sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Sobre ajuntar riquezas



"Não ajunteis para vós outros tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões penetram e roubam". Se o fazes, é qeu teus olhos são maus, não se fixando unicamente em Deus.

Em relação à maior parte dos mandamentos de Deus, ligados ao coração e à vida, os pagãos da África ou da América se elevam muito mais alto do que os chamados cristãos. Os cristãos os observam (com poucas exceções), mais ou menos como os pagãos. Por exemplo: a generalidade dos naturais da Inglaterra, comumente chamados cristãos são de sobriedade e temperança iguais aos vulgares pagãos das cercanias do cabo da Boa Esperança. Os cristãos holandeses ou franceses são tão humildes e castos como os índicos Choctaw ou Cherokee. Quando se compara o grosso das nações da Europa com o grosso das nações americanas, não é fácil dizer para que lado pende a superioridade. Afinal, os americanos levam escassa vantagem.

Isto não se pode afirmar, todavia, ao mandamento em estudo (o de não ajuntar riquezas). Ai cabe folgadamente aos pagãos a preeminência. O pagão deseja e procura apenas alimento comum com que mata a sua fome e o trapo vulgar com que se cobre - e busca estas coisas somente para as necessidades que se apresenta a cada dia. Nada reserva, nada armazena, a não ser os cereais, que só se colhem numa estação do ano, até sua florescência nova à volta da estação. Assim, os pagãos constante e pontualmente observam o mandamento em debate, embora, não o conheçam. Não ajuntam tesouros na terra, nem fazem provisão de púrpura ou linho fino, de ouro ou prata, que a traça e a ferrugem os consomem e os ladrões penetram e roubam.

Que fazem, entretanto, os cristãos, na observância daquilo que professam receber como um mandamento do altíssimo Deus? Nada, em absoluto; nada em medida alguma; o mesmo que fariam se tal mandamento jamais tivesse sido dado aos homens. Mesmo os bons cristãos considerados por tais outros que são tão bons quanto os primeiros, nenhum apreço dão a este mandamento. Parece até que o mandamento continua oculto em seu grego original, porque nenhuma notícia os homens têm a seu respeito. Em que cidade encontraste um homem entre quinhentos que tenha escrúpulos de amontoar tanto tesouro quanto possa - e amontoar seus bens a medida de sua capacidade? Na verdade alguns existem que quereriam fazer isto sem injustiça: muitos há que não seriam capazes de furtar ou de roubar; alguns não defraudariam o próximo, nem se aproveitariam de sua ignorância ou necessidade. Mas esta é outra questão. Há escrúpulo quanto a maneira de alcançar certos resultados, mas não quanto a coisa em si. Eles não têm escrúpulo de 'ajuntar tesouros na terra', mas de ajuntar pelos meios desonestos.

Mesmo estes homens honestos não obedecem melhor ao mandamento do que o fazem um salteador ou um ladrão. Nunca desejaram obedecer ao mandamento. O mandamento jamais lhes passou pela idéia. Foram educados por seus pais, mestres e amigos cristãos, sem qualquer outro ensino alusivo a ele - a não ser no sentido de o quebrar tão logo e tanto quanto possa, e continuar quebrando-o até o fim da existência.


(Wesley, John. Sermões de Wesley. Sobre o Sermão do Monte. Discurso VIII. Imprensa Metodista. p. 48-49)



Já tive a oportunidade de ministrar duas ou três aulas acerca do texto do sermão da montanha em que Cristo determina que seus discípulos não ajuntem tesouros na terra.

Sempre pergunto para a sala, geralmente composta de maioria esmagadora evangélica se a palavra quanto a não ajuntar riqueza seria um mandamento de Cristo, um conselho, um ensinamento, ou o que acharem.

A esmagadora maioira dos presentes não aceita que seja um mandamento de Cristo.

Fazem o maior malabarismo para fugir desta noção.

A primeira coisa que dizem geralmente é que uma pessoa pode ter um montão de dinheiro e não ter o coração nele.

E, eu sempre pergunto: Se alguém tivesse um montão de revistas pornográficas vocês acreditariam que ele não tem o coração na pornografia?

Se alguém tivesse um montão de chocolate, a dar com pau, você acreditaria se ele dissesse que não tem o coração no doce?

E geralmente ouço um sonoro não.

Então, porque acreditam que uma pessoa pode ter um montão de dinheiro e não ter o coração nele?

E, geralmente, em um primeiro momento, o silêncio se faz.

Eu vejo alguns motivos porque não aceitamos as palavras de Cristo como mandamento.

Primeiro, porque realmente não confiamos que o Senhor nos sustentará mesmo.

Entendemos, intimidados pela vida, que se não ajuntarmos mesmo, o mais que pudermos, estaremos perdidos no futuro.

E, estendemos nossas raízes neste mundo, porque não acreditamos muito no vindouro.

Outro motivo, é porque gostamos mesmo de dinheiro, e ponto. Queremos ter as coisas que ele pode comprar. Não estamos satisfeitos com o pão de cada dia. Temos os olhos maus, e portanto, todo o nosso corpo é tenebroso.

Outro, é porque as palavras de Cristo não são determinantes para nós. Não estamos nem ai para os mandamentos (ou conselhos, ou ensinamentos, como quiserem). Somos bons para cantar para Jesus, dizer que a pessoa tem que aceitar Jesus, que equivale a dizer que ela tem que aceitar determinada doutrina sobre Cristo, realizar determinado ritual evangélico, e abandonar outras crenças enfim, assumindo determinado comportamento.

Mas viver como Cristo mesmo, isso é para os fanáticos, radicais, entusiastas, enfim.

Mesmo sabendo que, se todos, de seus ganhos, tirassem o mínimo para si, e ajudassem os pobres, o mundo seria um lugar melhor, ainda assim, insistimos em juntar cada vez mais.

Se temos dificuldade em fazer voto de pobreza, poderíamos tentar pelo menos um voto de simplicidade...

Que o Senhor perdoe o nosso fracasso em sermos melhores cristãos....