terça-feira, 16 de março de 2010

Continuando a refletir sobre os milagres e sua possibilidade


Tenho minha posição claramente delineada e de pleno acordo com o juizo da igreja: recebo com fé divina apenas e tão somente os milagres feitos pelo Verbo perpétuo de Deus e por seus bemaventurados apóstolos.


Pois creio que a funcionalidade dos milagres diz respeito a natureza divina de Cristo.

Os milagres são como que um sinal pertinente a messianidade do Filho de Maria e como que uma vara destinada a apoiar a vinha nascente da igreja.


Patenteada a messianidade de Jesus diante dos israelitas e firmada a igreja apostólica entre as nações gentílicas a funcionalidade dos milagres cessou e sua econômia foi substituida pela econômia do serviço fraterno, econômia tanto mais elevada e nobre quanto pautada no exemplo que nos foi legado pelo Senhor.


Afinal que foi Jesus?


Um Benfeitor e Mestre que fazia milagres ou um milagreiro que ocasionalmente beneficiava e ensinava seus ouvintes?


Como encaramos o Cristo?


Como uma espécie de Asklépios judeu ou como instrutor divino que nos foi enviado pelos céus?


Se alguém quizer crer nas narrativas dos mártires e mesmo em algumas que dizem respeito aos antigos padres, ampliando a esfera da ação miraculosa até o século IV, nada tenho a discutir com tal pessoa, exceto se ela quizer me fazer engolir os ditos 'milagres' como artigos de fé...


Tampouco tenho algo contra os ortodoxos, romanos e protestantes que afirmam a possibilidade de milagres nos dias atuais, especialmente nas terras de missão, entre os gentios, tendo em vista a expansão e dilatação da lei divina...


Afinal uma coisa é encarar os milagres como instrumentos, recursos ou meios para se atingir algo mais elevado: a verdade e a benignidade do Evangelho e outra totalmente diversa é encarar os milagres como fins em si mesmos a seres buscados enquanto tais.


Pois isso implica em que o Evangelho tenha por fim a transformação de certas situações indesejaveis, cá neste mundo, sem todavia tocar as causas ou estruturas que produziram tais situações.


Refiro-me aqui a uma teologia ou melhor a uma teleologia do milagre como afirmada por pentecostais, neopentecostais e outros grupos religiosos de orientação carismáticos.


Neles o milagre não é como no Evangelho um detalhe acessório, mas a essência mesma do novo Kerigma.


Milagres são buscados com o objetivo puro e simples de satisfazer as vontades daqueles que lhos buscam, sem maiores consequências; consequências que toquem ao comportamento ou a ação daqueles que são agraciados, exceto em se tratando de pagar dízimos ou de cultivar aquelas obras puramente religiosas - como jejuns e vigilias - declaradas como mortas e perniciosas - e não sem razão - pelos primeiros reformadores.


É como se o milagre absorvesse toda espiritualidade do sujeito não lhe restando qualquer espaço para a reflexão sobre a palavra de Cristo ou para o serviço fraterno. Nas comunidades em que os milagres ocupam o primeiro lugar o estudo do Evangelho e sua execução passam necessariamente ao segundo plano dando vezo a uma abominável inversão.


Daí batermos sempre na mesma tecla: encarar os milagres como fim último da instituição Cristã equivale a transforma-la em Hospital, agência de emprego, agência de matrimônio, etc em detrimento de seu cárater eclesial ou seja de congregação daqueles que conhecem a Deus e praticam a sua santa vontade, como assembléia daqueles que sabem os mistérios divinos e lhos aplicam no quotidiano, como grupo daqueles que se dedicam a imitar as ações e operações de Nosso Mestre e Salvador Jesus Cristo...


Ao negarmos a necessidade e a viabilidade dos milagres no tempo presente não partimos - como pretendem alguns - duma perspectiva maniqueista ou descarnada segundo a qual seria indigno do Supremo Ser intervir no plano material. Muito pelo contrário, nossa fé encarnada e centrada na encarnação de Deus nos obriga A ADMITIR QUE O DEUS DO EVANGELHO AGE E INTERFERE PODEROSAMENTE NO PLANO MATERIAL. Mas não de modo isolado, superficial, direto ou imediato, destruindo as leis naturais que ele mesmo estabeleceu e firmou.


É através da transformação da vontade humana, da lei divina, da obediência, da santidade e da virtude que o poder de Deus atua neste mundo, transformando não apenas as manifestações isoladas e superficiais o mal, mas aniquilando a maldade mesma nas estruturas sociais e atingindo diretamente as fontes de grande parte das enfermidades físicas, das anômalias econômicas e dos desencontros existências. É por meio de uma conduta sábia, reta e virtuosa que a maior parte dos efeitos são destruidos de modo perfeitamente natural: em suas causas.


Assim a dinâmica da lei divina não deixa de intervir no plano material na medida em que se propõe a nortear a conduta dos seres racionais e livres, sem no entanto violar ao principio igualmente divino da causa e do efeito presente em toda natureza.


Portanto ao combater a doutrina dos milagres não é a intervenção divina que combatemos, na medida em que como Cristãos cremos num Deus encarnado ou seja num Deus que age e que atua no universo que projetou, mas não num Deus cujo padrão seja a força física e externa... Portanto o que nos choca na teleologia do milagre não é a intervenção mas o imediatismo que exclui a vontade humana e que por exclui-la jamais toca as fonte mesma das situações de sofrimento e dor.


Afinal se Deus precisa consertar as coisas é porque seus adoradores e servos não estão fazendo a coisa certa.


Chego a pensar que o grande problema não é o do sofrimento ou da dor, mas o do individualismo presente ou da completa indiferença para com o sofrimento ou a dor alheios, indiferença que tende necessariamente a intensificar a dor e a torna-la insuportável... Uma tal indiferença se manifesta já em políticos que desviam verbas públicas, já em modos de governar que ignoram a dimeñssão social... Uma ação e outra tendem a causar ou a intensificar as dores do mundo.


Por outro lado segundo a perspectiva Cristã a dor meramente física possui propósitos altamente educativos e elevados como o de promover e estimular a compreenssão mutua, o fraternalismo, a solidariedade, a compaixão, a generosidade, o amor, etc Todas estas virtudes são como que alimentadas e estimuladas no corpo sempre que algum de seus membros passa por tais situações de sofrimento... pois cada membro é levado a identificar-se com o membro sofredor e a sentir-se atingido por seu desconforto.


Segundo a perspectiva do Evangelho a dor e o sofrimento deveriam servir para aglutinar os membros sofredores em torno do calvário e da paixão do Senhor, convertendo-os de fato num só corpo, num corpo solidário e fraterno, num corpo em comunhão ou unidade através de ações e operações concretas: tive fome e me destes de comer, tive sêde e me destesde beber...


Caso Deus fosse obrigado a alimentar, dessedentar, vestir ou curar a cada um dos fiéis, nada nos restaria a fazer...


Penso que se os fiéis são levados a aspirar ao milagre antes de tudo é porque não teem sido assistidas e confortadas já não digo pelo estado - que assumindo uma feição neoliberal abandonou-as por completo - mas por uma comunidade Cristã que ao invés de assisti-las concretamente no exercício da caridade, optou por seguir justamente aquela praxis condenada pela pena apostólica> Ide em paz, rezaremos por vós, pagai dízimos, jejuai e pedia Deus que vos auxilie através de um milagre...


Nada mais cômodo e oportunista do que esta nova mensagem, a qual além de alijar a responsabilidade cristã ainda ousa auferir lucros a partir do sofrimento alheio, mensagem verdadeiramente infernal, que a guiza de libertar miraculosamente o homem, escraviza-o por completo no que tem de mais sagrado.