sexta-feira, 12 de março de 2010

A doutrina e a praxis do milagre no pentecostalismo.



Férias, trabalhos e encargos impediram que retomassemos a sequência de nossos artigos no tempo propício...

Aproveitamos porém o pouco tempo de que dispuzemos para aprofundar nossas pesquisas sobre o assunto, tendo em vista seu aspecto polêmico inda que histórico e factual.

Pois é de todo inutil fazer sermões sobre milagres e prodigios se eles de fato não são corroborados pela percepção e pela experiência comuns.

Haviamos tencionado inclusive 'espiar' alguns cultos pentecostais com o objetivo de examinar a questão tanto mais de perto segundo a velha escola positivista em que foramos iniciados nos velhos tempos e a qual em parte nos atemos até hoje, ao menos enquanto ponto de partida para as consequentes interpretações ou, como preferimos, compreenções.

Todavia como não nos seria possivel assistir a tais reuniões sem grave escândalo com relação a nossos alunos, amigos e irmãos em Cristo Jesus - afinal não nos seria possivel informar a todos de que o objetivo de nossas visitação era meramente científico ou sociologico - tivemos de nos socorrer da memória. Auxiliou-nos porém o mundo virtual, quero dizer, o YOUTUBE, com suas centenas de videos petinentes ao tema...

Com a vantagem de que tais vídeos podem ser imediatamente conferidos pelo amigo leitor.

Vamos pois ao assunto.

Segundo pudemos constatar - naturalmente que para muitos uma tal constatação significa 'chover no molhado' - o pentecostalismo enfatiza a aquisição de 'milagres' num gráu muito mais alto que a ortodoxia, o romanismo (exceto com relação a RCC cujas raízes históricas estão deitadas no solo do pentecostalismo) ou o protestantismo de feição histórica. Quanto as distinções escolásticas a respeito do pentecostalismo e do neo pentecostalismo, não me deterei nelas, limito-me a alegar o fato de que um dos maiores expoentes da TEOLOGIA DA PROSPERIDADE no Brasil pertence a uma organização _ da qual é ou foi o Vice presidente (!!!) - tradicionalmente classificada pelos protestantes como pentecostal e não como neopentecostal...

Nos livros sobre a especialidade lemos que a 'Assembléia de Deus' é uma organização Pentecostal e inumeras almas bem intencionadas e sinceras teem porfiado em demonstrar que assim o é... com o premeditado objetivo de desvincula-la da assim chamada 'teologia da prosperidade', corrente teológica que os mesmos livros costumam a vincular quase que exclusivamente ao neopentecostalismo... Tal estratégia franqueia as ditas almas a possibilidade de lançar pedras a IURD ou a IMPD e de vindicar a inocência de sua própria organização com relação a vergonhosa doutrina inventada por Kenyon, Hagin, Hinn e outros apóstolos do materialismo fetichista.

Entretanto foi justamente o vice presidente da "Assembléia de Deus" que publicou aquela obra abominavelmente monstruosa intitulada "Bíblia de estudo de batalha espíritual e vitória financeira"...

E partindo do exemplo de Malafaia, que sendo membro duma organização oficial e teoricamente pentecostal, assume ares e posturas que nossos pentecostais - os mais honestos evidentemente - costumam atribuir aos neopentecostais, posso asseverar que aqui na minha terra - a baixada santista - tem sido assim desde que me conheço por gente.

Segundo minha opinião - esboçada já há trezentos anos por Bossuet - tal distinção, entre pentecostalismo e neopentecostalismo, não se impõe na medida em que é meramente externa e não interna, acidental e não essencial, secundária e não primária... segundo os princípios que deram origem ao neopentecostalismo e a T P encontram-se já presentes no pentecostalismo. Não houve criação de qualquer princípio novo mas apenas desenvolvimento do velho princípio comum a todas as organizações pentecostais, os neopentecostais limitaram-se a ir até o fim e a tirar as últimas consequências. Dir-se-ia que tiveram o mérito de serem coerentes com o novo Kerigma...

Quando eu era um rapazote costumava a reunir-me com os amigos a porta de uma espécie de capela da "Assembléia de Deus" e por mera distração costumava a contar quantas vezes os dirigentes dos cultos repetiam as palavras glória, aleluia, amém - porque os pentecostais costumam condenar o uso de orações repetitivas (!!!) - etc. Desgraçadamente não contei e por isso não marquei em meus apontamentos o número exato de vezes em que fizeram uso da palavra 'milagre' ou de algum sinônimo, recordo-me porém de que tal alusão era constante e quase que continua, num gráu muito acima da frequência com que a mesma palavra era empregada nos cultos papistas que eu costumava a assistir e certamente num gráu imensamente acima da frequência com que a dita palavra é empregada no culto divino pela Igreja Ortodoxa de Jesus Cristo.

Caso o amigo leitor discorde de mim remeto-o aos inumeros vídeos pertinentes ao já citado Malafaia...

No meu entendimento esta ênfase obcessiva no que diz respeito a milagres é prenhe de significados para os adoradores e servos de Nosso Senhor Jesus Cristo e digna de nossas mais sérias reflexões.

Afinal segundo penso tal postura corresponde a uma passagem do verdadeiro culto religioso que se tributa a Deus Nosso Pai e Salvador, para o 'culto' ou melhor a busca de 'coisas' que em tése Deus nos dá ou deveria dar...

De modo que cada vez mais as coisas, os objetos e as situações vão tomando o lugar que de direito pertence a Deus somente...

Sintomático que a reforma tenha começado por condenar a venda de indulgências e o 'culto idolátrico' urdido pela igreja romana, para terminar - em suas últimas consequências - reproduzindo os mesmíssimos efeitos que se propuzera combater: o tráfico de bens espirituais e a dedicação a coisas e bens materiais postos antes de Deus Nosso Senhor no coração do homem.

Serei, como me ensina o Evangelho, franco: creio que o pentecostalismo jamais foi cristocentrico, mas miraculocentrico na medida em que sempre se propoz a satisfazer as necessidades imediatas das pessoas prometendo-lhes bençãos de cárater puramente natural, como casas, carros, emprego, saúde, relacionamentos afetivos, etc

O culto tanto pentecostal como neopentecostal perderam de vista seu supremo objeto GLÓRIA DE DEUS, para se converter em correntes, cruzadas, reuniões, etc dedicadas e temas e intenções de cárater marcadamente naturalista ou melhor materialista, como sói o fetichismo primevo. Após termos ascendido das coisas a Deus, tormanos por Deus as coisas...

Desde de que tomei conhecimento desta frase> 'Não busquemos consolações da parte de Deus, mas o Deus das consolações.' descortinou-se para mim um novo horizonte espiritual... Afinal daqueles que tiveram o privilégio de contemplar ao 'desejado das nações' em sua tragetória terrena quantos tiveram a ventura de ama-lo por si mesmo ou seja pelo que era, ao invés de segui-lo em busca de pão e peixe, porque haviam enchido a barriga?

Penso que a doutrina pentecostal sobre o milagre destrói pela base tal mistério nivelando o Cristianismo as religiões puramente naturais que nossos avoengos conceberam tendo em vista a satisfação das necessidades pertencentes a esta existência transitória...

Quem mais esteve próximo do Salvador? Aqueles que devoraram os pães e os peixes que ele lhes oferecia ou aqueles que como Eva Lavalliere aprenderam a ama-lo por si mesmo em meio aos sofrimentos e cruzes diárias?

Por mais respeito que tenha por meus amigos pentecostais não posso compactuar com um sistema religioso que nos ensina a amar Deus pelo que ele pode fazer por nós...

'Não pergunte o que a América pode fazer por vôce, mas o que vôce pode fazer pela América', tal o conselho de um presidente Norte americano a seu povo! E no entanto Deus é infinitamente superior, e mais belo, e mais fascinante do que este universo...

Gostaria de perguntar a cada pentecostal se a encarnação e a paixão do Criador não bastam para alimentar a fé e elevar a alma?

Porque pedir a Deus trivilidades que o labor humano pode ou poderia conquistar se ele, nos ofertou generosamente os tabernaculos eternos, sua própria vida, enfim a deificação?

Não creio em milagres, isto é em sua ocorrência no tempo presente.

Compreendo que certas pessoas admitam a possibilidade do 'milagre' enquanto tal, ou seja, como algo raro e excepcional, como algo adstrito a periferia da religiosidade e como algo que orbita em torno de um culto centrado em Nosso Senhor Jesus Cristo e sua obra... não levo a mal que o milagre seja tempero...

Agora que ele absorva por completo a religiosidade Cristã a ponto do culto Cristão converter-se numa busca por ele...

Que ele deixe de ser algo excepcional para converter-se em algo comum, constante, trivial e até mesmo vulgar...

Que ele se converta em alimento da alma...

Afinal quantos paralíticos não haviam em Jerusalem quando o Salvador sanou aquele que se encontrava ao tanque das ovelhas?

No decorrer de sua experiência religiosa os primeiros protestantes perceberam algo muito importante.

Perceberam que até mesmo uma instituição divina, como a comunhão dos Santos, pode converter-se num sério entrave a evolução espiritual dos homens na medida em que tal comunhão deixa de ser Cristocentrica e em que o devoto perde o Cristo de vista para concentrar-se neste ou naquele santo personagem...

Foi justamente o que aconteceu com seus sucessores dos tempos modernos na medida em que o milagre tomou o lugar do Senhor Jesus Cristo e em que o Senhor Jesus Cristo passou a SER CULTUADO COMO MEIO PARA SE CONSEGUIR ISTO OU AQUILO... Há aqui uma inversão tão monstruosa e abominável quanto as devoções medievais, NA MEDIDA EM QUE O FIM E OBJETO DE NOSSA VIDA ESPIRITUAL É DE ALGUM MODO ENCARADO COMO UM MEIO...

Ora Cristo jamais poderá vir a ser um 'meio', um 'recurso' ou um 'instrumental' no seio da instituição Cristã, cedendo seu espaço a coisas, objetos ou situações... Todo aquele que apresenta o Verbo como mediador ou agenciador daquelas coisas que podemos conquistar com nossas forças naturais deve ser considerado como anunciador de um Novo Evangelho e como anatema...

Afinal, embora o apóstolo das nações estivesse cercado por 'curandeiros' parece que ele jamais se prevaleceu disto, elencando em diversas ocasiões as suas enfermidades, como o 'espinho da carne' e gloriando-se mais na cruz, nos açoites e na fraqueza de seu tabernáculo terreno do que noutra coisa. Não buscou pois milagres em primeiro lugar e não cogitou deles como os pagãos e neófitos, pois sendo homem espiritual cuidava suportar com pasciência as tribulações do tempo presente tendo em vista a aquisição de um diadema imperecivel e imortal no mundo futuro.

E a Timóteo, que era seu filho em espirito, na carta testamento que lhe dirigiu, não lhe disse para que fosse procurar um 'carismático' para que sanasse seu estomado fragilizado, mas que antes recorresse a uma terapeutica natural, no caso o vinho...

Portanto segundo os exemplos da santa escritura e o môdelo dos homens piedosos que nos legaram a fé pura e imaculada não devemos trilhar a senda dos milagres, que foi feita como brecha e caminho para alcançar os pagãos em seu materialismo, mas a senda segura e certa da cruz, pela qual em união com o divino crucificado se chega ao Reino da Luz.

Concluimos pois ao fim desta analise que a doutrina e a praxis pentecostais só poderia chegar onde chegou, ou seja, nesta teologia anti-cristã, materialista e idolatra chamada teologia da prosperidade.