sábado, 17 de outubro de 2009

Um convite a Cristandade vindoura: Livre examinemos o infernismo.








Ao pensar em vida Cristã sou levado e pensar, e não posso deixar de faze-lo, em minha própria vida posta em contato com o Cristianismo seja através do protestantismo, durante minha infância e juventude, do romanismo, durante minha mocidade e da ortodoxia e espiritismo, em minha madureza ou seja no tempo presente.

Vida Cristã para mim é isto: primeiramente minha própria experiência de Cristianismo ou melhor o que fui capaz de perceber objetivamente sobre a ação das diversas formas de fé Cristãs no mundo.

É assim que compreendo a experiência Cristã, não como uma espécie de sentimento ou emoção, mas sobretudo como um observar e perceber o posicionamente e a atuação da forma cristã a que pertencemos perante o homem e o mundo.

É o que tenho pretendido investigar até hoje, a comunicação ou contato entre a graça e o mundo e em que medida o mundo tem sido transformado por esta graça...

Bem a experiência que tive com relação ao romanismo no que diz respeito ao inferno pode ser classificada como algo entre ruim e bom. Ruim porque segundo a igreja romana, desde 1336, afirma a existência das penas perpétuas como artigo de fé.

Logo como papista que fui tive de submeter-me a ele...

Naquela altura entretanto tal submissão não me foi nem um pouco dolorosa e por um motivo bastante simples: como ex protestante eu fora criado, desde moleque, ouvindo narrativas e descrições sobre as tais penas e o tal inferno de modo que já estava acostumado com ele. De algum modo este mundo mitologico já fazia parte de meu patrimônio cultural...

Esta foi a parte ruim, ter de aceitar as tais penas perpétuas como algo tão necessário a ortodoxia credal quanto a crença da Santa e indivisivel Trindade. Devo confessar que hoje tal padrão religioso é a meu ver um padrão infernal...

Ou demôniaco, na medida em que sou obrigado a crer na existência de um Satanaz com a mesma intensidade que creio na divindade do Senhor Jesus Cristo...

Mas, deixemos passar...

O aspecto bom de minha experiência no romanismo, foi que apesar de ser obrigado a crer na existência do tal inferno e das tais penas perpétuas, foi que na medida em que iamos aumentando o raio de nossas leituras e estudos teologicos, nossa concepção de infermo ia sendo paulatinamente depurada de seus aspectos mitológicos e grosseiros e transformando-se por assim dizer num outro tipo de crença, na crença do inferno mero estado de alma, da alma separada ou alienada de Deus. Penso que tal estado de crença expresse a idéia mais avançada e menos selvagem que pode ser construido a partir desta fábula medieval e que confine com sua negação...

Pois pouca dificuldade há em se regeitar como vã a eternidade das penas quando já se regeitou sua materialidade e espacialidade para converte-la numa experiência pessoal e subjetiva de separação com relação a Deus...

Sou pois imensamente grato a teologia romanista por ter-me conduzido até onde pôde conduzir-me, preparando-me certamente para romper com o infernismo crasso.

Creio que entre a teoria contemporânea do inferno como mero estado de separação com relação a Deus e as teorias do restauracionismo origenista ou do aniquilacionismo não haja mais que um passo bastante curto. Como ortodoxo dei passo e fiz o salto...

Para mim foi como que uma libertação...

Afinal porque a beatitude necessita de desventura e Deus necessita de um Diabo?

Naturalmente que ao iniciar-mos nossa ascenssão em Cristo principiamos a nos alimentar com o leite das fábulas e literalidades, posteriormente todavia é salutar trocar o leite por alimento sólido...

Quebrar a castanha, por a casca de lado e saborear a polpa...

Quando eramos crianças imaginavamos Deus como uma espécie de bicho papão ou de vigilante (policial) invisivel, quando crescemos e nos tormanos adultos pela compreenção da mente de Cristo abandona-mos as imagens de criança...

Já a experiência que tive com relação ao protestantismo no que diz respeito ao inferno pode ser classificada como péssima.

A excessão das adventistas e jeovistas, a cujas publicações sou bastante grato quanto a este particular e de cujos sentimentos de revolta e indignação comungo, todas as organizações protestantes que conheci seja de perto ou de longe são em sua maior parte mais infernistas do que a igreja papólica...

Salvo engano de minha parte - pois é impossivel a quem quer que seja conhecer todas as manifestações existentes da variação protestante e só podemos analisar o fenômeno protestante genericamente - a temática do inferno, das penas eternas e do Diabo é bastante comum nas organizações protestantes, chegando mesmo a ser repetitiva e insistente no sentir de alguns teologos.

Em tais organizações o diabolismo e o infernismo logram atingir sua máxima intensidade a ponto de fazerem ressurgir das cinzas do passado toda uma série de pinturas folclóricas - de origem pagã - de certo modo até raras no contexto romanista.

Se há algo que o protestantismo parece não ter se lembrado de reformar foi o dogma do inferno e ouso até dizer que tal dogma tem sido endossado e fortalecido a cada dia nas instituições religiosas de tradição luterânica...

Muitas coisas belas cogitou o protestantismo em demolir e aniquilar, dos sacramentos da Exomologesis e da Clerotônia, a maternidade divina de Maria e a comunhão dos santos... no entanto apenas a um reduzido número de pioneiros e fiéis ocorreu a necessidade de se aniquilar doutrinas tão feias e repugnantes quanto o infernismo e o diabolismo cujo filão continua sendo explorado até hoje pelos sofistas religiosos...

Até onde não me falha a memória e alcança a recordação o Diabo e o inferno continuam a ser pintados com as velhas cores da Idade média por um bom número de pastores... cumprindo exatamente com a mesma função: aterrorizar, amedrontar e controlar as pessoas mais ignorantes e sugestionáveis...

De algumas publicações e sites contemporâneos, e não de velhos e embolorados incunabulos da Idade média colhi as seguintes descrições sobre o inferno:


- O inferno é um lugar real.

- O fogo, o enchofre e o verme... referidos pelo Senhor no Evangelho devem ser recebidos em sua literalidade, especialmente após a ressurreição final...

- Lá se encontram o Diabo, a Besta imunda, o anti Cristo e uma multidão incontavel de de seres humanos.

- Nada há de estranho em que os diabos e réprobos se agridam e torturem mutuamente partindo do suposto que se odeiam uns aos outros.

- No último dia os réprobos haverão de recuperar seus corpos tendo em vista a punição eterna a que Deus lhos dispoz. O Estado de tais corpos será de corrupção, alo mais ou menos semelhante ao estado natural de putrefação ou de decomposição por nós conhecido.

- Este lago de fogo e enchofre atulhado de corpos será posto numa espécie de cova debaixo da terra paradisíaca, sendo pois pertinente o nome de infernus...

- Tal estado de sofrimento espiritual e físico durara ad infinitum ou seja para todo sempre.

- Cristo e os eleitos terão perfeita ciência quanto ao estado dos réprobos e se rejubilarão com ele.

- Trata-se dum dogma divinamente revelado e aqueles que não lho admitem são verdadeiramente heréticos.

Depois de tudo isto só falta a plaquinha na porta:

-- Vós que cá entrais, deixeis do lado de fora toda esperança de sair...

Qualquer semelhança com o inferno descrito por Dante não passa de mera coincidência...

Como piadas sem graça até que tais afirmações não cairiam assim tão mal... e no entanto essas insanidades são proferidas com toda seriedade do mundo, por líderes religiosos respeitabilíssimos, do alto de diversos púlpitos por todo este imenso pais!!!

E quem não presta fé a tais descrições é bridando com a amável pecha de herético, a qual num passado não muito distante acarretava uma condenação real ao verdadeiro inferno, construido sobre esta terra, por padres e pastores, em nome do meigo nazareno...

Ou quereis outro inferno além do 'quemadero' de Sevilha ou da pira em que ardeu o pobre Servet, durante duas horas, por ter sido posto a queimar com lenha verde...

Felizmente há homens e não poucos que não suportariam contemplar os sofrimentos do pobre Servet por mais de cinco minutos...

Os advogados da ortodoxia ocidental entretanto sustentam que Deus não só suportará como deleitar-se-a em contemplar tais torturas e vechações por toda eternidade...

Tais senhores não coram diante da afirmação segundo a qual '... não é impossivel que deus tenha criado uma espécie de fogo capaz de queimar e fazer sofrer as almas dos pecadores!!!'

Parece-me que aqueles jovens que puzeram fogo ao corpo do índio pataxó foram mais misericordiosos do que esse deus... um deus encinerador de almas vivas!!!

Não satisfeito com praticar tais atos de sevícia contra seres indefesos - pois ele, deus é Onipotente - o deus da Cristandade hodierna, ainda se dará ao luxo de enfiar tais almas, já bastante assadas, em corpos decompostos!!! Para serem eternamente devoradas por vermes imortais!!! E simultaneamente banhadas em enxofre, breu, piche... e vez por outra espetadas ou esbordoadas por anjos caidos... Tudo isto em meio a escuridão duma tenebrosa cloaca...

E eles dizem que o deus de amor, concebeu e criou a cada uma dessas torturas!!!

E depois esses mesmos senhores maldizem a Torquemada e a inquisição papista... mera antecipação daquele inferno cuja existência atribuem e vontade positiva de seu deus... sim de seu deus...

Mas não do Deus de Jesus Cristo, com cuja natureza e cárater, admitem eles em seus sermões e tratados, não há como conciliar a descrição que fazem do mítico lugar de tormentos perpétuos...

Pois a simples imagem de tais tormentos sugere um ódio quase que infinito e não amor, misericórdia, compreenção, tolerância, bondade, justeza...

Eis como o tal inferno é descrito por um de seus adeptos:

"Oh! Quão horrível é sua situação agora. Seu leito é um leito de chamas; as visões que tem são visões assassinas que aterrorizam seu espírito; os sons que ouve são gritos, e choros, e lamentos, e gemidos; tudo que seu corpo conhece é o infligir de dores lancinantes! Tem a indescritível aflição do sofrimento que não diminui. A alma olha para cima. A esperança está extinta - se foi. Olha para baixo, em medo e pavor: o remorso toma conta dela. Olha à sua direita, e as impenetráveis paredes da morte a mantêm dentro dos limites da tortura. Olha à sua esquerda, e há uma barreira de fogo ardente que impede o crescimento de qualquer especulação de fuga que seja sonhada."

Mas com que motivo?

Segundo os mesmos teóricos, a existência do inferno é necessária para que sejamos levados a abandonar o pecado e a servir a deus.

Ou seja o deus de Jesus Cristo é tão amavel, tão apreciavel, tão desejável... que para constranger as criaturas a servi-lo teve de idealizar os cruéis tormentos do inferno. Do contrário ninguém o serviria livremente, pelo que ele é...

E tampouco o pecado é algo de tão sinistro que seja capaz de alarmar a consciência humana, daí a necessidade das torturas... para que o homem amedrontado abandone ao pecado e passe a viver, monotona e piedosamente...

Efetivamente o Criador, a divina graça e a virtude devem constituir o que há de mais maçante e indesejavel a ponto do tal inferno ser necessário para que ao menos algumas almas covardes se salvem...

Julgo de minha parte que um Deus sem predicados suficientes para se fazer amar e servir livremente por suas criaturas sequer seria digno de existir...

Quanto mais um deus carente e violento, que firmado em sua força e poder chegue a ponto de vingar-se destas formigas humanas pelo simples fato de não terem querido adora-lo ou servi-lo...

Que os homens imperfeitos sintam a necessidade mesquinha de exercer vingança com relação a seus desafetos é algo que podemos compreender, agora que um Ser absolutamente perfeito e auto-suficiente sinta necessidade de exerce-la parece-me o cúmulo do absurdo.

E no entanto boa parte da religião Cristã resume-se nisto: em atribuir a Deus tudo quando Cristo condenou nos seres humanos e em transferir para sua pessoa nossos recalques, defeitos e imperfeições, criando um falso deus ou um símulacro a nossa imagem e semelhança.

Por esta e muitas outras razões no momento em que a Cristandade amadurecer e se cristificar, abandonando tais quejandas indignas até mesmo de Hesiodo e Homero, terá sido dado um grande passo nos domínios da moralidade e da ética Cristãs. Um Cristianismo isento de infernismo ou de diabolismo será com toda certeza muito mais vigoroso e Cristão.