sexta-feira, 25 de junho de 2010

O quanto é lícito juntar



Por isso, ressalto e repito o que tenho entendido deste assunto até aqui, ainda que corra o risco de ser prolixo: o problema não é juntar dinheiro para comprar um carro, sair do aluguel, pagar um curso, investir em uma aplicação, etc; o problema é se vivermos unicamente para isto...

Estes dias, em uma de minhas aulas por aí, conversávamos sobre algumas passagens polêmicas do Novo Testamento, notadamente o Sermão da Montanha, ou sermão do monte.

Conversávamos sobre qual seria a ética econômica ideal para os discípulos de Cristo. Ou seja, como deve um discípulo lidar com a questão do dinheiro.

Aí, surgem dúvidas das mais diversas, e um professor que se preze deve considerá-las todas com seriedade. Entre elas é, diante das desconcertantes palavras de Jesus de não juntarmos riquezas nesta terra, como deveríamos nos comportar? Uma mãe, por exemplo, perguntou-me se era então lícito juntar dinheiro para a futura faculdade da filha. O outro perguntou se era lícito ter caderneta de poupança ou outra aplicação qualquer. Na sala tinha também os socialistas mais radicais que consideravam com todas as letras o dinheiro um grande demônio que deveria ser combatido, obviamente, pelo menos para eles, com um tipo de cartilha "religiosa marxista" (se é que tal coisa é possível) dizendo com todas as letras que somente assim se resolveriam os problemas sociais. Outro, médico de respeito, defemdia uma cartilha mais neoliberal, em que, o processo de liberdade de mercado é o único capaz de gerar riqueza, ainda que haja diferenças sociais.

Enfim, uma briga danada na sala de aula, destas que a maioria dos professores adora, pois assim ninguém dorme...

Bom.

Minha intenção de modo algum é tentar propor um sistema econômico que mais se pareça com o Reino. Não sou economista; não tenho nenhuma condição de fazer isto. Por isso, sempre penso em nível de escolhas individuais, coisas que nós podemos fazer ou não no dia a dia. Pensando mais em responder ao homem comum, ou ao conceito de homem médio, conceito este retirado das disciplinas jurídicas.

Fazendo uma digressão, sempre quando converso com os alunos sobre este tema, ressalto o exemplo de John Wesley. Houve uma certa vez em que ele pregou um sermão sobre a passagem de Mateus 6.19. Ele, Wesley, dizia que era como se este versículo, para o seu público inglês, era como se estivesse em um grego ininteligível ou em alguma outra lingua não traduzida. Isto porque, segundo ele, os educados ingleses solenemente ignoravam o mandamento de não ajuntar dinheiro. Que desde crianças, os jovens cristãos eram ensinados a acumular e acumular. Wesley dizia ainda que os índios norte-americanos eram muito mais cristãos que os ingleses neste ponto, visto que se proviam somente de poucas roupas, e da provisão diária de cada dia, não acumulando para o futuro... O próprio Wesley, se lermos sua biografia, não obstante ter movimentado bastante dinheiro por causa do movimento metodista, sempre viveu de maneira simples.

Wesleys a parte, voltemos a nós mesmos.

Acho que poucos de nós seremos como Wesleys. Também penso que poucos de nós iremos seguir a risca o mandamento de não juntar nada, dinheiro nenhum. Também não tenho condições de dizer o quanto é lícito juntar (geralmente, nós queremos seguir o mandamento até a fronteira entre a obediência e a transgresssão...). Em contrapartida, concordo muito com os Wesleys, os Fransciscos, os Padilhas, que advogam que todo o cristão deve viver uma vida simples. Mas quase escuto meus alunos perguntarem o que seria uma vida simples...

Por isso, aquilo que estou preparado para dizer a partir de minha própria vida, e do que entendo ser o contexto geral do imperativo bíblico para um tipo de ética pessoal acerca deste assunto (ou seja, o que eu diria para alguém que quer comprar uma casa, sair do aluguel, comprar um carro melhor, etc) é que não há nada em errado em economizar para algumas destas finalidades. Penso que não é sequer ilício juntar em algum tipo de investimento preparando-se para o futuro.

O problema é que o discípulo não deve viver para juntar somente para comprar a casa própria. Nem mesmo, juntar somente para comprar bens de consumo. Tampouco deve viver somente para juntar dinheiro. E isto, estou falando de um grupo de pessoas que têm condições de juntar alguma coisa, pois a maioria não tem. De qualquer modo, para os que tem, digo que questões de ordem econômica e financeira não devem ocupar completamente suas próprias mentes.

Quem tem condições deve, caso queira ser um discípulo melhor, usar parte de suas rendas para ajudar pessoalmente àqueles que têm necessidade. É um imperativo do evangelho ajuntar os necessitados. Ainda que o sonho da casa própria, do carro novo venha a esperar um pouco para se realizar, o cristão não pode esperar realizar todos os seus objetivos de consumo para somente depois começar a ajudar aos pobres.

O cristão que não é envolvido com algum tipo de obra social, no meu sentir, não obedece corretamente ao Cristo. Pode até estar obedecendo em outras áreas, mas não completamente. Mesmo os que não podem ajudar financeiramente, podem procurar ajudar com sua mão de obra, com sua voluntariedade.

No meio evangélico, temo que esta questão seja um pouco dramática. Isto porque, as igrejas de modo geral ensinam a obrigatoriedade do dízimo. E algumas, insistentemente falam que, além dos dízimo, cujo pagamento é somente uma obrigação, pois se trata de devolver a Deus o que não lhes pertence, ensinam que a contribuição para a igreja somente é virtuosa quando começam as ofertas.

Se formos otimistas, talvez 15% dos recursos dos que obedecem tais ensinos vão para a instituição, ficando muito difícil sobrar alguma coisa no bolso destes para ajudar os pobres.

Quando a instituição arrecadadora realiza esta tarefa, menos mal. Acho que a igreja que realiza tal redistribuição (após pagar suas contas, é claro) até realiza um preceito apostólico descrito em Atos. Entretanto, quando tais igrejas não realizam nenhuma obra social, além delas desobedecerem o preceito bíblico, impede que os seus fiéis também o realizem, de modo que fica repetido o círculo vicioso. E o meio protestante sempre corre o risco de sucumbir diante da tentação de beneficiar somente a instituição em si. Daí, a necessidade de voltarmos sempre para Lausanne, para a missão integral...

Os cristãos precisam considerar com calma então. Sou de uma tradição que ensina o pagamento do dízimo à igreja. Por isso, penso que todas estas igrejas devem, de algum modo, procurar realizar alguma obra de socorro aos mais necessitados. No nível do orçamento individual, incentivo que todos nós separemos um pouco de nosso tempo e de nossos recursos para ajudar a aliviar um pouco a dor do mundo. Em um nível profético (e muito mais complexo para tratarmos aqui), a igreja deve lutar juntamente com a sociedade para construírmos estruturas mais justas (ou menos injustas), mas talvez não deva concentrar-se excessivamente nisso também. Por isso, ressalto e repito o que tenho entendido deste assunto até aqui, ainda que corra o risco de ser prolixo: o problema não é juntar dinheiro para comprar um carro, sair do aluguel, pagar um curso, investir em uma aplicação, etc; o problema é se vivermos unicamente para isto...