segunda-feira, 28 de março de 2011

Da iniquidade estrutural

Geralmente, estamos acostumados, em nossos cultos e igrejas, a combater as injustiças de ordem pessoal.

Trovejamos contra os abusos nas áreas da cobiça e da gula, das relações sexuais ilícitas, do egoísmo, e coisas do tipo.

Entretanto, existe um tipo de injustiça, de iniqüidade que não são mais de ordem pessoal, mas foram de algum modo agregadas às instituições, às leis, fazendo parte da estrutura de uma determinada sociedade.

Assim era, por exemplo, no caso da escravidão, vista como tremendamente normal por uma parte da população (e até mesmo por cristãos).

Estes dias eu estava a ler acerca de pensões vitalícias recebida por ex-governadores de alguns estados, pensões estas estendidas, em alguns casos, ao cônjuge e filhos até a maioridade.

Algumas destas pensões chegam a atingir a soma de 24 mil reais. Isso mesmo.

O beneficiado fica no poder durante quatro anos, e tem direito a receber 24 mil reais até morrer!

Enquanto que um cidadão comum trabalha trinta e cinco anos, e receberá no máximo de três a quatro mil reais, e isso, se ganhava bem.

Ao que me consta, alguns dos Estados que concedem esta pensão no Brasil são Rondônia, Acre, Amazonas, Pará, Paraíba, Paraná, Piauí, Rio Grande do Sul e Sergipe.

A Ordem dos Advogados do Brasil de cada estado tem questionado a maior parte, ou todas, estas pensões concedidas.

Isto é somente um exemplo de iniqüidade instaurada nas próprias instituições de um Estado. E é somente um pequeno exemplo.

Há determinadas práticas que estão arraigadas faz tanto tempo em determinadas legislações que, se não questionadas, parecerão normais. No caso das referidas pensões, trata-se de muitíssimo dinheiro, que aliviaria a vida de centenas de brasileiros.

Os cristãos, bem como todos os cidadãos de bem, têm o dever de se indignar e denunciar este estado de coisas.

A Reforma não ocorre somente no nível pessoal, subjetivo; mas deve atingir também as nossas instituições.

Agora, o aspecto perverso da iniqüidade estrutural é quando ela passa a fazer parte do cotidiano, a ponto de ser considerada normal.

Antigamente, poderíamos falar dos privilégios, fossem reais, fossem feudais, que usufruíam uma parcela muito pequena da população.

E atualmente? Será que podemos vislumbrar, ainda que por analogia, parte destas injustiças?

E um outro questionamento é sabermos se, nas chamadas igrejas, limitando-me aqui à analise das evangélicas, também pode se estar instaurando um tipo de iniqüidade estrutural da qual muitos não se dão conta; pelo contrário, acham normal.

Quando vemos a liderança de determinadas igrejas vivendo como reis no mundo, com salários superiores a de um ministro do STF (teto de salário do funcionalismo público no Brasil), e ainda assim, com milhões de seguidores, não é algo a se estranhar? Pessoas acima de qualquer regra institucional, de qualquer prestação de contas, conforme viveram ditadores, reis absolutistas, e outros do tipo? Veja; não se está aqui a criticar que ministros ordenados vivam do evangelho de forma digna, com bons salários, conforme a capacidade financeira de suas comunidades. Está a se falar de uma classe de marajás a colocar inveja em qualquer fariseu dos tempos bíblicos. Gente que se apropria do dinheiro do povo, e não retorna tal beneficio à este mesmo povo. Nem se pode dizer que promovem o evangelho; promovem a causa da sua própria instituição, e, ainda, em benefício pessoal. Não nego que Deus utilize o trabalho dos tais para curar, libertar a muitos da opressão a que se tornaram cativos; mas isso não significa que Deus aprove suas obras em sua totalidade.

fonte da imagem: http://www.nosrevista.com.br/2010/05/14/todos-contra-a-corrupcao/