sexta-feira, 16 de abril de 2010

Da impossibilidade do fundamentalismo


Um homem vai. Constrói um ídolo. Quem é maior. Ele, ou o ídolo construído?...

O homem é maior, ainda que não saiba, pois “deu vida” ao ídolo.

O homem profere uma palavra.

Quem é maior?...

O homem ou a palavra que ele proferiu?

O homem é maior, pois sem ele, a palavra não existiria.

Que cria a linguagem é o ser humano.

Pode haver ser humano sem linguagem.

Mas não linguagem sem o ser humano.

Depois, na linguagem, o ser humano vai se recriando.

O que sabemos de Deus, o sabemos através da linguagem, seja falada, seja escrita.

Se a linguagem é menor que o ser humano que a cria, logo, Deus está contido na linguagem que falamos, de modo que a linguagem sobre Deus é menor do que o ser humano que a cria.

Mas e se foi Deus que se revelou utilizando-se da linguagem humana...

Ora, se Ele fez isso, significa que Ele se diminuiu, esvaziou-se, se adaptou... O sopro se vez verbo...

Portanto, se Ele esvazia-se no ato de se comunicar, significa que o que temos dele em nossa linguagem não é a totalidade dele, mas somente algo dele.

Portanto, se o ser humano cria uma imagem, que é menor do que ele, mas ainda assim, ele, ser humano, se ajoelha diante de tal imagem, é acusado de idolatria.

Mas e quando o ser cria uma linguagem, e se ajoelha diante dela, dando-lhe ares de imutabilidade, não é idólatra?

Portanto, o que é que da essência de nossa linguagem é realmente divino, e o que é que, de nossa linguagem é somente uma caixa, um lócus, uma arca, para guardar tal essência, mas que pode um dia se reformar em algo maior e melhor?

Palavras são portadoras da essência divina, sinais, mas não são o divino em si...

Ou são?...