sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A escolha dos amigos, segundo Sêneca


"Deve-se ter uma cuidadosa escolha dos homens, para sabermos quais são dignos de que lhe consagremos uma parte de nossa vida ou se é proveitoso que com eles percamos tempo, pois alguns nos imputam como dever aquilo que voluntariamente lhes concedemos.

Atenodoro diza que nem sequer iria jantar com alguém que pensasse que não lhe devia nada por isso. Penso que compreendes que muito menos iria a casa daqueles que igualam os jantares aos deveres dos amigos, os que contam os pratos pelas dádivas, como se a falta de moderação fosse uma honra aos outros.

Aliás, tire-lhes as testemunhas e os espectadores que não se deleitaram com um banquete secreto.

nada, pois, é mais proveitoso a uma alma do que uma amizade fiel e doce. Quão bom é encontrar corações preparados para guardar todo o segredo. Tu temes menos a consciência deles que a tua própria. A conversa deles alivia a solidão. As sentenças deles se tornam conselhos. O seu gracejo dissipa a tristeza, a própria presença deleita!

Tanto quanto for possível, devemos escolhê-los dentre os isentos de paixões desregradas, porque os vícios entram sutilmente e passam para quem está próximo e prejudicam pelo contato.

Assim como em uma epidemia, deve-se cuidar de não nos aproximarmos dos corpos já infectados e ardendo na doença, porque atraímos os perigos com a própria respiração.

Assim, na escolha dos amigos, devemos ter trabalho de escolher os menos maculados. O início da doença resulta da mistura dos doentes com os sãos.

Nem por isso te aconselharei que não sigas ou não atraias ninguém exceto o sábio. Onde, pois, encontrar este que há tantos séculos se busca? O melhor é o menos mau.

Apenas teria a faculdade da eleição mais feliz se encontrasses bons amigos entre Platões e Xenofontes e em toda a ala de discípulos de Sócrates, ou se tivesses poder de voltar à época de Catão, que produziu muitos homens dignos da era dele. Não obstante, gerou também os piores criminosos de todos os tempos. Tanto uns quanto outros foram necessários para que se pudesse valorizar a figura de Catão. Os bons para aprovarem seus méritos, e os maus para testarem seu valor. Agora, porém, com tanta falta dos homens bons, a eleição se faz menos cansativa e exigente.

Deve-se evitar, no entanto, os tristes e aqueles que deploram todas as coisas, para os quais tudo é motivo de briga, mesmo que eles demonstrem fidelidade e benevolência, pois é inimigo da tranquilidade o companheiro inquieto que geme por tudo".




Sêneca, em "Da tranquilidade da Alma"