terça-feira, 16 de março de 2010

Impugnação racional ao 'miraculosismo'

Por miraculosismo compreendemos a doutrina assente em diversas orgs religiosas modernas e contemporâneas segundo a qual o milagre possui uma finalidade existêncial ou imanente capaz de se esgotar em si mesma e não uma finalidade meramente funcional ou instrumental na medida em que esta a serviço da verdade e do bem.

Nós encaramos o milagre como instrumento ou recurso adstrito a certas circunstâncias e situações específicas.

Outros lho tem encarado como fim ou meta a ser obtido e como fim mesmo da instituição Cristã. Segundo este modo de encarar as coisas o Cristianismo consistiria antes de tudo e acima de tudo em falar em linguas, profetizar, curar os enfermos, enfim proporcionar beneficios materiais de modo imediato a cada fiel.

As escrituras no entanto nos convidam a honrar aquela razão que é a imagem mesma de Deus no mais evoluido dos seres inteligentes: o homem.

"Prestai a Deus um culto que seja racional." decreta um apóstolo.

"Estejai de protidão para dar a quem lho pedir as razões de vossa esperança." decreta outro.

Afinal aquele mesmo que se manifestou tanto mais nitidamente através da revelação sobrenatural consignada nos Santos e divinos Evangelhos é aquele mesmo que de algum modo já se havia manifestado de modo tanto menos claro através de suas obras ou seja da natureza criada, a ponto dos sábios cogitarem numa revelação natural ou numa pré revelação que serve de caminho a revelação transcendente...

Por isso não pode haver contradição alguma entre ambas, quero dizer: entre razão e revelação, entre natureza e sobrenatureza, entre ciência e fé... pois os dois veículos foram estabelecidos pelo mesmo Senhor e Salvador Nosso Jesus Cristo para o beneficio daqueles que nele creem.

Portanto tudo quanto contradiz manifestamente a razão não pode ser considerado como religião ou piedade mas como irreligião e impiedade.

A racionalidade é que fornece a base mais sólida e consistente a religiosidade sã e esclarecida.

A religiosidade cega e presumida para nada serve, exceto para escandalizar os bons com relação a verdade e para fornecer excusa aos libertinos com relação a virtude.

Tése 01 - Se a intervenção divina tem por fim a afirmação do bom , do verdadeiro e do belo ou seja uma finalidade sobrenatural e divina é perfeitamente compreenssivel que Deus excepcionalmente cancele a lei inferior ou natural.

Porém -

Se a intervenção divina se esgota em sim mesma, devemos admitir que Deus conserta as leis naturais que ele mesmo decretou e consequentemente que tais leis são imperfeitas em si mesmas.


Desenvolvimento:

A lei natural é perfeita enquanto lei natural ou seja no que diz respeito a seu gênero e fim.

É pois perfeita em si mesma enquanto lei natural.

Todavia com relação - ou seja em comparação - a lei sobrenatural a lei natural é imperfeita.

E porque foi concebida imperfeitamente?

Para que possa evoluir em conexão com a lei sobrenatural.

Portanto caso a afirmação da lei sobrenatural o exija a lei natural poderia vir a ser quebrada ou cancelada.

Na medida em que tal cancelamento estivesse disposto a um fim superior ou sobrenatural: a Messianidade de Jesus, a mensagem do Evangelho ou a autoridade da igreja.

Todavia nossos adversários apregoam que os milagres não dependem de circunstâncias de natureza externa aditas a divina revelação, mas as necessidades mesmas das pessoas beneficiadas.

Sabemos no entanto que as necessidades em tése são necessidades naturais e que sendo naturais poderiam ser naturalmente satisfeitas.

Logo ao safisfazer imediatamente necessidades naturais que a lei natural não foi capaz de satisfazer, Deus estaria mostrando que suas leis naturais são IMPERFEITAS EM SI MESMAS NA MEDIDA EM QUE SEU CANCELAMENTO É NECESSÁRIO PARA QUE SEUS FINS SEJAM ATINGIDOS.

A afirmação de necessidades naturais, que não podendo ser naturalmente satisfeitas obrigam o criador a quebrar suas próprias leis significa que não podendo ele estabelecer a perfeição através do padrão de sua sabedoria teve de apelar ao padrão da força...

Conclusão: sendo as lei natural prístina expressão da sabedoria divina é necessário que tal lei seja reverênciada pelo próprio poder divino e não derrogada por ele.

Portanto a afirmação de que a finalidade dos milagres é o solucionamento ou a resolução de situações terrenas que implicam no bem estar dos fiéis sem qualquer relação orgânica com a verdade divina ou a lei moral não se coaduna de modo algum com o testemunho da razão.


Cabe aqui uma reflexão.

E quanto aos problemas de ordem natural com relação aos quais não há qualquer tipo de solução natural como por exemplo o das doenças incuráveis com relação aos quais a medicina não oferece qualquer tipo de esperança ou de alívio?

Ao menos nestes casos não deveriamos esperar algum auxilio da parte de Deus?

Tal o assunto que pretendemos discutir nos dois próximos artigos dedicados a impugnação escrituristica do miraculosismo.