sábado, 17 de outubro de 2009

Ponto: aniquilacionismo talvez, sono da alma jamais.












Embora minha estrutura ou esquema de pensamento seja bastante simpático a teoria da aniquilação final, há um aspecto da teologia aniquilacionista que me preocupa bastante...

Refiro-me a condição das almas ou espíritos isentos de carne, durante o tempo que medeia a criação e a consumação dos tempos ou seja o tempo presente.

Creio oportuna esta abordagem se considerar-mos que boa parte dos aniquilacionistas de hoje e de ontem inclinavam-se a teoria da morte, do sono ou da fixação da alma no túmulo.

Os antigos - salvo Teófilo de Antakia e Atenagoras (apenas com relação as almas dos ímpios) - via de regra não regeitaram a doutrina da imortalidade da alma, alguns entretanto - como Afraates - reduziram ao máximo possivel sua atividade consciente sustentando que se encontrava a dormir ou a sonhar dentro de sua sepultura, teoria que o islamismo recebeu sob a alcunha de barzak.

Os modernos no entanto adiantaram-se bastante e afirmaram em alto e bom som sua inexistência ou dissolução - jeovistas - ou uma perda total de consciência ou topor, tal o posicionamento dos adventistas.

Pois uma negação absoluta da imortalidade nos termos do jeovismo ou mesmo nos termos mais suaves do adventismo atinge em cheio a bela doutrina da comunhão dos Santos.

Evidentemente que Afraates, para compor-se com a ortodoxia sem sacrificar sua teoria judaizante, susteve a teoria duma mediação juridica ou meritória dos santos, segundo a qual Cristo levava em consideração os merecimentos de seus santos sem que fosse necessário a intercessão ativa ou pessoal dos mesmos. O mesmo patriarca inclinava-se inclusive para a doutrina da intercessão geral dos santos segundo a qual os santos não intercedem pessoal ou individualmente pelos mortais, resumindo-se a mediação em Cristo ter conhecimento dos méritos de todos os santos como se fosse um só mérito (uma espécie de bancos de merecimentos da igreja celestial) e em aplica-lo segundo as preces dos fiéis... Evidentemente que esta construção engenhosa em nada contrária a ortodoxia sendo inclusive, até certo ponto, mais arrojada que a teoria tradicional e comumente admitida.

Os Sunitas do islã, que também afirmam a doutrina do barzak e da mediação dos santos, concebem a mediação do mesmo modo havendo fortes suspeitas de que receberam tal concepção ou de Afraates ou da teologia nestoriana, a qual permaneceu adita a ela por longos séculos... Tal concepção também esteve presente na igreja jacobita ao menos até o século X...

Daí Mehemeth II recorrer aos méritos dos santos adormecidos pouco antes de iniciar sua derradeira campanha contra Bizâncio: "Eu Mehemeth, filho de Murad... sulão de Varan e Rakmal... firmado no ministério do grande profeta Mehemeth e nos merecimentos de todos os Santos... hei de destruir as obras que os sectários do nazareno fizeram com suas próprias mãos e calcar aos pés seus deuses de ouro, prata, bronze, pedra e madeira..."

Até o advento de Ibn Wahaab - que alguns supõe ter sido influênciado pela reforma protestante - todos os sunii ou murjia, fiavam-se nos merecimentos dos santos falecidos - fossem marabutos no Norte da Africa, Daruweses na Ásia ou Firkeres na Índia - aos quais erguiam soberbos monumentos funebres e lavavam com água de rosas e óleo perfumoso por ocasião das festas ou do 'dia dos mortos', pois o islã também possui um dia especifico para se interceder pelas almas dos mortos, recitando o Salatum al Jinaz. Ora, todas estas doutrinas sobre a comunhão dos santos, os sunii e xiias receberam do Cristianismo ortodoxo no século VII.

Se bem que entre os hebreus do tempo de Cristo houvesse uma grande confusão e uma imensa gama de teorias a respeito do além túmulo e do mundo futuro -- refletindo o Velho Testamento tal estado de confusão (pois as partes mais antigas da Taurat são mortalistas, outras partes mais recentes da taurat afirmam uma sobrevivência precaria no sheol, o livro de Daniel postula a ressurreição do corpo e a Sabedoria de Salomão e os Macabeus sustem a imortalidade nos mesmos termos que os gregos) -- o divino Mestre afirmou solenemente a sobrevivência ativa e consciente da alma após ao morte do corpo. Pois disse aos saduceus que o importunavam: Nosso Deus, Deus de mortos não é, mas Deus de viventes, pois nele Abraão, Isaac, Jacó e todos os homens estão vivos.

Magnífico testemunho pois se na companhia de Sixto senensi (rabino judeu convertido ao papismo no século XVI) - biblioteca sacra - folhearmos o talmud seremos logo informados pelos sábios de israel de que os antigos fariseus - como Yeohanan Ben Zachai - costumavam empregar as mesmíssimas palavras contra os saduceus COM O OBJETIVO DE AFIRMAR A IMORTALIDADE ATIVA E CONSCIENTE DA ALMA HUMANA.

Portanto - como já certificamos em nosso "Tratado de escatologia" (composto justamente com o objetivo de denunciar a minuciosa esquematização desenvolvida neste terreno por papistas e protestantes) - se alguns padres como Teófilo, Atenagoras ou Afraates, de algum modo empanaram e/ou obscureceram a bela doutrina da imortalidade ativa e consciente da alma, foi sob o influxo do Velho Testamento e das tradições judaicas e não sob o influxo do Evangelho e do Novo Testamento, sendo provavel inclusive que assumissem tais posições tendo em vista a conversão dos judeus... pois grande parte deles ainda cria na teoria tradicional do Sheol ou na teoria reformada do Barzak (alguns hebreus no entanto, como Uriel da Costa - século XVI - permaneceram aditos a crença tradicional dos saduceus, ainda hoje mantida pelas Tjs e segundo a qual a alma ou inexiste ou se desintegra junto com o corpo humano).

Porque estou a descrever todas estas controvérsias há muito sepultadas no tempo e que só interesam a alguns erúditos de gabinete?

Estou a descreve-las porque auxiliarão o amigo leitor a compreender uma experiência teológica vivida por mim mesmo há alguns anos atrás e que diz respeito as relações existentes entre aniquilacionismo, estado intermediário e comunhão dos santos...

Conforme alguns setores religiosos, aditos até bem pouco tempo a crença tradicional no juizo particular e definitivo seguido pela sobrevivência ativa e consciente da alma, teem se inclinado cada vez mais a teoria do sono da alma ou do barzak, sem no entanto regeitarem a doutrina das penas perpétuas com relação a fase que se seguirá ao juizo final.

Há cerca de dez anos, quando estudava teologia com os pentecostais (na condição de observador) fui convidado por alguns fiéis chegados a cúpula da IEDP - cujos fundadores e lideres são nossos amigos pessoais - para travar uma disputa teológica com um dos principais teólogos das Assembléias de Deus, desta região, o qual se bem me lembro chamava-se Paulo. Conforme nos disseram este tal Paulo havia cursado teologia em diversas instituições reformadas e obtido grande prestígio nas diversas disputas travadas com padres romanos e lideres kardecistas.

Sabiam nossos amigos da IEDP - e por isto nos tratavam quase como irmãos de fé - que apesar de papistas (estavamos em fase de transição rumo a ortodoxia - 1998), conheciamos minuciosamente o Novo Testamento e razoavelmente bem o Testamento Velho, bem como a literatura judaica antiga e os escritos talmúdicos, além é claro dos escritos patrísticos e um tal preparo, encheu nossos amigos de espectativa quanto a nossa 'possível' conversão ao protestantismo. Foi quando tomaram conhecimento de que haviamos vencido a alguns pastores adventistas numa controvérsia organizada pela própria entidade (uma de minhas tias era adpeta fervorosa da organização e sempre nutriu a esperança de converter-nos) então não perderam tempo e mandaram chamar o 'campeão pentecostal' com o intuito de esmagar-nos.

Esta reunião - ao contrário das que haviamos recentemente travado com anabatistas e adventistas - foi bastante afavel e cordial, pois ocorreu após um banquete, regado - pasmem - com vinho (!!!).

Apresentados ao representante pentecostal trocamos as saudações de praxe e inicamos o debate que se bem me lembro girou em torno da maternidade divina de Maria, passando logo - com grande decepção para nossos adversários que pouco ou nada sabiam sobre o tema - as Naturezas de Cristo, Calcedônia, etc

Encerrada esta rodada a principio de nossos amigos, os quais reconheceram a precariedade de seus conhecimentos em torno do tema (alta Cristologia), foi sugerido por alguém que abordassemos o problema da comunhão dos Santos, da imortalidade da alma e da eternidade das penas (foi assim que a conversa inclinou-se a escatologia).

Antes porém de iniciar-mos os debates em torno das escrituras, solicitei como de costume, que algum dos presentes definisse em termos bastante claros e inequivocos quais as afirmações dogmáticas de suas igrejas...

Como fora criado em proximidade com os assembleianos, esperava - apenas os batistas lha haviam oferecido dois meses antes - que algum deles, fizesse uma breve exposição sobre a teoria tradicional> juizo particular - sobrevivência ativa e consciente - situação definitiva e eternidade de penas...

O sr Paulo no entanto causou-nos grande supreza principiando por atacar o falso dogma da imortalidade ativa e consciente da alma e por insinuar já que a alma dormia, já que a alma sonhasse na sepultura, sem excluir mesmo a possibilidade de que a mesma viesse a morrer para ser ressuscitava no dia do juizo, apresentando uma aluvião de textos extraidos quase que todos das partes mais arcaicas do Velho Testamento e concluindo que não só era impossivel que os santos falecidos intercedessem por nós, como eram igualmente inutil que nós vivos rezassemos pelos mortos, assim, arrematou o jovem teologo assembleiano: 'Não pode haver base alguma para a falsa doutrina da comunhão dos santos.'

Estupefato aleguei que quando menino e moço (fim dos 70 e inicio dos 80) ouvira da boca de diversos pastores assembleianos a clássica e tradicional doutrina da sobrevivência ativa e consciente da alma, e, algumas descrições misticas dos estados experimentados pelas almas remetidas a tais lugares (as impagaveis revelações sobre o céu e o inferno)...

Respondeu-me o nobre exegeta, que a formulação teológica das igrejas estava a mudar, afastando-se mais ainda do padrão romano - segundo cria a doutrina da imortalidade ativa e consciente havia sido inventada pelo Papa na Idade Média (quando na verdade o Papa romano nada inventara além da doutrina infernista, que nosso teólogo firmemente sustentava) - e progredindo no conhecimento da verdade revelada (ou seja sustentando a teoria igualmente papista do desenvolvimento do dogma ou das novas revelações).

Limitei-me a objetar - porque já era quase ortodoxo e francamente perenalista - que neste caso ficava destruida a imutabilidade da fé...

E obtive como resposta esta curta frase: Nossa igreja não é apenas reformada, sine reformanda est... (posteriormente tive a ocasião de ouvir ou de reler esta frase um sem número de vezes)

Diante deste jogo de palavras e desta manobra relativista só nos restou despedir-nos amigavelmente e encerrar o debate...

Afinal porque heveriamos de debater com pessoas ou instituições que mudam de crenças e de doutrinas como que muda de roupas?

E no entanto foi um dos debates em que mais aprendemos sobre a mentalidade sectarista.

Pois tinhamos acabado de ler algumas obras de teologia da sra Ellen Withe publicadas pela CPB e numa delas haviamos nos deparado com este juizo quase que escolástico sobre o assunto:

"A doutrina da comunhão dos santos é filha da falsa doutrina da imortalidade da alma.
Porque durante os primeiros séculos ninguém orava pelos falecidos ou recorria a suas intercessões?
Porque ninguém acreditava que permanecessem conscientes após a morte.
Prevalecendo a sã doutrina segundo a qual os mortos permanecem insenssiveis em suas sepulturas a espera da ressurreição final.
Portanto como poderiam interceder ou ter suas penas aliviadas se estão dorminto?
No entanto na medida em que a doutrina pagã da imortalidade ativa e consciente foi substituindo a verdadeira doutrina e corrompendo a fé, tais doutrinas foram se impondo.
Afinal que há de extraordinário em que espíritos ou almas vivas intercedam pelos mortais ou sejam consoladas por eles?
Extraordinário seria que os mortos sobrevivessem e não se preocupassem com os vivos produrando socorre-los com suas preces...
Extraordinário seria que os mortos em aflição não sentissem alivio na medida em que tomassem conhecimento das preces e sentimentos que os vivos lhe dedicam.
Toda doutrina da imortalidade da alma é feita de encomenda pala a doutrina da comunhão dos santos.
Foi assim que uma falsa doutrina produziu outra falsa doutrina e eles só poderão ser destruidas juntas, pois o fundamento e a força do sistema papal e do sistema espiritista é a imortalidade da alma."


Teriam nosso teólogo assembleiano ou seus mestres, conhecimento de tais locubrações?

É o que vivo a perguntar-me até hoje...

Em que medida os teologos protestantes ousarão alterar a doutrina tradicional da sobrevivência ativa e consciente da alma levando em conta as advertências da sra Withe. Advertência duma lógica irrefragável...

Neste caso toda polêmica em torno da comunhão dos santos tera de reverter-se em polêmica sobre a imortalidade consciente da alma.

Não tiro tal conclusão porque tal polêmica me assuste...

Nada mais simples do que demonstrar a imortalidade ativa e consciente da alma partindo dos Evangelhos: AINDA HOJE ESTARÁS COMIGO NO PARAÍSO...

Não é este o caso...

O que me assusta frente a toda esta problemática é a ginástica empreendida pela mente protestante diante de tais assuntos.

Pois tem convergido - ao menos em alguns casos - para a negação duma doutrina já tradicional e claramente patenteada pelo Evangelho: a da sobrevivência ativa e consciente e, ao mesmo tempo, se obstinado em sustentar uma doutrina historicamente canonizada pelo papado como a da eternidade das penas.

Ocorre-me ainda que quando fiz meu curso de teologia com o povo da IEDP, os manuais adotados assinalavam as três teorias referentes ao estado das almas antes do juizo: Morte da alma, sono da alma ou imortalidade ativa como opiniões meramente provaveis. Por outro lado quanto a situação pós juizo: a doutrina da aniquilação era classificada como herética e a da restauração como suspeita enquando a doutrina das penas eternas era afirmada como plenamente ortodoxa... Sei que se trata duma opinião isolada (como quase tudo no protestantismo) e no entanto serve de exemplo para ilustrar o quanto a teologia reformada tem se deixado levar por seu tom de polêmica quanto a teologia romanista... a ponto de perder de vista a objetividade do Evangelho e o sentido da História.

É justamente por ter tais situações diante de mim que mesmo sentindo-me inclinado a afirmar a doutrina da aniquilação das almas impenitentes no dia do juizo, sou obrigado a fazer uma prudente ressalva, segundo a qual afirmo e creio como verdade de fé a sobrevivência ativa e consciente de todas as almas até o dia do juizo bem como a vigencia de um estado intermediário e indefinido para tantas quantas não tomaram conhecimento de Cristo ou não se uniram a ele, com a possibilidade de mudarem de estado e de se apropriarem da graça e da bemaventurança, pois tal foi a fé comum dos padres antigos e é ainda hoje a fé da igreja ortodoxa em oposição as novidades urdidas pelos latinos sejam papistas ou protestantes.

Creio pois na vigência de um estado intermediário a que pertencem tantos quantos não se encontram em Cristo, com possibilidade de mudança, converção e salvação para todos.

E da mesma forma creio nas intercessões dos santos falecidos - não com objetivos imediatos e materiais mas morais e espirituais - e na utilidade dos pensamentos, leituras e preces pelos que partiram em estado de profanidade com o objetivo de ilumina-los e converte-los.

E creio por fim que os santos só serão plenamente felizes e glorificados quando recobrarem seus corpos e o mal for aniquilado no dia do juizo.