quarta-feira, 17 de março de 2010

O herege é o mais perigoso


"O ladrão que atenta concretamente contra a propriedade privada é menos perigoso que aquele que, não sendo ladrão, contesta, no nível intelectual, a legitimidade da propriedade privada. O primeiro apenas deseja resolver um problema prático particular. O segundo nega a validez da ordem social como um todo. De forma idêntica, num país comunista, um cidadão que se comporta concretamente de forma burguesa (talvez desejando enriquecer-se operando no mercado negro de dólares) é menos perigoso que o filósofo que, aderindo a uma ética de austeridade proletária, rejeita a legitimidade da ordem politicamente instituída. O primeiro, como no caso anterior, busca somente uma vantagem pessoal. O segundo, ao contrário, sem buscar vantagens pessoais, denuncia todo um sistema e uma filosofia de vida. A prostituta, igualmente, é menos perigosa que o eunuco que afirma uma filosofia de amor livre. O desvio intelectual, em todos estes casos, é subversivo de uma totalidade, enquanto o desvio comportamental deixa a totalidade como está, não questionando nunca sua legitimidade. No caso específico das instituições eclesiásticas, esse fato se torna evvidente quando notamos que é fácil reassimilar aqueles que cometeram deslizes morais, enquanto é praticamente impossível fazer o mesmo com hereges. O imoral não contesta uma visão de mundo. O herege, sim. O que comete deslize moral 'sabe' que a verdade está com a instituição. Esta é a razão porque comete o seu ato em segredo. Sua vergonha é o indício que, no nível cognitivo, ele reconhece o erro do seu comportamento. O herege, ao contrário, 'sabe' que ele está certo e a instituição errada. Por isso não se envergonha e prega suas idéias. O imoral só deseja permissão para realizar o seu ato. O herege deseja abolir um mundo e criar outro".

(Rubem Alves, in "Dogmatismo e Tolerância", Edições Loyola, p. 114)