terça-feira, 29 de dezembro de 2009

"Non enim, quod volo bonum, facio, sed, quod nolo malum, hoc ago."



"...porque não faço o bem que eu prefiro, mas o mal que não quero, esse faço..." (Romanos 7.19).

Algumas pessoas entendem que esta passagem, escrita por Paulo, se trata de um sentimento que o cristão tem logo que se converte, ou que seja uma fase, um "locus", um porto, um momento da vida cristã que fica para trás.

Homens grandiosos pensaram desta forma. Por exemplo, John Wesley entendia que quando Paulo escreveu algumas epístolas, ele próprio não estava totalmente santificado. Isto porque, Wesley advogava, baseado na doutrina dos antigos padres, e do que entendia ser a melhor interpretação das Sagradas Escrituras, a doutrina da perfeição cristã, qual seja, a possibilidade do cristão viver sem pecar.

Bom. Eu, particularmente, não cheguei a este nível de iluminação.

Sinceramente, creio que o lamento (ou gemido) de Paulo é algo que constantemente pode retornar para a nossa vida.

Isto pode ser tanto uma posição teológica como uma confissão do meu próprio fracasso pessoal em ser aquilo que Wesley chamava de cristão perfeito, pois não o sou.

Como posição teológica, vejo, por exemplo, boa parte do protestantismo reformado advogar que, de fato, tal lamento, conforme o expresso por Paulo, retornará muitas vezes na vida do fiel. O Dr. Martin Lloyd-Jones chegou a dizer que é justamente tal percepção do pecado e do fracasso próprio uma das maiores provas da verdadeira santificação do ser.

Como uma confissão do próprio fracasso, vejo que pelo menos em mim se trava sempre uma verdadeira luta entre o que eu sou e o que gostaria de ser, o que eu faço e o que gostaria de fazer. Uma luta em que não há tempo para trégua, para descanço, com a terrível possibilidade de se cometer os mesmos erros, os mesmos atos que se acreditava estar livre.

Quando Paulo escreveu sua última carta a Timóteo, ele se auto-intitulou "o maior dos pecadores". Não penso que fosse somente um exercício retórico, mas sim uma auto-percepção de alguém que passava a se conhecer profundamente a medida que se aproximava ainda mais do Uno, do Sagrado, do Totalmente Santo.

Isto me faz pensar, portanto, o quanto sou totalmente dependente da graça, daí, a minha recusa em abandonar a teologia dos reformadores. "Sola Gratia". Não que não houvesse e não tenha existido santos como Wesley e tantos outros, que também foram animados pela graça para viver uma vida totalmente santa. Entretanto, a cada nova queda, a cada novo lamento, percebo que, realmente, sem o alento da graça de Deus, nada seríamos. Não que a grandeza de Deus dependa da diminuição do ser humano, nada disso. Mas sim que, a presença de Deus nos faz perceptivos daquilo que realmente somos. Por isso, não podemos julgar ninguém, mas tão somente nos entregarmos àquele que reservou a sim mesmo o direito de julgar.