sábado, 17 de abril de 2010

Sermão do Monte


Eu simplesmente amo o sermão da montanha, ou sermão do monte. Penso sinceramente que se todo mundo vivesse o que está lá escrito, o mundo seria um lugar bem melhor.

Entretanto, tenho um problema: não consigo viver integralmente o bendito sermão.

Já devo ter lido ele uma cem vezes, pelo menos, ou mais.

Mas não tem jeito. Estou sempre tropeçando em alguma coisa.

Ora, eu fico irado. Ora, julgo meu irmão (até aqui, o crente acha bonito este tipo de confissão; passsa a impressão de humildade...). Ora, olho "prumas" minas por aí daquele jeito (aqui, "os crente" já entortam os olhos...). Ora, estou ansioso pelas coisas da vida. Ora, não vivo, nem cumpro, nem ensino a lei. Ora, não dou a face ao que me fere (pelo contrário, firo a face do outro). Ora, não quero largar a capa. Ora, quero ajuntar tesouros.

Mas ai, percebo que na oração que o bendito Jesus ensinou os discípulo a orar, tem um pedido de perdão das dívidas (ou das ofensas).

E, imaginando que tal oração é para ser feita, no mínimo, de vez em quando (pelo menos uma vez por semana, ou, se formos mais diligentes, uma vez por dia, pelo menos na intenção do que ali está expresso), percebo que Jesus sempre nos convida a pedir perdão pelos nossos pecados.

Portanto, nesta perspectiva, me percebo pecador e necessitado da misericórdia divina. E uma vez necessitado da misericórdia divina, e alvo dela, me percebo também despenseiro de tal misericórdia; ou seja, sou chamado a exercer misericórdia no mundo.

E se sou chamado a exercer misericórdia no mundo, pois dela fui alvo, me percebo sim dependente da imensa graça de Deus, visto de nada ser merecedor.

E se me vejo necessitado desta graça, não tem como ser moralista, pois, diante de Deus, todos perdemos nossa moral. Na cruz, todos perdemos nossa moral, nossos direitos, nossa ética, nosso tudo..

Daí, aquela postura de machão, que bate no púlpito, na mesa, e cobra dos outros um comportamento que não se tem, ou que se tem em alguns aspectos, mas que se é tão deficiente em outros, realmente se torna um tanto quanto inadequada (somos bons para cobrar dos outros aquilo que não nos afeta, mas aquilo que somos deficientes, para nós, conscientes ou não, é como se não existisse...

Daí, por ser alguém amplamente necessitado da compreensão divina, não vejo outra alternativa em também ser compreensivo com meu irmão, pois, se não sou falho em determinada área, o sou em outra.

Não vou parar de ler o sermão do monte, nem tentar deixar de vivê-lo, ainda que sinta muita dificuldade de cumpri-lo em todos os seus termos. Pois uma coisa é ouvir o ancião, que estudou pacientemente sua vida toda dizer que, por mais que tentou, tanta coisa ainda há a se aprender; outra, é o moleque em início de faculdade, preguiçoso, que diz não adiantar nada estudar, pois, ainda que o faça, nunca conseguirá tudo aprender. Um dos dois se tornou um ser humano melhor. É o que espero ser um dia. Um ser humano um pouco melhor amanhã do que sou hoje.


Por Carlos Seino.