sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Outras possibilidades para além das penas eternas.










Estabelecido que o sentido da palavra grega AIÔNIOS, sendo mais largo, não corresponde necessariamente ao sentido da nossa palavra eterno, que é tanto mais estrito, fica igualmente estabelecido que o 'dogma' das penas eternas será sempre uma questão de compreenção contextual ou de hermeneútica.

A palavra em sí mesma - aiônios - não garante literalmente a doutrina, como desejaria o tradutor (esperando certamente que os ingênuos engulam o termo 'eterno' como correspondendo ao sentido original e significando tempo sem fim) permanecendo o novo 'artigo de fé' - promulgado pelo Papa romano em 1336 - no raio daquelas conjecturas exegéticas sobre as quais não se pode - admitem-no todos os exegétas e comentaristas - firmar uma doutrina revelada.

Pois toda doutrina revelada deve estar explicitamente contida e claramente afirmada na letra da palavra de Cristo.

Cristo no entanto jamais fez uso da expressão corrente - aidios timoria - com que os fariseus designavam inequivocadamente o dogma das penas perpétuas e inextinguiveis.

Diante disto o estudante das escrituras é levado a perguntar-se: porque raios o Grande Instrutor teria adotado uma linguagem ou expressão âmbigua se dispunha já duma linguagem ou expressão inequivoca com que manifestar a doutrina das penas eternas?

Quizesse Jesus afirma-la sem deixar dúvida alguma bastar-lhe-ia ter dito: aidios timoria... entretanto nosso Mestre amado empregou uma outra expressão, tanto mais livre quanto larga: aionios Kolasin a qual da passagem a outras interpretações...

Sendo Jesus a Verdade plena e seu ofício ensinar a verdade sem rebuços, porque raios teria deixado 'brechas' interpretativas em seu discurso favorecendo destarte seu obscurecimento?

De nossa parte - daqueles que regeitam terminante e conscientemente a doutrina das penas eternas - estamos cientes quanto aos desafios a serem enfrentados e obstáculos a seres superados a respeito da escatologia Cristã, tanto que ao invés de pontificar dogmaticamente, como nossos adversários, conforma-mo-nos humildemente com a singeleza do credo niceno e não temos outra pretenssão senão a de discutir possiveis teorias dentro dum esquema teológico e não revelado.

São os infernistas, que tomando por rocha inabalável as areias de "aionios Kolasin", pretendem suster dogmaticamente sua doutrina querida...

São os infernistas que cheios de todo preconceito fecham seus olhos quanto a precariedade objetiva de seus fundamentos exegéticos...

São os infernistas que presumem como rigorosamente demonstrada uma doutrina que no fim das contas não passa de conjectura ou de possibilidade...



Admitida a teoria oposta, segundo a qual inexistem as tais penas eternas, nem por isto passamos a repousar em berço explêndido na companhia do grande Origenes e seus pares. Inda assim reconhecemos que o problema permanece altamente complexo...

Grosso modo fora as penas eternas, contamos com apenas duas outras teorias ou explicações possiveis:

- A da restauração total ou reconciliação de todas as coisas (apokatastasis tou pantou) postulada por Clemente e desenvolvida por seus genial púpilo Origênes no "Peri Arkon" ou livro dos principios, tomando por base algumas expressões bastante curiosas do apóstolo das gentes.

- A da resistência de algumas liberdades durante todo o período referente a eviternidade e sua aniquilação ou destruição total no fim do processo, teoria postulada por diversas seitas protestantes como Adventista e Jeovista, de certo modo decalcada nas opiniões de alguns padres como Teófilo de Antioquia, Afraates, Atenagoras e outros, que de certo modo negavam que a imortalidade fosse um aspecto natural da alma humana.




Do ponto de vista da finalidade da criação, da eficiência e do sucesso da econômia redentora, bem como da natureza criada em si mesma, a primeira das teorias nos parece bem mais digna de acatação.

Pois comporta as seguintes assertativas:

- Todos os seres atingiram o propósito estabelecido por Deus ou seja sua plena realização e felicidade o que implica necessariamente num pleno cumprimento da vontade divina.

- Se todos os seres atingiram o propósito estabelecido por Deus devemos considerar que os meios ou instrumentais dispostos por ele: a encarnação, a cruz e a Igreja, atingiram seu máximo desenvolvimento, nada restando em absoluto a 'ser feito'...

- Sendo a natureza criada e procedente do Criador tão boa quanto ele mesmo, fica extremamente díficil compreender que tal natureza possa vir a ser destruida ou aniquilada pela fixação da vontade no mal...

Neste caso seria de se esperar que a fixação da vontade no mal fosse destruida ou aniquilada pela adesão ao bem e a natureza glorificada no Pleroma.

Racionalmente falando a abordagem origenista é perfeita e invulnerável sob todos os aspectos.

O resultado de um tal sistema racionalmente acabado é que um grande número de sábios Cristãos teem se atirado quase que cegamente nos braços do origenismo ou do restauracionismo no decorrer dos séculos.

Nós entretanto, por mais que admiremos sua estrutura racionalizada e teologicamente perfeita, não podemos fechar nossos olhos e ignorar pura e simplismente algumas dificuldades escrituristicas ou exegéticas bastante sérias e para alguns de nossos críticos insuperáveis mesmo.

Partissem tais dificuldades do apocalipse com sua linguagem figurada ou do corpus paulinum com sua linguagem assaz complexa, seria possivel minimiza-las, o caso porém é que tais dificuldades são seríssimas por se encontrarem no coração mesmo da escritura que é o Santo e Bendito Evangelho.

Por mais que nos custe a admitir ou a compreender tudo leva a crer que o Evangelho comporte a afirmação segundo a qual alguns seres resistirão indefinidamente a proposta divina e que jamais serão reintegrados na unidade.

Prescindindo do capítulo vigésimo quinto do primeiro Evangelho, a respeito do qual já correram rios de pena tendo em vista patentear o sentido extrito - de eternidade ou tempo sem fim - da palavra aiônios naquele contexto, irei direto ao cerne do problema que se encontra no capítulo décimo segundo, verso trigésimo primeiro e seguintes:

MAS QUEM RESISTIR AO ESPÍRITO SANTO ESTE NÃO SERÁ PERDOADO NEM NESTE MUNDO, NEM NO VINDOURO.

De tal verso resultam consequentemente duas verdades:

A primeira segundo a qual a maior parte dos pecados cometidos pelos seres humanos podem ser remitidos no mundo espiritual ou vindouro (que é o estado intermediário) atinge de cheio a falsa doutrina do juizo particular e definitivo professada pelas comunhões papista e protestante.

A segunda porém, atinge de cheio a bela teologia origenista, dando a compreender que há um tipo de pecado que não pode ser remitido ou perdoado mesmo no mundo espiritual ou vindouro.

Conclusão: aqueles que se obstinarem na iniquidade arrenegando ao Cristo e a sua oferta até a consumação dos tempos, não poderão ser reintegrados na unidade.

Trata-se possivelmente daquelas pessoas cruéis e empedernidas que no último dia serão postos como bodes a esquerda do Cordeiro e dispostas para uma 'destruição' perpétua (kolasin aiwnion).

Uma tal possibilidade, por ser, a nosso ver, bastante concreta nos constrange a abandonar o sistema origenista - com relação ao qual tributamos máximos respeitos -
e a endossar a teoria número dois.

(Embora na verdade ainda não tenhamos logrado optar definitivamente por um ou outro sistema, permanecendo mais ou menos indecisos. Alias como teoria não descartamos - enquanto mera possibilidade -nem mesmo a das penas eternas em seu sentido atual ou seja como separação de Deus)

A teoria número dois segundo a qual alguns resistentes ou empedernidos - pelo tal pecado contra o Espírito Santo - serão aniquilados ao fim do processo (ou seja por ocasião do juizo final) nos parece a mais provável em que pese a impossibilidade lógica já formulada sobre a destruição de naturezas ou substâncias que são boas em si mesmas.

Afinal é mais provável que nossa estrutura categorial e nossos esquemas de lógica não estejam a altura da questão, do que nossa consciência moral ou ética não estar a altura da mesma.

Quero dizer que é muito mais facil nos equivocarmos e errarmos no que diz respeito ao juizo de essência que fazemos quanto a respeito da bondade e da indestrutibilidade da substância criada, do que nos equivocarmos a respeito do cárater divino, de sua paternidade, amor e benignidade postulando castigos eternos.

Portanto fundamentado de preferência sobre as afirmações morais a respeito da natureza divina - afirmações contidas no Evangelho ou por ele referendadas - que sobre especulações de ordem metafisica sobre a natureza dos seres, sou levado a abraçar - inda que hesitando - antes a teoria da aniquilação dos ímpios (implementada pela misericórdia divina) que a teoria da restauração total.

Quanto a possibilidade exegética a respeito de uma aniquilação dos ímpios, já o Testamento Velho - tão caro aos protestantes - encontra-se repleto de exemplos favoráveis a ela, já a palavra Kolasin por sua estrutura mesma deixa em aberto tal possibilidade.

Tal destruição ou aniquilação será eterna porque a memória da mesma perdurará para sempre nas mentes dos santos glorificados.