terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A Bíblia em nossa liturgia

Nós, cristão evangélicos, temos a mania de nos gloriarmos, ou de enfatizarmos que somos cristãos bíblicos, que temos como nossa única regra de fé e autoridade as Escrituras Sagradas...

Não poucos teólogos, bem como apologistas católicos romanos já demonstraram a incongruência de se explicar a própria formação do cânon bíblico sem a ajuda da tradição, da história da igreja, etc, mas ainda assim insistimos nesta ladainha, como se a Bíblia, com seus diversos livros, lista canônica, etc, tivesse vindo pronta do céu...

Na verdade, pouquíssimos de nós, protestantes, reconhece, ou conhece sequer a teologia dos reformadores, notadamente de Lutero, quando disse "Sola Scriptura"...

Poucos de nós sabemos sequer que, segundo o critério protestante, a própria lista canônica dos livros escriturísticos está, esteve, e sempre estará sob o crivo do livre exame, visto que, a Palavra, a única Palavra infalível, é o Verbo encarnadao, cujas Escrituras são o reflexo e o testemunho...

De qualquer modo, não é sobre isso que quero discorrer, mas sim um pouco sobre liturgia e sobre a postura psicológica do povo que a si mesmo se chama evangélico durante o culto protestante.

Bom. É sabediço que nós não celebramos a sagrada eucaristia todos os domingos; ou seja, não há santa ceia todos os domingos, e a maior parte de nós o faz em um culto especial por mês.

Portanto, desde seus primórdios, todos sabem, evangélicos ou não, que o centro do culto protetante é a exposição da Palavra.

Entretanto, tenho percebido algo, não poucas vezes, que algo interessante tem ocorrido em nossos cultos, e que parece passar quase que imperceptivelmente no crivo de nossos teólogos.

Tenho visto em muitos cultos, tanto nas igrejas, como na televisão, que a grande expectativa do povo é pelo sermão, e não pela leitura da Palavra em si!

Mas não é a Bíblia, a Sagrada Escritura que é inspirada, conforme nossa própria teologia?

Eu tenho percebido que é em torno daquilo que o pregador vai dizer que se concentra toda a expectativa do povo, e não na leitura que é feita.

Mas, em um sentido teológico, o pregador, em si, não é divinamente inspirado, e sim a Escritura!

E isso, de acordo com a melhor teologia protestante! (pelo menos, do tipo mais conservador, penso).

Mas a leitura bíblica durante o culto, muitas vezes, é quase que uma desculpa, feita de um fôlego, e logo, se passa para a próxima etapa, qual seja, o sermão.

O papel do pregador não é trazer novas revelações, mas sim adequar a Escritura de seu contexto para nosso contexto. Ou seja, aclarar o sentido das palavras de Jesus para nosso tempo, e não acrescentar, não distorcer...

Não que eu não seja fã de um bom sermão. Claro que sou. Tanto de pregadores modernos, como um Ariovaldo Ramos (nossa, quem não ouviu o Ari, tem que ouvir), um Ricardo Gondim, um Caio Fábio, entre outros, como pregadores do passado, como os Wesley, Finney, Spurgeon, Lloyd Jones, entre outros (estes, obviamente, de leitura).

Entretanto, fico a imaginar se em nossa liturgia, não poderíamos nos "encharcar" muito mais de leituras bíblicas e de momentos de silêncio. Quem sabe, uma única vez por mês. Poderíamos ler o sermão do monte, por exemplo, e, a cada parte do sermão, cantarmos hinos, ou intercalar momentos de silêncio e meditação. E, em nossas orações, oramos segundo o que se determina no dito sermão. Oramos para sermos humildes de espirito, mansos, misericordiosos, castos, desapegados, discretos...

Na liturgia católica há de três a quatro leituras. Muito rico, por sinal. Geralmente se faz uma leitura do Antigo, uma do Novo, um Salmo e o Evangelho. Entretanto, por lá, geralmente é feito de modo tão automático, liturgico, que não parece fazer muito efeito no povo. Rapidamente, se esquece do que se leu. Talvez, possamos criar um meio termo, tentando trazer um pouco mais da "lectio divina", ou da "devocional" para dentro do culto público, não obstante serem as tais exercícios individuais.

Portanto, está foi uma observação curiosa que quis trazer. Eu mesmo já me vi muito mais afoito e cheio de expectativas diante do sermão do que diante da leitura bíblica. Somos treinados para isso, para sermos excelentes pregadores, expositores bíblicos, a ponto de o culto ser considerado bom ou ruim conforme a pregação. Mas talvez devamos nos permitir uma postura litúrgica diferencidada diante das Escrituras, para sermso verdadeiramente impactados por suas palavras, e tirarmos este "peso" das costas, qual seja, o de termos de ser pregadores sempre brilhantes...(e outros, farão o favor de poupar os ouvintes de muitas abobrinhas que são ditas...hahaha...)