qualquer possibilidade de mudança.

Suponhamos que um rapazote analfabeto de seus quinze anos venha a morrer e que pouco ou nada compreenda sobre religião, que se sucederá com sua alma?

Ou será enfiada na churrasqueira perpétua segundo o aforisma jurídico: o desconhecimento da lei não justifica de modo algum sua violação, ou irá para os céus ficar do ladinho da Virgem ou dos Apóstolos, uma vez que não possuindo os santos mérito algum não podem possuir gráus de santidade e glória diferentes...

Já S Agostinho no Cuidado devido aos mortos havia salientado que a grande maioria das pessoas não chega nem a santidade heróica nem a supina vileza e portanto que não foram tão santas que mereçam a glorificação, nem tão más que mereçam a reprovação... Não encaro as coisas exatamente deste modo, mas o pensamento do Bispo de Hipona não deixa de fornecer elementos a nossa reflexão...

Será a mediocridade digna dos deleites ou das punições eternas?

Só sei que a complexidade da vida humana me parece demasiado profunda para que possa ser encaixada a fina força no padrão escatológico protestante: dois lugares para os quais se vai imediatamente após a morte e dos quais jamais se sai...

Nem o protestantismo esta completamente depurado e isento de imagens folclóricas e monstruosas do dito inferno, como as que fazem a glória do romanismo e o deleite de seus tártufos...

Parece-me que em parte os construtores da manobra infernista, estavam de boa fé, conforme a lingua grega era praticamente ignorada por todos os membros da igreja Ocidental... os latinos deparavam-se em sua Vulgata com os termos 'aeternum' e 'aeterni' e ignorantes até mesmo da acepção original destes termos compreendiam-nos como algo sem fim ou infinito.

E não podiam compreender doutro modo, pois os bárbaros haviam queimado ou destruido a maior parte das bibliotecas de modo que os clássicos gregos e romanos estavam dispersos, nenhum ocidental possuia um Homero, um Tucidides, uma Septuaginta ou uma simples Pandectas naquela época... Prevalecia a mais completa ignorância nos terrenos da filologia clássica, da exegese bíblica, da História eclesiástica, etc

Crer na eternidade das penas era uma necessidade inflexivel naqueles tempos obscuros nos quais a ciência caminhava as apalpeladas...

De algum modo os papistas da Idade média possuiam por álibi, ao oitavo sacramento...

O protestantismo no entanto surje e se desenvolve numa já nos albores da Idade moderna e numa época bem mais esclarecida... conforme Nebrija já restaurará a gramática, Valla a filologia, Phleton, Bessarion, Erasmo, Estienne, Budé, etc o estudo da lingua grega, Flácius e o Cardeal Barônius a História eclesiástica.

De tais investigações resultou logo que alguns erúditos anabatistas e unitários logo perceberam a fragilidade dos argumentos com que os primeiros reformadores tentaram suster o dogma papal no terreno das escrituras gregas, dos LXX e da filologia antiga... foi quando surgiram as primeiras críticas ao sistema infernista.

Tais alegações não chegaram sequer a postular que tal dogma fosse anti-bíblico ou que não estivesse de qualquer modo contido nas escrituras, mas sim que, partindo de principios exegéticos objetivamente construidos e admitidos pela reformação, não haviam evidências suficientes em seu favor no sentido de ser afirmado inequivocadamente como um dogma de fé. (reproduzi-se exatamente a postura dos padres antigos sobre o assunto: a insuficiência de provas com o intuito de afirma-lo como artigo constituinte da divina revelação)

Os reformadores no entanto - aos quais talvez não tenha passado desapercebidamente as implicações psicológicas de tal dogma - aproveitaram-se do fato de que tais críticas partiam geralmente de anti-trinitários ou de pessoas que tendiam a negar a sobrevivência ou ao menos a sobrevivência ativa da alma após a morte, e tudo embaralharam com o intuito de desmoraliza-las com ad hominens e de suprimi-las a força...

De modo que o anti-infernismo sempre foi encarado pelos protestantes - em sua larga maioria - com suspeição ou mesmo como uma das mais perniciosas heresias, tocando aos confins do ceticismo e do ateismo. Muitas vezes por negar a eternidade de penas ou a realidade das chamas punitivas era o cristão tachado de ateu e remetido aos tribunais...

E no entanto tais reformadores possuiam já um aparelho crítico de certa qualidade coisa que a igreja papalina, durante a Idade Média jamais possuiu...

No fim das contas, penso eu, a opção pelo inferno deve ter levado em conta certas razões de ordem prática como por exemplo a possibilidade dos pregadores atemorizarem e dominarem por completo aqueles que dão crédito a tal fábula. Pois o inferno outra coisa não é que um esquema de terror que da vezo a mais despótica forma de dominação e de manipulação religiosa...

O homem que cre firmemente em dois lugares estanques, num dois quais sua alma será lançada imediatamente após a morte do corpo e por toda a eternidade, com base em suas crenças religiosas, tem tudo para ser um mero joguete na mão de seus líderes espirituais...

Por outro lado este que se apavora com a possibilidade de ir para um tal lugar ser torrado a fogo lento pelo Supremo Criador, muitas das vezes se deleita com a simples possibilidade de que seus inimigos pessoais ou adversários religiosos sofram tal punição... Trata-se dum dos instintos mais mesquinhos e sórdidos que o homem possui: o instinto de vingaça e o pior de tudo é que cega ou inconsciente parte da Cristandade acaba transferindo-o ou atribuindo-o aquele Pai Celestial revelado pelo Senhor Jesus Cristo nas páginas de seu Evangelho...

Nada mais trágico do que isto, pois mais uma vez a Cristandade forja uma falsa ortodoxia que atinge de cheio a personalidade divina, descaracterizando-a por completo e anulando a mensagem Cristã.




EXAMINADO OS TEXTOS.







Principiando pelo Testamento antigo - as opiniões dos antigos hebreus sobre o além túmulo eram disparatas e contraditórias indo do mortalismo ao espiritualismo mais descarnado tomano aos gregos - nos deparamos com a palavra 'OLAM' traduzida quase sempre por eterno, no entanto segundo os hebraistas esta palavras deriva de 'ALAM' que significa ocultar e implica necessariamente num tempo longo mais de duração desconhecida.


"O conceito de eternidade nas línguas semíticas é o de uma longa duração e séries de eras" (Rev. J. S. Blunt - Dicionário de Teologia)

"'É do conhecimento de muitos", diz Bispo Rust, "que os judeus, seja escrevendo em hebraico ou em grego, referem-se a olam (a palavra hebraica correspondente a aion), e a aion no sentido de um certo período ou duração."


Tomemos por exemplo Ex 21, 1: "então teu servo te pertencerá para sempre.", o termo empregado é OLAM, significando obviamente a totalidade da vida do servo e não uma eternidade sem fim...

Examinenos agora Isaía 32,14 ssg:

O palácio será abandonado; a cidade populosa ficará deserta; Ofel e a torre da guarda servirão de cavernas para sempre, . . . até que se derrame sobre nós o Espírito lá do alto: então o deserto se tornará em pomar e o pomar será tido por bosque.

Observe-se as expressões “para sempre” e “até que” em contexto imediato. Como algo pode ser estipulado “para sempre . . . até que” aconteça um certo fato? Isso no português não faria sentido algum - pois para nós eterno equivale sempre a sem fim - no entanto em hebraico, grego e mesmo latim faria e faz sentido.

Analisemos agora a Isaias 34,9 sgs:

Os ribeiros de Edom se transformarão em piche, e o seu pó em enxofre; a sua terra se tornará em piche ardente. Nem de noite nem de dia se apagará; subirá para sempre a sua fumaça; de geração em geração será assolada, e para todo o sempre ninguém passará por ela.

Nós porém, sabemos que os edomitas desapareceram já há muitos séculos. Poder-se-ia dizer que existem ainda piche ardente e fumaça subindo na terra de Edom? Logicamente que não.

No entanto os hebreus possuem o termo avrames que significa precisamente eterno ou sem fim, embora tal termo jamais ocorra em suas escrituras canônicas.

Passemos agora ao livro de Jonas:

"Eu desci até os fundamentos dos montes; a terra encerrou-me para sempre com os seus ferrolhos; mas tu, Senhor meu Deus, fizeste subir da cova a minha vida. (Jonas 2:6)"

Acaso o amigo leitor cre que o profeta Jonas ainda se acha no ventre da baleia???

Peterson, 1995, viu-se constrangido a admitir como perfeitamente válida tal arguição, inda que oposta a seu 'querido dogma' e foi obrigado a sair pela tangente alegando que o contexto sempre revela o significado da palavra...

Portanto a crença no inferno, ao menos literalmente falando, será sempre um caso de contexto e jamais uma afirmação clara, precisa, concisa, direta e ordinária, como os demais artigos que fazem parte de nossa fé...

Conclusão: No original hebraico do V T os judaizantes não logram firmar seu perverso dogma sobre a eternidade das penas.



Passemos agora a um terreno tanto mais próximo do terreno Cristão, aos LXX ou seja tradução grega do Antigo Testamento, empreendida pelos alexandrinos cerca de 250 a 50 a C.

Quanto ao grego a palavra que geralmente nossos traidores, quero dizer tradutores, vertem por eterno, sem fim ou inextinguivel é aiônios (e devirados).

Todavia é assaz interesante observar que os tradutores gregos conhecendo perfeitamente o significado de OLAM, optaram por empregar invariavelmente uma palavra tão imprecisa quanto ela, ou seja aiônios, pois o termo grego aiônios não significa necessariamente eterno ou eternidade embora possa significa-lo.

Os exemplos quanto a indeterminação de tempo referente a iônios são tão numerosos quanto os referentes a OLAM, sendo o mais importante deles:

"Bendito sejais Senhor Nosso Deus, de eternidade a eternidade." Sl 40,14

Paremos e reflitamos: como pode ser haver outra eternidade ou outro período eterno se a eternidade é infita?

Se existem duas ou mais eternidades é porque eternidade é necessarimante um termo finito.

Aqui Ch Kingsley: "A palavra aion nunca é usada nas Escrituras, ou em nenhum outro lugar, no sentido de sem fim (vulgarmente chamado eternidade, ela significa, nas Escrituras e fora delas, um período de tempo; afinal, como poderia ela ter um plural - como poderia você falar em aeons e aeons de aeons como nas Escrituras?"

E no entanto a tradução esta perfeitamente correta:

euloghtoV kurioV o qeoV israhl apo tou AIWNOV kai eiV ton AIWNA genoito genoito

E no entanto outro Salmo emprega a mesmíssima expressão: De eternidade a eternidade vós sois Deus...

Ocorrem-me ainda as expressões: Farei desta habitação - o templo de Jerusalem - minha morada eterna.

E no entanto tal habitação 'eterna' foi destruida pelo imperador romano Tito no ano setenta (70) desta era.

'Estabelecerei teu trono - o de David - como um trono eterno.'

E apesar disto o moderno Estado de Israel não é governado pelos descendentes de David...

Poderiamos acrescentar outros tantos exemplos a respeito do termo AIÔNIOS, certificando que ele nem sempre comporta uma duração de tempo infinita, julgamos porém que estes sejam suficientes para dar ciência do problema aqueles que teem seus corações voltados para a verdade.

E no entanto, do mesmo modo que o hebraico, o grego possui uma palavra para designar inequivocamente eternidade: AIDIÓS, a qual no entanto jamais foi empregada pelos tradutores alexandrinos ou pelos hagiografos do Novo Testamento (exceto uma única vez), embora fosse comumente empregada - Filo, Josefus e o Talmud o testificam - por parte dos fariseus do templo de Jesus e das gerações subsequentes, com o objetivo de expressar inequivocadamente suas crenças na eternidade de penas.

Os fariseus empregavam escrupulosamente a expressão: AIDIOS TIMORIA, tomada aos escritores pagãos, sempre que desejavam afirmar a eternidade das penas, Cristo todavia empregou invariavelmente a expressão: Kolasin aionion, que dá margem a um certo número de interpretações já quanto ao tempo, já quanto a natureza do castigo...

"Os fariseus, de acordo com Josepho, achavam que a penalidade para o pecado era um tormento sem fim e eles declaram essa doutrina sem ambiguidade. Chamavam de eirgmos aidios (Prisão Eterna) e timorion adialeipton (Tormento sem fim) enquanto nosso Senhor chamava a punição do pecado de aionion kolasin (longa punição)" Hanson, 1899


Pois em Filemon 15 sg deparamo-nos mais uma vez com a acepção larga do termo:

"... a fim de que o possuisseis - ao escravo Onésimus - para sempre (aionios)."

Entretanto nenhum autor jamais se aventurou a postular que Onésimus continua servindo a Filemon como escravo no além túmulo ou que o haverá de servir por toda eternidade.

Outro texto muito interesante encontrase na epistola de Judas:

"Da mesma forma Sodoma, Gomorra e as cidades circunvizinhas, que praticaram as mesmas impurezas e se entregaram a vícios contra a natureza, jazem lá como exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno."

"wV sodoma kai gomorra kai ai peri autaV poleiV ton omoion toutoiV tropon ekporneusasai kai apelqousai opisw sarkoV eteraV prokeintai deigma puroV AIWNIOU dikhn upecousai."

Sabemos no entanto que as ruinas de Sodoma e Gomorra encontram-se atualmente debaixo dágua, cobertas pelo mar Morto.

Haverá fogo e labaredas debaixo do mar?

O mesmo se sucede ainda com o latim.

Em latim a palavra aeternus tem por significado 'longo período de tempo' ou 'era', dái a expressão sempiternus (referente quase sempre a Deus) corresponder ao nosso eterno ou a espaço de tempo infinito.

Posteriormente aeternus foi sendo cada vez mais compreendido como espaço de tempo infinito, dando origem a nossa palavra: eterno.

Portanto quando nos deparamos na patrologia latina com a expressão aeternus ou aeterni, nem sempre podemos ou devemos toma-las por equivalentes do nosso 'eterno' ou seja inextinguivel e sem fim.

Conclusão:

O fogo - que simboliza o remorso daqueles que se encontram separados de Nso Sr Jesus Xto. - arderá para todo sempre ou seja eternamente?

Do mesmo modo que o fogo posto a cidade de Jerusalem pelos soldados de Nabudonosor - sobre o qual esta escrito: eu farei por um fogo perpétuo a tuas portas - foi apagado, também o fogo referido no Santo e divino Evangelho se acabará.

Pois no fim das contas o que Deus de fato esperar de seus filhos é amor e não temor ou terror.