terça-feira, 12 de outubro de 2010

Pensando a questão das eleições



Bom.

Esta eleição está mais complicada do que realmente é, penso.

Precisamos, ainda que por um breve momento, pensar a questão fática, se possível, sem paixões, sem polarizações, para que possamos fazer o que julgarmos ser a melhor escolha.

Dizer que é tudo farinha do mesmo saco, não vai adiantar.

Será que em meio a tanta corrupção que assistimos neste últimos oito anos de governo Lula (que, diga-se de passagem, não foi exclusivo nesta questão), podemos ainda vislumbrar um pano de fundo que possibilite-nos distinguir entre as duas formas propostas diante de nós?

Penso que sim.

Lembro-me, ao final do governo FHC, que havia planos por parte do tucanato em continuar flexibilizando ainda mais as leis trabalhistas.

Isso significa dizer diminuição da proteção ao trabalhador, e entregá-lo ainda mais às leis do mercado.

Vejam.

Isso não é uma crítica. É uma observação objetiva.

Muitos talvez achem isso melhor para o Brasil.

Flexibilizando-se as leis trabalhistas, por exemplo, aumento o poder do capital, que poderá investir mais, e consequentemente, melhorar a economia e a própria condição do trabalhador.

Há quem pense assim.

E quem pensa assim, não nega que o fosso social tende a aumentar.

Mas não tem problema, afinal, ainda que os ricos fiquem mais ricos, a economia cresce de um modo tal que mesmo os mais pobres são mais beneficiados.

O PSDB alardeou isso na questão da telefonia, dos telefones celulares, dos frangos, etc.

Hà maior diferença social entre ricos e pobres, segundo eles, mas os pobres vivem melhor...

E assim sucessivamente, na questão das privatizações.

Entendem que o capital privado, seja de onde for, irá administrar melhor do que o Estado, ainda que a riqueza daí gerada não venha necessariamente para os brasileiros...

Entretanto, é sempre bom lembrar que este discurso flexibilizador é pura balela quando são eles, os capitalistas que passam por dificuldades.

Aí, se socorrem do Estado, com dinheiro pago por cada brasileiro neste país.

Dai, o discurso do Estado não intervencionista ser, em minha opinião, uma grande balela...

E aí, chegamos ao pano de fundo que eu queria chegar.

Em que pese as vergonhosas falcatruas que assistimos em meio ao governo petista, ainda assim, pudemos perceber que as medidas flexibilizadoras tiveram um freio. Que houve fortalecimento do trabalho frente ao capital. Que cessaram as privatizações.

E esta é a discussão verdadeira, no meu sentir, não a cortina de fumaça religiosa que tem se instaurados na discussão eleitoral.

Queremos alguém que governe mais para o capital, ou mais para o trabalho?

Já não é suficiente o fosso de desigualdade que ainda existe em nosso país?

São estas as questões objetivas que nos obrigam a pensar na questão das eleições.

Não devemos polarizá-la entre o bem e o mal.

Até entendo que há momentos que o capital tenha que ser valorizado, mas não em detrimento do trabalho.

Até entendo que estado demais não é bom pra ninguém. Não gosto do estado entrando em minha casa, dizendo o que devo ou não assistir, como devo, ou não, nos mínimos detalhes, educar os meus filhos, etc. Tenho muito de liberal em mim.

Detesto os inúmeros e incontáveis cargos de confiança de nosso sistema de poder. As vezes, acho que não vivemos ainda em um estado republicano, mas sim feudal! Sou sim, favorável à profissionalização dos funcionários públicos, sim.

Gostaria, sinceramente, que a sociedade civil se auto-governasse cada vez mais, sem a necessidade da tutela estatal, e que o governo deixasse, gradativamente, de ser poder, para ser reduzido mais a uma questão administrativa, enfim. Que ninguém precisasse do favor do Estado para poder sobreviver.

Mas infelizmente, no atual estado de coisas, penso que enfraquecer o Estado, é simplesmente abandonar o povo aos predadores econômicos.

Por isso que a governança do PT precisa, em minha opinião, se fortalecer absolutamente na questão ética para mostra, para nós, sociedade, que o governo pode sim, ser eficaz na administração da coisa pública, da empresa pública, do investimento público, enfim. E esta mentalidade tem que tomar conta de todos os que lidam com a coisa pública, uma verdadeira "religião civil", seja no executivo, no legislativo, ou no judiciário, para que o governo saia do descrédito do qual se encontra.

Sucatear o Estado não adiantará nada. No capitalismo, sempre que alguém está perdendo, há alguém ganhando.

Fico pensando, quem está ganhando, em São Paulo, com uma polícia tão mal paga quanto a nossa (acho que é ó décimo nono que mais mal paga, apesar de sermos o estado mais rico da federação)? Quem está ganhando quando vemos, mês a mês, ser descontado uma determinada quantia do salário de cada funcionário público do Estado. Era para termos um atendimento de saúde de primeiro mundo! É muita grana! As vezes, para marcar um simples exame, não tem nem agenda. Sei que há bons tratamentos, que em casos graves, é melhor contar com o Hospital do Servidor Público do que não contar com nada, ou mesmo com a rede privada, mas a boa medicina hoje, é preventiva. É pouco pela quantidade de tempo e de dinheiro que já foi utilizada nisso!


Enfim, iremos, nestas eleições, escolher entre mais capital ou mais trabalho. Sem polarização moral. Sem luta do bem contra o mal (não que o bem e o mal estejam fora disso). O que você vai escolher, afinal?

6 comentários:

Thiago Santos de Moraes disse...

"Cortina de fumaça religiosa na eleição" é o fim da picada! No momento em que finalmente os temas que importam, isto é, os que dizem respeito à Lei de Deus são postos na agenda política (em especial o do aborto) um cristão vir com um comentários desses é decepcionante. Você parece que não viveu esses anos em que, mais e mais, os arautos de Satanás, por meio de um discurso politicamente correto e falseado, quiseram instalar a perseguição a todos que, por exemplo, não aceitam a normalidade da homossexualidade, ou implantar o assassinato de crianças a rodo no país.

Carlos Seino disse...

Particularmente, entendo ser uma cortina de fumaça, pois representantes de ambos os partidos já declararam, anteriormente, apoio à agenda gay, e agora, estes candidatos se postam de "bons católicos". Daí, no meu sentir, esta polarização como se o PSDB estivesse, de repente, com a "agenda de Deus", e o PT, com a "agenda do mal", é equivocada. Conforme disse na postagem sobre "Evangélico não votar no PT", antes desta discussão sobre o aborto vir a tona, Dilma já havia dado o seu posicionamento, a um grupo de mulheres feministas, que era contrária à mudança da atual legislação (e agora, ainda mais, após assinar compromisso com a liderança evangélica do país). O que não dá, em minha opinião, é o Serra distribuindo panfleto "Jesus é o Senhor", e assinando em baixo. Sobre discutir o tema do aborto, isto, obviamente, é muitíssimo relevante para o país, conforme disse em postagem anterior (o que me levou, inclusive, entre outras coisas, a votar em Marina). Esta candidata, sim, tem "cacife" para discutir religião na política, mas não o fez, não tirou proveito disso (e ela sim, é uma evangélica praticante, pois conheço parte da liderança evangélica no Acre, que informou que ela, pessoalmente, não permitiu que fizessem das igrejas palanques eleitorais a seu favor).

Thiago Santos de Moraes disse...

Não é cortina de fumaça coisa nenhuma, pois todo mundo sabe que Serra ou o partido dele não são contrários ao aborto e também fazem jogo de cena. O ponto é que o PT e sua candidata fake são muito mais. Dilma é um incêndio descontrolado! O caso aqui é de se escolher o mal menor (no primeiro turno o voto em Marina se justificava pelo mesmo motivo).

Carlos Seino disse...

Exatamente por não haver tanta diferença entre os partidos, que entendo, que esta encenação é uma cortina de fumaça (os dois posando de bons cristãos agora...). A agenda do PSDB é pela flexibilização exacerbada, dando todo poder ao capital. Colocar o Serra no poder significa, no meu sentir, dar todo o controle às mãos dos capitalistas, é desproteger o trabalhador. O fosso da desigualdade tende a aumentar, ainda que a economia melhore. Basta ver o governo de São Paulo. Somos o Estado mais rico, e temos uma das polícias mais mal pagas (décima nona). Sou funcionário público e não tenho reajuste salarial há anos. Estas, para mim, são diferenças mais marcantes entre os dois partidos.

Thiago Santos de Moraes disse...

Você está colocando questões salariais (papo corporativista de funcionário público) acima da maior questão possível em termos naturais, que é a defesa da vida inocente. Além disso, dizer que o PSDB é favor do capital é algo que não se sustenta, posto que o grande capital, que não gosta de concorrência, está do lado do PT... Considero essa postagem neste blog muito infeliz. Urge colocar os temas numa escala hierárquica.

Carlos Seino disse...

Não é papo corporativista, Thiago. Falei do funcionalismo, pois parto da minha própria experiência existencial para expressar um fato da gestão do PSDB em São Paulo, que o diferencia do PT. A questão vai muito além do funcionalismo público, envolvendo também a diminuição da proteção aos trabalhadores celetistas, o que não ocorreu no governo do PT (muito pelo contrário), e o que eu entendo não ser algo que vá favorecer a maior parte da população.

Não estou colocando nada acima de nada. Não fiz hierarquia de valores. Estou colocando o que em minha opinião, demonstra um pouco da diferença entre os dois partidos.

Você está interpretando o que eu disse "cortina de fumaça" com discussão sobre aborto, mas eu nem disse a palavra aborto na postagem. E nem acho que a questão do aborto é uma questão meramente religiosa. Acho que é até ruim associar a questão do aborto à religião, pois começam a dizer que é coisa de religioso.

A "cortina religiosa" que me referia ao fato de, conforme já expliquei, de repente os dois candidatos começarem a posar de bons católicos (pelo menos Dilma não comungou), distribuindo mensagens religiosas, como se o debate fosse religioso, e não fossem vistas as verdadeiras diferenças. A diferença entre os partidos PSDB e PT nestas questões, é mínima, salvo melhor juízo, não existem.

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