domingo, 4 de abril de 2010

Há uma instituição entre nós

Estes dias uma colega comentou comigo: "Depois que eu sai daquela igreja, ninguém mais falou comigo. É como se eu nunca tivesse existido. E olha que eu fiquei lá por dez anos..."

Este é um assunto bastante delicado. Terrivelmente delicado, em minha opinião. Isto porque tal fato pode ser decorrente de muitas variantes das quais é muito difícil analisar.

É comum, por exemplo, tais coisas acontecerem nas chamadas seitas. Você acostuma a viver para tal grupo. Gradativamente (mas não tão devagar) o grupo vai te afastando da sua convivência comum, e todaa as suas atividades se voltam para o grupo. Você deixa familiares e antigos amigos em pról da "nova família". Estar com a família de sangue é até chato, visto que você deveria estar mesmo no culto. Então, todo o seu grupo social acaba se restringindo ao pessoal da seita.

Em seitas isto é um processo conscientemente provocado pela liderança do grupo. Quando, por algum motivo, você passa a discordar do grupo, imediatamente se torna o "ramo sem fruto" que precisa ser cortado.

Aí, ai de você. Pois, além de você já ter se desfeito da sua base social anterior, você passa a ser sistematicamente rejeitado pelos seus "novos amigos".

Neste processo, vi pessoas que jamais conseguiram se recuperar e adentrar a um novo grupo religioso, tendo ficado bastante avesso à idéia de religião. É uma tristeza só...

Entretanto, há um outro fenômeno que precisamos nos atentar.

É quando tal coisa começa a acontencer mesmo em grupos que não são tão problemáticos assim, mas que acabam gerando processo semelhante.

Isto porque vivemos, a maior parte de nós, em uma sociedade urbana.

Naturalmente, nossas famílias já não são tão numerosas quanto antigamente (quem pode usufruir ainda de uma família cheia de irmãos, sobrinhos, primos, etc, e disso gostar, pode se sentir um abençoado).

Além do número reduzido de parentes, já temos a complicação da própria distância e falta de tempo, pois estamos geralmente sistematicamente envolvidos em alguma atividade profissional, bem como educacional.

Quando nos juntamos a determinados grupos religiosos, geralmente estes nos incentivam a estar com eles pelo menos aos finais de semana, aos domingos.

Mas é claro que, de modo geral, não são somente aquele domingo a tarde ou pela manhã. Geralmente outras atividades são agregadas.

De modo que, meio que naturalmente, acabamos por nos afastar de nossa antiga base social, bem como não participamos mais com tanto afinco das atividades familiares.

E as igrejas, de modo geral, nem sempre são somente uma família, mas também possuem uma certa cadeia de produção, uma certa meta e divisão do trabalho.

E a máquina vai funcionando, independente do que ocorra com alguns membros individuais.

A pregação precisa ser feita. A aula precisa ser preparada. O louvor precisa ensaiar. A ação social precisa acontecer. E por aí vai...

Se a pessoa, por algum motivo, não for forte suficiente para permanecer, corre sim o risco de ser deixada para trás...

Acho que é um pouco isso que aconteceu com minha colega...

Além do que, há outro aspecto, talvez meio sinistro, mas talvez um tanto quanto inevitável em nosso sistema produtivo urbano, por assim dizer.

Lembro-me de quando era criança na periferia de São Paulo.

Quando estava entediado, saia de casa e sentava na calçada, em frente a um bote (bar, boteco).

Aos poucos iam surgindo outros amigos.

"Vamos jogar bola? Vamos jogar taco? Vamos dar um rolê?"

Enfim, sempre tinha alguma coisa pra fazer.

Precisou de sal?

Toca na vizinha e pede um pouco.

Quebrou sua máquina de lavar?

"Vizinha, posso utilizar a sua?"

Isso quando a gente não fazia uma fogueira na rua de terra, assava uma batata, tomava um vinho quente...

Lembro-me que as vezes eu saia com um cobertor enrolado, uma bombeta (boné), um cachecol.

Enfim, todo mundo se conhecia...

Hoje, posso morar anos em um apartamento, e não falar nem com meu vizinho!

Então eu passo a perceber que o homem moderno está praticamente sozinho no mundo, restando-lhe, talvez (talvez mesmo) a sua pequena família, e olha lá.

Aí, como que ele passa a se relacionar com o outro no mundo?

Geralmente, através de uma instituição, um motivo.

A primeira instituição que geralmente isso ocorre, é a instituição trabalho.

Ele se relaciona com os colegas de trabalho.

Findo o trabalho, fim do relacionamento.

As vezes, ele tem habilidade para continuar uma ou outra amizade mesmo quando o vínculo empregatício se desfaz.

Mas com o tempo, há o inevitável afastamento.

Também a instituição escola pode acabar intermediando os relacionamentos.

Mas igual fenômeno ocorre. Mal vejos meus antigos amigos da faculdade, seja da teologia, seja do direito.

Também a instituição igreja intermedia os relacionamentos...

De modo que, o homem moderno não parece mais desenvolver relacionamentos bilaterais, por afinidade, "tribais", familiares, pura e simplesmente.

Há, quase sempre uma instituição entre nós!

E este processo, me parece, tem sido um tanto quanto inevitável.

Agora, talvez, a grande tragédia, conforme o caso exposto pela minha colega é o fato que, o que parece estar ocorrendo é um aumento da nossa incapacidade em ter verdadeiras amizades, verdadeiros relacionamentos profundos, de modo que, uma vez findo o seu envolvimento com a instituição, qualquer que seja, decretado está o seu fim para aquele determinado grupo.

Daí, talvez devamos reaprender todo o processo de relacionamentos, de fazer amizades, caso contrário, seremos cada vez mais uma sociedade de solitários em cidades super-lotadas. E as ditas instituições não podem ser um fim em si mesmas, mas tão somente meios, mecanismos que possibilitem os encontros, já que, por algum motivo, eles já não ocorrem com tanta espontaneidade assim.