quinta-feira, 7 de julho de 2011

Dialogo entre o universalista e o epicureu sobre a existência de Deus e a existência do mal

Claudio = Filósofo epicureu
Apolinário = Cristão Ortodoxo



Claudio: Penso que o mundo esteja prestes a dissolver-se num turbilhão universal.

Apolinário: Compreendo teu desengano face ao mundo, aposta no entanto que o espírito há de sobreviver a dissolução do corpo material.

Claudio: Bah! Quando nossos antepassados e pais procuraram a palavra mais apropriada para designar a suposta entidade que anima nossos corpos, optaram pela palavra Pneuma (os latinos por Spiritus) cuja raiz designava também o ar.
Nossos sábios opataram por esta palavra porque imaginavam que o ar era um espaço vazio e isento de qualquer substância material, o tempo no entanto provou que estavam equivocados pois o ar, como tudo quanto existe, é material e composto por atomos de Oxigênio.
Este erro grosseiro basta para provar que o vazio, o imaterial ou o imaterial não existe.
É pois inutil transplantar a ilusão da imaterialidade para o interior do homem.
Sejá espírito, alma ou qualquer outra coisa é composto ou formado por atomos tal e qual o ar ou o hálito humano.

Apolinário: Foi a respeito de vós que disse o apóstolo: 'O homem carnal não pode compreender as coisas divinas.'.

Claudio: Encaro semelhante juizo como bastante elogioso. Não desejamos compreender ou admitir quimeras e fantasias que pura e simplesmente inexistem, salvo nas cabeças dos tolos e supersticiosos.

Apolinário: Para vós outros o materialismo é a mais bela construção do pensamento humano.

Claudio: Sem sombra de dúvida não há nada mais belo que o materialismo.

Apolinário: Em decorrência do qual negais também a existência de Deus.

Claúdio: Ou Deus é composto igualmente por atomos ou inexiste. Os homens no entanto evitam negar publicamente que exista Deus, já por temor supersticioso de algum castigo que lhe possa ser aplicado após a morte, já por respeito humano, já por receio de virem a sofrer quaisquer sansões de natureza penal por parte da sociedade.
Penso que a opinião mais acertada é aquela segundo a qual não há Deus algum.
Regeitemos pois o temos dos deuses e vivamos naturalmente, só assim obteremos a verdadeira e única felicidade aqui mesmo neste mundo.

Apolinário: Se não há causa primária como podeis compreender o efeito universal?

Claudio: Tudo quanto existe e sempre existiu são os atomos que se chocam uns contra os outros desde toda eternidade.
A existência do universo e de todos os seres que nele habitam é produto do encontro acidental entre certos atomos.

Apolinário: Desejas acrescentar algum outro argumento a tua douta exposição?

Claudio: Sim meu caro Apolinário, desejo ressaltar ainda que a simples hipótese de que exista Deus não passa duma aberração moral.
É necessário que tu e teus correligionários saibam muito bem que idéia de Deus é uma idéia monstruosa e imoral.

Apolinário: Excelentíssimo Claudio, não posso perceber em que a idéia mais elevada que podemos assimilar seja imoral, confeso que tua afirmação seja misteriosa para mim.

Claudio: Então acompanha meus raciocínios e ficaras convencido de que Deus é mau, logo inexistente.

Apolinário: Passa pois a demonstração.

Claudio: Primeiramente afirmo que se Deus existe é topo poderoso.
Apolinário: Concedo.

Claudio: Logo não lhe faltam forças para aniquilar o mal.

Apolinário: Concedo igualmente.

Claúdio: Afirmo ainda que Deus, caso exista, deva ser bom.

Apolinário: Indubitavelmente.

Claudio: Logo deseja aniquilar o mal.

Apolinário: Ainda aqui estou contigo.

Claúdio: Concatena pois teus juizos >
Se deus pode aniquilar o mal e não o faz é mal, logo não existe, pois deve ser bom.
Por outro lado se quer aniquilar o mal e não pode faze-lo é fraco, logo não existe, pois deve ser Onipotente.
Portanto se o mal existe e o mal existe de fato, Deus deve ser ou malvado ou frágil, logo inexiste pois não pode ser nem uma coisa nem outra.

Apolinário: Vejo que tem argumento é a imagem de Aquiles.

Claudio: Como assim?

Apolinário: Seria triunfal, vitorioso, irrespondivel e irrefutavel não fosse pelo calcanhar.

Claudio: Calcanhar?

Apolinário: Quero dizer que teu argumento comporta um errinho que compromete-o por inteiro e que torna-o vicioso.

Claudio: Não percebo qualquer erro ou vício por mínimo que seja nos juizos acima exarados.

Apolinário: Concordo contigo quando dizes que Deus deve ter poder suficiente para aniquilar o mal.
Concordo contigo do mesmo modo quando dizes que Deus deve desejar a aniquilação do mal.
Concordo contigo ainda quando dizes que o mal existe e que o pecado é uma realidade e não uma ilusão como tem sido ensinado por alguns.

Claudio: Diante disto só te resta concluir infalivelmente que teu deus é uma ilusão arquifunesta.

Apolinário: De modo algum pois a instituição Cristã afirma que a existência do mal e o reino do pecado são situações epísódicas, provisórias, momentâneas e que virão a ser superadas.
Queremos dizer com isto que o Deus verdadeiro prometeu a seus adoradores e servos a superação o mal e a aniquilação do pecado.

Claudio: Se vos fez tal promessa, creio que a fez em vão, pois ainda não veio a concretiza-la.

Apolinário: Nós no entanto esperamos e cremos que o mal e o pecados serão verdadeiramente aniquilados quando todas as vontades humanas e mortais forem educadas e corrigidas.
Que ainda não tenha cumprido sua promessa concedo, que nos tenha enganado e não venha a cumpri-la em absoluto discordo.

Claudio: Que indicios teu deus nos oferece de que o mal e o pecado venham a ser aniquilados.

Apolinário: A promoção da pessoa humana em todos os sentidos realizada após sua manifestação, por meio dos hospitais, dispensarios, orfanatos, escolas, albergues, asilos, hospicios, redes de assistência, primeiramente por ação do império Cristão bizântino e depois nos países ocidentais ou europeus por ação da Igreja romana.
Penso que os esforços de Fabíola, Crisóstomo, Patricio, Basilio, Teodoro, Fócio, Francisco, João de Deus, Camilo, Joana, Vicente de Paula, Wesley, Cotolengo, Damião, Booth, Kagawa, Madre Skobtzoff, Bulgakoff, Dulce, Tereza, Bento, Xavier, etc tenha sido decisivo para a expansão da lei do amor e para a diminuição do impacto do mal no mundo.
Uma simples comparação entre a sociedade ante Cristã e a sociedade Cristã, em especialmente sob as formas Ortodoxa, Anglicana, romana ou mesmo espiritista, é suficiente para demonstrar que nosso Senhor principiou ja a cumprir sua promessa e a estabelecer seu Reino eterno aqui mesmo neste mundo.

Claudio: Uma coisa é diminuir o mal outra bem diversa aniquila-lo totalmente, semelhante esperança deve ser tachada de quimérica e vã.
A maior parte dos vossos por sinal, admite que o mal será eternizado e não aniquilado por ocasião da vinda do teu Cristo, quando ele remeter os maus e pecadores ao fogo perpétuo do inferno.
Como ousas dizer pois que o mal será vencido e o pecado aniquilado?

Apolinário: Categoria há de Cristãos e mesmo organizações inteiras que se apresentam como Cristãs e sustentam o dogma dos castigos ou punições eternas pelo qual de fato o mal e o pecado são eternizados em oposição ao Ser divino no interior do Ser divino... destarte Deus deveria ser encarado como um Eterno canceroso...
A Igreja Católica e Ortodoxa no entanto, não ensina a doutrina dos castigos eternos, ao menos como dogma de fé, embora parte de seus membros admita-a como sendo a opinião verdadeira ou a hipótese mais provavel.
Como todavia não se trata de um artigo de fé, somos autorizados a combate-la como uma falsa e perniciosa doutrina, cujo fruto é a falsificação descarada do Santo Evangelho e o recurso a traduções viciadas.
O exemplo do Santo martir Origenes de Alexandria e de muitos outros doutores e padres da Igreja - como S Clemente, S Gregório Nisseno, S Ambrósio, etc - autoriza-nos a regeitar semelhante doutrina, especialmente quando apresentada sob a forma de dogma ou de artigo de fé.
Neste assunto os Origenistas ou universalistas Ortodoxos colocam-se ao lado dos espíritas e não dos outros cristãos que afirmam estar fundamentados no Evangelho ou na tradição apostólica.
Nem o Novo Testamento nem a tradição apostólica apresentam o tal castigo eterno como um dogma ou artigo de fé.
No Novo Testamento por sinal não é apresentado sequer como teoria.

Claudio: Logo nem todos aqueles que creem em Cristo creem no inferno?

Apolinário: Se ao conceito de castigo ou inferno adicionais a palavra eterno ou sem fim não, nem todos cremos nele, nem todos cremos em penas ou castigos eternos e sem fim. Parte de nós acredita na correção de todos os seres, logo na vitória total do amor e do bem e na destruição do pecado.

Claudio: Bah, de minha parte não percebo como a existência do mal e do pecado seja compativel com a existência de Deus.

Apolinário: Tendo ouvido com atenção e respeito tuas alegações, peço que te dignes a escutar as minhas.

Claudio: Eis aqui a teu dispor.

Apolinário: Considera primeiramente a existência do mal e do pecado tal e qual são suportados por tantos e tantos irmãos nossos de caminhada, considera agora que a existência acaba com a morte e que não existe Deus. Não seria uma condição terrivel???

Claudio: Certamente que face ao mal e ao pecado, a dissolução da alma pela morte, a inexistência de Deus, estariamos privados de toda esperança e diante dum martírio insoluvel.

Apolinário: Concordas então comigo que o conceito de realidade sustentado por si conduziria a maior parte dos seres humanos a um total desespero, a uma angústia invencicel e a uma prostração insuperável?

Claudio: Devemos convir que a existência não é feita apenas de males e sofrimentos, mas também de alegrias e prazeres. Destarte as situações de dor e sofrimento são temperadas por momentos felizes e prazerosos.

Apolinário: Considera o regime de vida das massas que é experimentado pela maioria dos mortais.
Acreditas tu que eles experimentam mais situações de felicidade e de prazer do que situações de sofrimento e dor?

Claudio: Penso não poder sustentar semelhante opinião.
Talvez no caso dos bem posicionados haja mais prazer do que dor, mas não no caso da maior parte dos seres humanos.

Apolinário: Mesmo no que tange aos ricos e poderosos acreditas tu que a sorte deles jamais muda e que jamais possam vir a sofrer qualquer tipo de contrariedade ou dor?

Claudio: Forçoso é confesar que nada há de estável ou seguro no mundo em que vivemos e no qual mesmo os ricos e poderosos estão a merce da doença e da tristeza por ocasição da morte de seus entes queridos.

Apolinário: Que disse teu mestre sobre a fruição do prazer e a fruição da dor?

Claudio: Epícuro declarou e nós com ele 'Que a fruição de um dia inteiro de prazeres não compensa a fruição de um instante de sofrimento ou dor.'

Apolinário: Portanto és obrigado a admitir que a morte de um filho ou a dor física produzida por um câncer na lingua ou no estomago pelo espaço de alguns meses não compensa uma vida inteira de gosos e prazeres?

Claúdio: Por força de coerência sou obrigado a admitir que nos casos acima não há compenssação alguma.

Apolinário: Como deveria reagir pois o ateu e materialista face a tais situações de dor e sofrimento?

Claúdio: Sem Deus, imortalidade ou esperança alguma só nos resta abandonar a vida pela porta dos fundos ou seja recorrer ao suícidio a exemplo de nossos digníssimos antepassados.

Apolinário: Percebo no entanto que apenas os ricos e poderosos costumavam recorrer a semelhante recurso.

Claudio: Talvez porque tenhamos divulgado nossa doutrina especialmente em tais círculos?

Apolinário: Afinal o que as massas sofridas seriam beneficiadas pelo ateismo e o materialismo crasso?
Que seria delas sem esperança alguma?

Claudio: Devo convir que caso nossa doutrina se propagasse em tais meios haveria um aumento significativo de suicidios.

Apolinário: Como nada seria capaz de obrigar o homem do povo a permanecer vivo em meio a tantos problemas e sem qualquer esperança de salvação, a disseminação de vossa amarga doutrina produziria logo uma hecatombe capaz de despovoar a terra.

Claudio: Devo convir que sendo mais comuns para o homem do povo situações de trabalho, pena e aflição do que as situações de felicidade e prazer, a aplicação de nossa doutrina redundaria em verdadeira catastrofe e por isso julgamos util reserva-la apenas aos ricos e podersos, e, mesmo assim apenas enquanto não sentem sobre si mesmos o agilhão das fúrias.

Apolinário: Devo concluir que vossa doutrina convenha apenas aos ricos e aos poderosos em plena fruição da existência e que seja estéril para consolar tantos quantos tem arrastado uma existência mediocre ou prosaica para não dizermos uma existência precária e tormentosa, empurrando-os todos ao desespero, a frustração e ao suicídio.

Claudio: A honestidade me obriga a concordar contigo.
Sem Deus, alma ou esperança não há qualquer motivo que possa obrigar o homem a suportar a dor ou o sofimento. Nossa doutrina aponta para a maioria das pessoas o caminho de Esegias...

Apolinário: Tais os resultados ou os frutos concretos de tua doutrina...

Claudio: ...

Apolinário: Considera agora a mesma situação de miséria e indignidade que consideraste a pouco, porém num outro cenário, bem distinto, em que exista Deus, em que o espírito sobreviva a morte do corpo...

Claudio: E???

Apolinário: Neste caso o sofredor não teria ao menos o consolo da esperança de que o mal, a dor e o pecado viessem a ser superados e banidos da existência, dando lugar a uma nova vida fixada no amor e no bem?

Claudio: Concedo que semelhante doutrina venha a acarretar-lhe algum conforto e alguma esperança face aos golpes e tranzes duma existência comum.

Apolinário: Neste caso o rico e o poderoso talvez pudessem superar uma enfermidade dolorosa com dignidade e o humilde e lutador suportar sua condição com serenidade?

Claudio: É possivel que em alguns casos semelhante teoria concedesse a tal gênero de homens certa dignidade ou serenidade face a tristesa, a enfermidade, o trabalho, etc

Apolinário: Considera então se ao eliminar a existência de Deus e da imortalidade face iniquidade não agravas ainda mais o cenário na medida em que tornas a situação insoluvel, eternizando-a por assim dizer.
Pois que vantagem ou beneficio nos adviria do fato Do mal existir e Deus não existir?

Claudio: Confeso que se trata duma questão assaz complexa...

Apolinário: Considera agora se ao afirmar a existência de Deus e da imortalidade, não emprestas ao menos alguma esperança aos mortais tendo em vista a possibilidade de que esse Ser bom e todo poderoso venha de fato a destruir o mal e o pecado...

Claudio: Para falar honestamente jamais havia analisado a questão por semelhante ângulo.

Apolinário: Sustento pois que a eliminação de Deus e da imortalidade não resolve antes agrava o cenário de um universo ferido pela iniquidade, pela injustiça e pelo pecado, enquanto que a afirmação de sua existência bemaventurada aponta novos horizontes para a humanidade como o amor, a justiça, a paz, etc

Claúdio: Embora as coisas sejam como são, talvez devessem ser como tu dizes. Confesso que no fim das contas acreditas num ideal nobre e elevado, que talvez seja util para ti e os demais... desejo pois não contendar contigo, mas deixar-te na posse de tuas crenças e examina-las tanto mais de perto.

Apolinário: Oxala não só examines como abraçes nossa santa doutrina que é uma doutrina de luz e de esperança e não uma mensagem de ódio, de derrota, de castigo ou de condenação.