terça-feira, 29 de junho de 2010

Exército de Devedores

"Aquele que toma emprestado é servo de quem empresta..." (Provérbio de Salomão)



Houve tempo que se você quisesse comprar algum bem de consumo um pouco mais durável, era ensinado e estimulado a juntar dinheiro pacientemente para que, tendo o montante, pudesse então realizar o seu desejo.

Isto demandava alguma educação por parte de seus pais e educadores e fazia com que aprendéssemos a disciplinar os nossos desejos. Era preciso saber dizer não; pelo menos por algum tempo.

Mas depois foram popularizados os títulos de crédito, realizando-se a possibilidade de anteciparmos os nossos sonhos, fazendo com que desfrutássemos agora do que queríamos e pagássemos depois...

O problema é que isso ocasionou um grande contingente de indesejáveis devedores que davam muita dor de cabeça para o sistema. Todo empreendimento deveria, de certa forma, já contar com uma certa porcentagem de inadimplência. Advogados, empresas de cobrança, etc... Uma dor de cabeça...

Ocorre que os mecanismos de segurança, em certo sentido, aumentaram, bem como as facilidades em adquirir com o advento do cartão de crédito. Uma maravilha para quem vendia, que teria a garantia do pagamento efetuado pela operadora que, por intermédio do dinheiro pago pelos seus clientes, tinha condições de correr tamanho risco e ainda faturar. Atreladas que estão ao serviço bancário, isto lhes dá quase ares de onipresença na vida financeira de seus clientes.

Mas o curioso de tudo isso é que, se antes o devedor era um sujeito um pouco indesejado, hoje, ao que tudo indica, ele é parece até ser planejado e querido.

Não há cliente mais indesejado por uma operadora de crédito do que aquele que nunca atrasa um pagamento; que nunca pega dinheiro emprestado; que não paga juros atrasado.

Raciocine aqui comigo, ó. Digamos que eu tenha um determinado produto e o lanço em um mercado com milhares de consumidores. Digamos; uma cidade como São Paulo. Com quem eu, operadora ou financiadora, vou querer fazer negócio? Com quem me pagará completamente em dia ou com quem sei que, apesar de atrasar alguns pagamentos, com o tempo irá satisfazer a sua dívida com juros e correção? Há, em minha opinião, um acurado estudo no sentido de se determinar, no montante maior de consumidores, aqueles que têm maior possibilidade de atrasar, mas pagar, com juros e correção.

Acredita nisso, mano? Chegamos ao tempo em que você, que sempre pagou suas dívidas em dia, terá mais dificuldade de ter crédito do que um outro que sempre atrasou seus pagamentos!!!!

Isto porque é destes devedores que as operadoras financeiras retirarão o seu maior lucro; não dos que pagam em dia.

Entretanto, tal devedor não pode ter sua morte civil decretada; ele deve, mas é estimulado a sempre estar pagando em suaves e inacabadas prestações... com os devidos juros, é claro!!!

E é este perfil de pessoa que parece ter aumentado nas estatísicas, e que dão lucros para estas empresas.

Associa-se a tal empreendimento um agressivo marketing que não lhe permite por muito tempo o contentamento com o que se tem, nem a paciência para a busca de um desejo, incentivando-lhe para que, de algum modo, você consiga crédito para realizar seus sonhos de maneira imediata. Afinal a vida é curta (mas com o aumento da expectativa de vida, vale a pena correr o risco de emprestar dinheiro a longo prazo...)

E assim vamos fazendo a roda do sistema movimentar...

Conforme já disse, nada entendo de economia...

Só sei que cada indivíduo submetido a uma situação como a descrita, se levarmos o provérbio citado no início deste texto, está diminuindo sua esfera de liberdade ao comprometer-se com dívidas cada vez maiores e difíceis de pagar.

Daí, a necessidade da religião voltar a ensinar, entre outras lições, a "piedade com contentamento". Nada do que eu possa adquirir pode me tornar mais pleno, mais completo, ou mais feliz se for dar uma dor de cabeça danada para comprar.

O domínio próprio não reside somente na questão da sexualidade, tão pregada entre nós; mas é uma característica que deve permear toda vida. Talvez uma atitude mais regrada não vá resolver o problema econômico de nenhum país; entretanto, vai evitar um pouco de sua dor de cabeça. Sei que não passa de uma solução paliativa em um sistema tão injusto e complicado, mas para que piorar algo que já é notadamente ruim, não é mesmo?...