domingo, 23 de janeiro de 2011

Anglicanos tornando-se católicos romanos



A mídia tem noticiado um número significativo de anglicanos que têm se tornado católico romanos. Muitos amigos evangélicos perguntam-me, porque raios tais anglicanos não vão para uma igreja protestante mais tradicional, já que estão insatisfeitos.

O fato é que o anglicanismo é composto de diversas tendências, das quais pelo menos três podemos citar. Há anglicanos anglo-católicos, por exemplo. Estes, em tudo assemelham-se aos católico romanos, a não ser pelo fato dos clérigos poderem se casar. Outra tendência é a evangelical, que se aproxima mais dos protestantes. A diferença é que mantém uma eclesiologia católica, não obstante uma soteriologia oriunda da Reforma, por assim dizer, e com uma liturgia mais "light". John Stott, James Packer, N. T. Wright, Robinson Cavalcanti, são alguns anglicanos que representam esta tendência. Há ainda uma tendência mais liberal no anglicanismo, que pode ser vista talvez como um ultra-protestantismo, no aspecto teológico, ainda que se mantenha uma liturgia mais próxima do catolicismo.

Os anglo-católicos não se tornam anglo-evangélicos, porque têm uma identidade litúrgica muito mais próxima do catolicismo; daí, também, não se tornarem protestantes. E o anglicanismo, de modo geral, principalmente no hemisfério norte, tem aderido à teses mais liberais, como a ordenação femininia e de homoafetivos. Mas não é só isso; há locais em que há um verdadeiro "desmanche" da teologia tradicional, um ultra e amplo ecumenismo que espanta qualquer anglo-católico.

Ocorre que, segundo ouvi dizer, as dioceses mais anglo-católicas passam por muitas crises, seja de frequência, seja financeira. Muitos destes anglicanos que se tornaram católicos já não faziam mais parte formalmente da Comunhão Anglicana, principalmente quando esta começou a ordenar mulheres ao episcopado. Não quero dizer com isso que tais conversões não sejam feitas por convicção religiosa, mas são fatos que devem ser levados em conta. Se a tendência anglo-católica fosse a majoritária e não estivesse vivendo tal crise, penso que tais conversões não ocorreriam.

Digo isso, porque, os anglicanos de tendência evangelical não aderiram de modo algum ao "convite" de Bento XVI. Em muitos países africanos, como Uganda, Nigéria, etc, o anglicanismo tem se revelado bastante forte, por assim dizer. Para se ter uma idéia, o último encontro referente ao Pacto de Lausanne, o maior econtro de evangélicos no mundo inteiro, foi feito sob a hospitalidade do anglicanismo local (Uganda), tendo sido inclusive realizada a última celebração sob a presidência do arcebispo anglicano local, com uma liturgia considerada bastante tradicional para os participantes ali reunidos.

Eu acho uma pena que os anglo-católicos estejam se tornando católico-romanos. Acho que há aspectos reformistas no anglo-catolicismo que deveriam prevalecer, como a questão da não obrigatoriedade do celibato. No meu entender, seria mais adequado que o anglicanismo tradicional fosse reconhecido como uma jurisdição ortodoxa, do que se tornar romano, pois tem mais a ver com aquele. Mas penso que os ortodoxos não têm a mesma força e a mesma habilidade político-eclesial de Roma.

Enfim. O êxodo religioso continuará a ocorrer. A tendência é que os anglo-católicos continuem aderindo ao catolicismo romano. E, católicos, leigos ou clérigos que querem uma versão mais liberal do catolicismo, irão se tornar anglicanos, com certeza. E estas duas igrejas continuarão dialogando não sei o que... Isto porque, penso que a Comunhão Anglicana, de modo geral, não voltará à Roma; o que continuará ocorrendo tão somente é a conversão de anglo-católicos ao catolicismo romano.