terça-feira, 22 de março de 2011

Palavra e Sacramento no pensamento de Karl Barth



“Nos ambientes da Reforma, a igreja sacramental de Roma foi substituída por uma igreja da Palavra. Muito depressa, a pregação tornou-se o centro de gravidade, ficando a celebração do sacramento com um caráter mais restrito. E atualmente, o que vemos? Por um lado, a igreja romana, igreja do sacramento na qual a pregação carece de valor; por outro, a igreja evangélica na qual há também um sacramento, porém, não é parte integrante nem obrigatória do culto. As duas posições são uma espécie de destruição da igreja. O que pode significar uma pregação que não faz referência ao sacramento que deve interpretar? Não vivemos do que o pastor sabe dizer, senão do fato que estamos batizados e de que Deus nos tem chamado. Por demais, tem-se reconhecido esta lacuna em nossos dias e intenta-se preenchê-la por todos os meios possíveis (renovação da liturgia, enriquecimento do culto por meio da música, etc). Contudo, estes paliativos estão fadados ao fracasso desde o começo, pois saem fora do verdadeiro problema”.


“Nos círculos que defendem estes modelos de renovação do culto, se busca sem razão um fundamento em Martinho Lutero. A intenção do reformador ao intentar manter, o máximo possível, o que era válido na liturgia romana era, antes de tudo, dar um lugar à ceia. E João Calvino não cessava de insistir sobre a necessidade de um serviço eucarístico em cada culto dominical. Justamente, é isso que nos falta hoje em dia: o sacramento de todos os domingos. Deveria fazer-se da seguinte forma: no início do culto, batizar na presença da assembléia e no final, a ceia; entre os dois sacramentos, a pregação, que teria desta maneira seu pleno significado. Então seria reto administrar o sacramento e ensinar o puro evangelho (recte adminstrare sacramentum et purê docere evangelium). Porém, não temos compreendido o autêntico significado do culto evangélico em sua totalidade, falta eficácia a nossos esforços teológicos e aos nossos movimentos litúrgicos. A pregação terá seu lugar na liturgia somente quando se realizar corretamente no culto do sacramento, porque só desta maneira pode desempenhar seu ofício, que é o de conduzir ao sacramento. Não se deve separar a administração dos sacramentos do anúncio do evangelho, porque a igreja é uma dimensão totalmente física e histórica, um corpo visível e real que ao mesmo tempo é corpo invisível e misterioso de Cristo e ambos de uma só vez.

(Karl Barth in “A proclamação do evangelho”, fonte editorial, p. 26-27)


O que poucos evangélicos sabem é que os reformadores defendiam que todos os domingos deveria ser realizada a chamada liturgia eucarística, como sempre foi desde os tempos do cristianismo primitivo, conforme atesta a obra apologética de Justino Mártir. A liturgia do culto, desde cedo, foi baseada na experiência do encontro dos discípulos com Jesus na estrada de Emaús (Lucas 24.13-35). A proclamação das Escrituras deve aquecer o coração dos ouvintes, e o Cristo é reconhecido no partir do pão. John e Charles Wesley, por exemplo, mesmo após pregações ao ar livre, consagravam os elementos eucarísticos e distribuíam ao povo, chegando, em algumas ocasiões, a distribuirem milhares de elementos consagrados. Mas, por algum motivo histórico, talvez para evitar-se a sua banalização, os evangélicos optaram por realizar a santa ceia, ou somente uma vez por mês, ou ainda com maior espaço de tempo (há os que realizam somente uma vez por ano).

Nos cultos católicos (ortodoxo, anglo-católico e romano), o ápice é a eucaristia. Esta é feita em forma de elaborada oração, que, com poucas variações, têm se repetido pelos séculos. Somente bispos e presbíteros podem realizar a consagração dos elementos. Somente a eles foi dado tal autorização e poder. Daí, a grande crise enfrentada pela igreja romana em casos de paróquias afastadas, onde não há presbíteros (padres). Entretanto, qualquer pessoa pode pregar no culto católico. Logo, a Palavra, ou ao menos, a pregação da Palavra (sermão) não é visto em sua natureza sacramental estritamente falando. Tanto é assim que na liturgia católica, ele não é obrigatório. Bastam as leituras. No que tange às leituras, tenho uma observação a fazer em relação à liturgia católica. Geralmente, são feitas de três a quatro leituras na primeira parte do culto católico, que é a liturgia da palavra. São lidas uma passagem do antigo testamento, uma do novo, um salmo e uma passagem do evangelho, seguindo-se o calendário litúrgico da igreja. Entretanto, o sermão geralmente não consegue explorar devidamente todas estas passagens, extraindo-se muito pouco da riqueza das leituras. Não há pregação expositiva, de modo geral, nestas Igrejas, pois o culto não é preparado para tanto.


Particularmente, pelo menos teoricamente, concordo com Barth e Calvino, no que tange à realização do evento eucarístico todos os domingos, associado a uma boa pregação da palavra. Isto está de acordo com a prática do cristianismo primitivo, bem como de toda igreja indivisa. Geralmente, o culto da Palavra era feito de manhã; e o partir do pão e a consagração do vinho, à noite. Depois, tornaram-se ambos parte de uma única reunião, reunidas na liturgia da palavra e na liturgia eucarística, e separaram-se a celebração da ceia em si do ágape, que era uma refeição maior. Ambos, Ceia e Pregação, se complementam. Um, a palavra, falada, o outro, a palavra vivida; ambos, originados na encarnação, e apontando para a parousia. E a ceia, como amálgama da unidade comunitária, e desta com a Santíssima Trindade. Entretanto, caso assim não seja, que pelo menos se mantenha a celebração da Santa Ceia uma vez por mês, conforme realizado na maior parte das Igrejas evangélicas. Este é considerado o culto mais solente e importante da igreja, e, fazendo-se assim, talvez ocorra a vantagem de se evitar a sua banalização.