segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Sem presença real

"Sem presença real, não há evangelho" (Martinho Lutero).



Diz respeito à presença real de Cristo no pão e no vinho consagrados na Santa Ceia. Para Lutero, o pão era verdadeiramente o corpo e o vinho, verdadeiro sangue de Cristo. Ele dizia a seus oponentes: "Jesus disse: isto é o meu corpo", e não, "isto representa o meu corpo". De fato, digo-o com respeito, amor e carinho, que, quando meus irmãos evangélicos oram dizendo "obrigado, Senhor, por estes elementos, que 'representam' seu corpo e seu sangue", fico a me perguntar, de onde tiraram esta oração. Digo-os com carinho e amor: certamente, não foi de alguma oração dos cristãos primitivos. Alan Richarson (ou foi Gustaf Aulen, ou os dois, não me lembro, mas com certeza, foi um deles) disse que, é tão unânime esta doutrina da presença real no cristianismo primitivo, que seria difícil acreditar que o Espírito Santo preserva a igreja de erro se justamente nisto a igreja estivesse errada.


As explicações teológicas posteriores no Ocidente geraram muita confusão e divisão. A postura oriental, que aceita o mistério, sem entrar em discussões escoláticas sobre o temo, no meu sentir, seria a posição mais coerente. Muitas igrejas pentecostais, mesmo sem consciência histórica e teológica sobre o instituto, estão adotando este ponto de vista. Esta é uma doutrina que, a meu ver, deve ser resgatada pelos modernos evangélicos, pois "o pão que partimos é a comunhão do corpo de Cristo, e o cálice da benção que abençoamos, é a comunhão do sangue de Cristo" (I Corintios 10.16). Comunhão é "koinonia", e tal palavra denota uma relação real, não somente psicológica ou imaginária, senão, comunhão não seria. Se a presença real não for uma verdade, não há comunhão verdadeira. Calvino recuperou a Epiclese no Ocidente, e interpretou o "sunsum corda" (elevemos os nossos corações) como um ato do Espírito Santo a nos elevar até o Cristo que está nos céus (neste sentido, a comunhão, para ele, se tornava real, mas desconsiderava a real presença de Cristo nos sacramentos), e Zwínglio, penso, foi talvez o maior protestante demitizador no Ocidente, pois reduziu o "anamnesis" a mera lembrança teológica, no que acabou sendo seguido pelos batistas e maior parte dos pentecostais. Tudo isso, talvez, como reação ao ultra-realismo de Tomás de Aquino, que procurou explicar o mistério em bases aristotélicas (transubstanciação). Minha postura diverge da de Trento, pois entendo que, anamnesis (mesmo em seu sentido judaico) consistia em "tornar presente algo que no tempo já passou". Neste sentido, não é incorreto chamar a celebração eucarística de sacrificio, não de novo sacrifício (terminologia esta que causa horror aos evangélicos) mas sim de "presentificação do único sacrifício". Um crente, diante da celebração eucarística, deve se comportar como se estivesse diante do Cordeiro crucificado, que, só pode estar presente, porque também se trata do Cordeiro que ressuscitou, daí, a presença real. Sacrifício este que, apesar da concretude histórica, não está restrito ao tempo, pois trata-se "do Cordeiro de Deus sacrificado antes dos tempos eternos".


"Bendito seja, meu Senhor. Dá-me deste pão e deste vinho! Permita-me ser co-participante do teu único sacrifício, Senhor!"