sexta-feira, 28 de maio de 2010

Desimpedidos para Deus


"Com efeito, que os cuidados da vida presente podem também, algumas vezes, atingir-nos a nós que não nos imiscuimos nos actos deste mundo, prova-se pela evidência, segundo a regra dos anciãos, os quais declaram que tudo o que excede a necessidade da subsistência quotidiana e a inevitável exigência do corpo é levado à conta dos cuidados e preocupações deste mundo: como, por exemplo, se, quando o trabalho no valor de um soldo é suficiente para obviar à necessidade do nosso corpo, nós queremos torturar-nos a nós mesmos com um trabalho e fadiga mais esforçados para ganhar dois ou três; se, quando duas túnicas bastam para nos cobrir, isto é, uma para noite, outra para o dia nós procuramos tornar-nos donos de três ou quatro; se, quando uma ou duas celas bastam para habitarmos, nós, seduzidos pela ambição e grandeza do mundo, construímos quatro ou cinco, e estas bem mobiladas e mais espaçosas que o necessário, deixando transparecer, naquilo que nos é possível, a atracção da cobiça deste mundo".

(João Cassiano, em "Da oração". Editora Vozes, p. 22)

Eis aí uma doutrina, esquecida por muitos, jamais conhecida pela maioria. Que tantos outros entendem ser coisas de monge. Outros, de gente maluca, enfim...

É a sabedoria segundo a qual não devemos deixar que absolutamente nada venha a macular, a impedir, a obstaculizar a nossa relação com Deus. No contexto do referido texto, fala-se em ter a alma, ou leve como uma pena, para que possa viver sob a influência do Espírito, ou pesada como uma pena molhada ("molhada" pela cobiça e pelas preocupaçõe deste mundo), que não se levanta do chão.

É mui cristã a doutrina segundo a qual o ser humano, neste mundo, deve dele retirar somente o que for necessário para a vida, não fazendo acumular coisas e mais coisas, bens e mais bens, até se ver sozinho na face do universo!

Disse certa vez um saudoso professor de geografia que, o que faz movimentar o sistema capitalista é a ambição humana. Tire dos olhos humanos a sede de riqueza e de poder, e dar-se-à um golpe no sistema. Os olhos do cristão não brilham por este mundo. Brilham sim, pela glória de Deus; pela comunhão com o Cristo.

Ouso dizer que, se preciso for, o cristão, de acordo com seu próprio juizo e chamado, poderá sim recusar uma promoção, ou aceitar um trabalho mais simples, justamente para não ter uma alma pesada que lhe impeça a oração, pois o cristão não deveria viver de competição, mas sim da comunhão e serviço. Assim como o Mestre se fez o menor de todos, assim também o cristão, pelo seu trabalho silencioso no mundo, o transforma.

Se começarmos a viver como qualquer habitante deste mundo, competindo e tirando vantagens, explorando o próximo, nos colocando sempre em primeiro lugar, no pior sentido do termo (pois há aspectos que isso se faz necessário), para que sermos cristãos então? Para que serviremos.

A profunda riqueza do fiel é Deus, a comunhão com o Pai e o Filho, pelo Espírito, de onde tira as fontes de sua própria vida para testemunhar neste mundo.