segunda-feira, 4 de julho de 2011

Dialogo II - Entre o Cristão e o pagão sobre a comunicação da Graça divina

Pagão - Celso
Cristão - Theotímio


Celso: Segundo tenho lido e ouvido dizer acreditais que o universo inteiro foi produzido apenas para vós, que o Supremo Criador comunicou-se apenas a vós, que os demais seres humanos (não cristãos) foram antecipadamente regeitados e condenados pelo simples fato de ignorar vossos ensinamentos e de não pertencer a vossa igreja...  Eis porque não sou nem desejo ser cristão e encaro os cristãos como os piores inimigos da humanidade.

Theo.: Caríssimo Celso, fosse mesmo assim nem mesmo eu seria Cristão mas me associaria a tí e contigo acusaria os cristãos de serem os piores inimigos da humanidade.
Parece-me no entanto que te informaste precariamente sobre nossa doutrina e ensinamento, atribuindo-nos opiniões e teorias que são ensinadas e cridas apenas por alguns poucos sectários e fanáticos que jazem sob o jugo da ignorânciam e que por isso mesmo mostram-se arrogantes.
Os antigos hebreus de fato registraram - no Apocalipse de Esdras - que deus havia criado o mundo para eles e que os demais seres humanos não passavam de 'vil escarro', e que os gregos impuros seriam expulsos da santa Jerusálem, e outras tonteiras semelhantes.
Jesus no entanto acolheu a mulher cananéia, ordenou que amassemos nossos semelhantes como a nós mesmos e que anunciassemos seus ensinamentos a todos os povos e nações da terra para que fossem beneficiados por uma comunhão mais intensa com seu Criador e Senhor.
Os hebreus cognominaram os prosélitos como uma 'lepra' enquanto nós qualificamos os prosélitos como uma benção divina.
Os israelitas acreditavam que apenas os filhos de Abraão seriam salvos do mal e do pecado, nós no entanto estendemos a salvação a todos os seres humanos e asseveramos que já não há hebreu ou grego.
A Xenofobia foi explicitamente condenada por nosso abençoado Mestre, bem como o sectarismo: 'Quem não é contra nós, esta conosco.' é o ensino de Jesus.
Rogo-vos que para conhecer melhor os fundamentos do Cristianismo devais examinar tanto mais atentamente aqueles evangelhos que contem as palavras de Jesus e os escritos legados pelos doutores do Cristianismo primevo como S Justino, S Origenes, S Eusébio, etc

Celso: Devo admitir que não é honesto atribuir a Jesus o quanto não possa ser confirmado por suas palavras registradas no Evangelho ou atribuir ao Cristianismo primitivo o quanto não possa ser testificado pela tradição apostólica, afinal poderia se suceder que posteriormente aparecessem outras doutrinas e novos ensinamentos no seio da instituição Cristã.

Theo.: Foi justamente o que se sucedeu.

Celso: Seja mais explicito.

Theo.: Segundo podemos ler em S Irineu e em todos os padres gregos - e devemos insisitir sempre que o Novo Testamento foi escrito em Grego - a comunicação da graça Incriada precede a ação da graça criada (Cf K Rahner 'O homem e a graça' ed Paulinas pg 09 sgs).

Celso.: Neste caso houve uma inversão no plano da economia cristã?

Theo.: Nós ortodoxos julgamos que os Ocidentais ou latinos anteraram ou modificaram a ordem da economia Cristã pertinente a graça divina, engendrando, a longo prazo um novo tipo de espiritualidade ou de religiosidade que não exprime a religiosidade legitimamente fundamentada no Evangelho.

Celso.: Cumpre a sí apresentar-me o responsável por semelhante inversão?

Theo.: Grotius ao examinar a doutrina Católica Ortodoxa, sempre mantida por nossas igrejas apostólicas, chegou a conclusão de que a Ortodoxia é semi pelagiana, enquanto atenua os efeitos ou consequências do pecado ancestral, regeita a doutrina da corrupção total da natureza, admite que o homem é capaz de responder a pregação da Igreja - determinando sua adesão ao evangelho e operando sua própria conversão - que cumpre ao fiel cooperar com a graça, etc Regeitando o extrinsecalismo ocidental cuja consequência lógica é a predestinação, a qual associada ao infernismo nos levaria a concluir com Zwinglio que deus mesmo desejou e quiz o mal e o pecado.
Lutero no 'Servo arbítrio' e Calvino nas 'Institutas...' não puderam fugir a tais conclusões.

Celso: O amigo quer dizer que os reformadores protestantes foram os responsáveis pela alteração?

Theo.: De modo algum. Atribuir a autoria do gracismo aos reformadores seria desonesto. Os reformadores limitaram-se a agravar a situação apresentando tal esquema e suas consequências como dogmas e influenciando a igreja papista para que assumisse uma posição mais ou menos aproximada.
E no entanto os escritos dos reformadores nos apontam a resposta para esta pergunta?

Celso: E porque?

Theo.: Porque a par de certos textos ou versos obscuros do Novo Testamento - quase nunca do Evangelho e quase sempre de Paulo - e das sentenças legadas pelos sacerdotes hebreus (velho testamento), Lutero, Calvino, Zwinglio e os demais reformadores paladinos do 'Sola gratia', recorriam ao testemunho de certo escritor muito famoso e anterior tanto a Huss quanto a Wyclef, escritor ao qual recorriam amiude em suas obras e qua - tal e qual o Papa de Roma - apresentavam como o maior de todos os padres da igreja embora saibamos que fosse inabil em grego...

Celso: Quem seria esta personagem?

Theo: Agostinho, Bispo de Hipona, a respeito do qual S Fócio escreveu que mesmo sendo santo e piedoso, cometeu diversos erros e alterou a tradição sagrada e constante da Igreja. O já citado Rahner (P 50 sgs) não é doutro parecer...

Celso: Já ouvi falar bastante neste Agostinho de Hipona. Que disse ele a respeito da graça?

Theo.: Antes de sabermos o que Agostinho disse e ensinou a respeito da graça convem saber o que disse em ensinou sobre o homem; e para sabermos o que ele disse sobre o homem e os fundamentos de sua alegação devemos examinar o que ele ensinou e disse a respeito do pecado. Neste terreno - do agostinianismo - a soteriologia conduz a antropologia e a antropologia a hamartiologia, é a hamartiologia de Agostinho que nos fornece a chave de que precisamos para compreender prefeitamente o gracismo até suas derradeiras consequências erigidas a guiza de dogma e apresentadas como doutrinas legitimamente Cristãs cerca de mil anos depois.

Celso: Que pensava Agostinho sobre o pecado?

Theo.: O Bispo de Hipona de algum modo antecipou as idéias pessimistas de Lutero, Calvino e Flacius, postulando que o pecado corrompeu total ou radicalmente a natureza humana, afetando o entendimento humano, ou seja a capacidade natural do homem para compreender as coisas divinas sem o auxilio de uma operação interna e insivivel da graça e sobretudo a vontade que deixando de ser livre fixou-se no mal e no pecado não podendo romper com ele mesmo colaborando com a ação divina.

Celso: Qual a origem deste ensinamento?

Theo.: Segundo historiadores, filósofos e teologos Agostinho teria recebido tal ensinamento dos sectários de Mani (maniqueus) durante a flor da juventude. Os psicologos partindo de sua obra prima as 'Confisões' acrescentam-lhe certa tendência inata ao pessimismo existêncial, responsável pela fixação da teoria maniqueista em seu incosciente e sua tentativa inconsciente de introduzi-la - sutil e disfarçadamente - no seio da religião Cristã.

Celso: Compreendo. E quais seriam suas consequências?

Theo.: Em se admitindo que o entendimento humano foi alterado e a vontade livre destruida é impossivel ao homem tanto aceitar como regeitar a ação da graça ou aderir livremente a pregação da igreja e receber ou a introdução ou uma efusão maior da graça. É pois necessário admitir que deus 'faz tudo' sendo responsável por quebrar a resistência do homem e por converte-lo, introduzindo nele sua graça, apresentada praticamente como uma coisa ou um ser pessoal e não como um estado ou relação.

Celso: Não vejo mal nenhum nisto, pois se Deus ama os seres humanos porque não deveria converte-los, salva-los, recompensa-los?

Theo.: O problema é que Agostinho, Cesário, Gostechalk, Wyclef, Hussa, Lutero, Calvino, Zwinglio, etc eram todos infernistas afirmando que deus não salva nem deseja salvar todos os seres humanos e logo que desde toda eternidade quiz que parte dos seres humanos pecassem, fossem regeitados e condenados... a conclusão é lógica: A regeição ou condenação não é resultado livre da decisão humana, mas um ato divino para o qual tais homens foram perpetuamente dispostos sem que houvesse outra chance ou possibilidade, é o dogma da predestinação ou decreto horrendo de Calvino e não podemos compreender que Deus possa amar aqueles que predestina a semelhantes torturas.

Celso: Caso admitimos a 'lógica' divina nossos tribunais, que relacionam a responsabilidade e a culpa com o exercício da liberdade, estariam todos equivocados. Entre nós seres humanos condenar um homem pelos atos praticados por outro homem é uma iniquidade abominável... como o tal Agostinho pode suster semelhante teoria?

Theo.: A princípio Agostinho lançou a doutrina sem deduzir as consequências lógicas e é possível que jamais tivesse chegado a borda do abismo que se abria a seus pés, caso não fosse empurrado pela mente brilhante do Bispo Ortodoxo S Juliano de Eclano, o qual fundamentado no Evangelho de Cristo, na tradição grega e no método aristotélico; causou sérios problemas ao hiponense.

Celso: que tipo de problemas?

Theo.: Tentando justificar suas idéias sobre o pecado ancestral, Agostinho teve a infeliz iniciativa de apelar ao costume de se batizar as crianças, alegando que se eram batizadas é porque eram pecadoras, corrompidas e destinadas aos tormentos do inferno...
Sabemos no entanto que a obrigatoriedade de se batizar as crianças não é um dogma, e que naquele tempo era encarada como um costume piedoso livremente exercido pelos pais.
Alguns de nossos padres e doutores mais famosos, filhos de pais cristãos foram batizados adolescentes ou já em idade adulta sem que tivessem sofrido quaisquer recriminações.
Agostinho no entanto ousou apresentar sua obrigatoriedade como um dogma apostólico...

Celso: E???

Theo: Dentre os padres ilustres que haviam sido batizados somente na idade da razão, estava João Crisóstomo, Arcebispo e martir de Constantinopla, o qual diante dos abusos que ja se insinuavam em torno da prática do pedobatismo, visando torna-la compulsória, escreveu tanto contra este abuso como contra as doutrinas da corrupção da natureza e a passibilidade do homem em sua conversão. Diante disto o bispo de Eclano não perdeu tempo e traduziu a obra de Crisóstomo, inserindo seus fragmentos num de seus tratados escritos contra o gracismo.

Celso: Obrigando seu oponente a retratar-se?

Theo.: Infelizmente não, pois mesmo sendo uma homem caridoso e até certo ponto tolerante, Agostinho - que gostava de ser apaludido pelo povo durante seus sermões - era um tanto vaidoso, embora, como já foi dito, não pudesse equiparar-se com são Crisóstomo no terreno da exegese e da legítima tradição Cristã.

Celso: Compreendo, restou-lhe apenas silenciar.

Theo.: Pelo contrário, Agostinho perdeu as estribeiras e ousou escrever - em seu Tomo contra Juliano - que João Crisóstomo estava redondamente equivocado e que seus ensinamentos eram desaprovados por Deus...

Celso: Então Crisóstomo veio a liça?

Theo.: Crisóstomo era um homem muito ativo e preocupado, que cuidava dos pobres e enfretava perseguições por parte do governo, eis porque dificilmente tomaria conhecimento das discusões que ocorriam na perferia do império, e numa região prestes a cair sob o domínio dos bárbaros.

Celso: Neste caso ficou o dito pelo não dito?

Theo.: Também não, pois como ja foi dito, Juliano - na esperança de abrir os olhos do inovador - continuou a ataca-lo e a apontar as decorrências de sua doutrina, antecipando Lutero e Calvino. Agostinho no entanto mostrava-se resoluto, ou seja, não cedia e por isso mesmo acabou sucumbindo a um calvinismo quase puro e afirmando - numa de suas derradeiras obras - que "A graça divina age firme e invencivelmente" (A correção e a graça XII, 38) ou seja a predestinação irredutivel para a salvação e por necessidade lógica a predestinação para a condenação eterna, a qual, sem embargo ele evitou ensinar publica e formalmente, sendo colhido pela mão da morte neste indecoroso passo.
Pode se dizer que ele viu diante de sí o abismo e ao menos oficialmente não quiz saltar para dentro dele por receio de opor-se a tradição e de ser reprovado pelas igrejas.

Celso: Neste casos e sua doutrina estava errada porque a Igreja não reagiu contra ela e condenou-a?

Théo.: Simples meu caro, primeiro porque os transportes e comunicações estavam já comprometidos, porque os ocidentais haviam trocado o grego por uma latim decaido, porque os gregos não compreendiam latim e ignoravam as obras dos teólogos ocidentais como Agostinho, porque a parte ocidental do império fora invadida pelos bárbaros, porque nossos padres encaravam os latinos como cristãos barbarizados, ignorantes e de segunda classe... No entanto apesar disto a questão foi ventilada: Teodoro de Mopsuestia apoiou ao semi-pelagiano Celestio, o diacono S Aniano de Celeda recebeu o apoio de S Crisóstomo, Pelágio - que deve ter corrigido seus excessos doutrinários - foi justificado pelo sínodo de Dióspolis, o Bispo romano Zózimo - que era de origem grega - condenou Agostinho e sua teologia maniquéia e gracista sempre foi encarada como equivocada por todas as igrejas ortodoxas que mantiveram-se fiéis a ortodoxia, como evidenciam as cartas legadas por S Fócio. Eis porque a noção de pecado ancestral entre os ortodoxos é totalmente distinta da que veio a triunfar entre os latinos.

Celso: Explique-me melhor.

Theo.: Afirmando que o pecado é transmitido pelo exemplo ou por contágio social, Pelágio de certo modo manteve a doutrina oriental. Naquele tempo nada se sabia sobre memória inconsciente e sobre a percepção, apreenção e fixação dos maus exemplos dos homens na mente do nascituro, Origenes e os demais padres gregos indicam esta solução que foi confirmada pela por diversas pesquisas no campo psicologia, Agostinho no entanto apresentou o pecado como uma espécie de infecção ou enfermidade entrinseca por ser traducionista e acreditar que a alma do homem era produzida por seus pais.

Celso: Até onde sei os romanos e protestantes não acreditam nisto?

Theo.: Eles afirmam crer que a alma é criada do nada por Deus e ao mesmo tempo que é suja ou pecadora, a incoerência é manifesta. Os mais afeitos ao maniqueismo ancestral atribuem a transmissão do pecado ao corpo físico... outros afirmam em alto e bom som que o a pena e a culpa do pecado são transmitidos e herdados por decreto divino... pois não há unidade entre os inovadores.

Celso: Compreendo. Mas diga-me cá uma coisa, será que nem Jesus nem Paulo sustentaram a completa incapacidade do homem ou seja o total obscurecimento de sua razão e o endurecimento de sua vontade no mal e no pecado?

Theo.: Quanto ao apóstolo Paulo, cuja natureza das cartas foi declarada como díficil de se compreender por um seu colega de ministério: o apóstolo Pedro, seria demasiada extensa uma discusão em torno de suas palavras e ensinamentos. Como porém Jesus, o Deus de Paulo, era infalivel e sua palavra tanto mais clara e fácil de se compreender, basta-nos demonstrar que Jesus ensinou a capacidade do homem natural para compreender a mensagem do Evangelho e para abraça-lo, operando sua conversão, para decidir-mos o assunto, pois Paulo, neste ponto, não poderia nem ignorar nem contrariar os ensinamentos de seu mestre e Senhor, a menos que judaizasse e recaisse nas tolices dos antigos sacerdotes hebreus. Neste caso bastaria comprovar que apóstolos se contradizem por influência do judaismo...

Celso: Revela-me pois o que o teu deus ensina sobre o entendimento do homem natural.

Theo.: Que Jesus reconhecia a capacidade do homem para compreender e receber seus ensinamentos, evidenciam-nos a seguinte expressão: 'Quem tem ouvidos para ouvir, ouça' querendo dizer que seu auditório era capaz de compreende-lo, embora jamais se diga que tantos quantos ouviam-no eram predestinados... havendo até mesmo estrageiros e gregos entre eles, além de seus adversários. Pois bem a todos estes Jesus, fala, ensina e atribui a faculdade de compreender o que diz.
O apóstolo Pedro por sua vez decreta que apresentemos a todos os homens as razões ou motivos de nossa esperança (I Pe 3,15) donde se infere que Pedro acreditava que o homem natural era perfeitamente capaz de pesar as razões desta boa esperança. Do contrário seu conselho seria rematada parvoice...
Paulo a seu tempo, na epistola aos Romanos (CP 01) apela a capacidade dedutiva da razão para partindo das criaturas e do universo sensivel adquirir um conhecimento válido sobre a existência e a unidade de Deus. O que implica em admitir que o homem é capaz para compreender as coisas divinas e que não é desprovido de sentido espiritual.

Celso: No entanto vosso Paulo condena a sabedoria carnal dos filósofos...

Theo.: O que esta em foco sob a alcunha de 'sabedoria carnal' não é a capacidade do homem compreender e tampouco a Filosofia, mas apenas e tão somente a teoria materialista dos sofistas e epicureus.

Afinal todos estão fartos de saber que Paulo recorre ao testemunho de diversos sábios e filosofos pagãos como Epimênides de Cnossos, Arato, Pitágoras de Samos, Cleanto de Solis... os próprios livros dos judeus testificam - apesar da viva repulsa que sentiam por tudo quanto não fosse judaico - que seus legistas e profetas (como Moisés e Daniel) haviam estudado e aprendido as ciências dos egipcios e caldeus, cujos vestígios e fragmentos podemos rastrear no testamento antigo demonstrando que os pagãos não eram semelhantes a pedras, pedaços de madeira ou animais irracionais...

Celso: E sobre a liberdade e a condição natural do homem, que diz teu Mestre?

Theo.: Meu Senhor e Mestre afirma que a semente do semeador, que é a doutrina contida no Evangelho, germinou quando caiu na terra boa, que é aquilo que há de bom no coração do homem e sua capacidade para cooperar com Deus e aderir a sua revelação após ter pesado racionalmente as evidências e garantias oferecidas por ela.
Do contrário se a natureza humana fosse totalmente corrompida Jesus diria que ele mesmo tornou a terra boa ou que não era boa, mas ele não diz nem uma coisa nem outra.
Portanto a terra ou seja o coração do homem não era absolutamente mau como querem certos metafísicos pessimistas.
Por outro lado o mesmo Jesus assevera que os judeus eram os únicos e verdadeiros responsáveis por resistirem a sua graça e frustrarem seu efeito, quando lhes dirije o seguinte reproche: Eu quiz acolher-vos como a galinha recolhe os pintinhos sob suas asas, mas VÓS NÃO O QUIZESTES.
Ou seja a resistência ao plano divino partiu da vontade deles e não de Deus cabendo-lhes toda culpa.

Celso: No entanto vosso mesmo Jesus falou em parabolas as seus com o objetivo de que os judeus não pudessem compreender e fossem desarraigados tanto mais facilmente.

Theo.: Desde toda eternidade Jesus, que é o Verbo feito carne, conhece as disposições do coração humano. Sabia pois que os hebreus não estavam dispostos a colaborar consigo mas a regeitar seus ensinamentos como heréticos e pestilenciosos... conhecia antecipadamente que não haveriam de interagir consigo e por isso não quiz perder tempo com eles lançando suas palavras ao vento e comprometendo a liberdade necessária ao desempenho de seu sagrado ministério. No entanto, todos aqueles que eram tocados por suas misteriosas e obscuras palavras - como Nicodimos e o Arimateu - ele acolhia, instruia e trazia ao Reino. Logo Jesus não foi a causa da regeição dos hebreus, conheceu premeditadamente que o regeitariam livremente mas não produziu a dita regeição violando a liberdade deles, assim Jesus não foi a causa da apostasia deles e de sua degradação.

Celso: Logo não ensinais que todos os pagãos forão ou serão condenados?

Theo.: Nós acreditamos que Deus ama, chama, busca, aceita, recebe, acolhe, auxilia, corrije e aperfeiçoa todos os seres humanos, sem excessão ou acepção de pessoas.
Foi o nosso Paulo que disse que todas as coisas serão restauradas em Cristo e não apenas algumas coisas ou pessoas, o texto é enfático e claro: Tudo.
O mesmo Paulo, a respeito daqueles que resistem, afirmou que Deus não deseja a perdição de quem quer que seja, mas a salvação de todos. Tal o ensino recebido por ele daquele que disse: Quando for erguido no madeiro trarei todos a mim e que veio para que tenham vida e vida plena.

Celso: Acaso Agostinho, Wyclef, Huss, Lutero ou Calvino ignoravam o testemunho acima?

Theo.: Ignorar não ignoravam, acontece que a mente humana é habil em torcer as coisas segundo os preconceitos arraigados em sí.

Celso: O amigo poderia apresentar-me algum exemplo?

Theo.: Karlstadt foi o primeiro a afirmar que deus era dotado de dupla vontade> uma eterna que desejava salvar uns e condenar outros e outra temporal, revelada no Evangelho, a saber, a salvação de todos. Um deus com dupla vontade ou dupla personalidade, foi o que os predestinacionistas arquitetaram imolando a perfeição da deidade a suas opiniõezinhas. Lutero e Calvino limitaram-se a reproduzir esta tradição já humana, já blasfema e em apresentar Jesus como uma espécie de ator cujo ofício foi iludir ou enganar os pobre seres humanos.
A propósito daquela outra passagem em que o apóstolo declara:
"Efetuai a vossa salvação com temor e tremor."
Lutero assim se exprime> O apóstolo falar como quem quer dizer: Se fosse possivel que operasseis vossa salvação, mas não o é.
Ou seja o apóstolo, a exemplo de Jesus, está a brincar conosco, a gracejar... é a jocosidade de Jesus, a jocosidade de Paulo...
Nós porém, que encaramos tanto Paulo quanto Jesus com a maior seriedade afirmamos que o homem é verdadeiramente livre e capaz de colaborar com o plano de Deus.

Celso: Logo não afirmais que sois os únicos eleitos ou predestinados?

Theo.: Jamais afirmamos semelhante asneira eu vos asseguro, a pregação apostólica não contem tal ensinamento. Os judeus exaltam-se acima dos demais, nós nos colocamos a serviço de todos os homens com o intuito de beneficia-los.

Celso: Então porque vosso deus não se dignou a enviar emissários a gentilidade?

Theo.: O ensinamento de que deus limitou-se a enviar emissários apenas aos hebreus na qualidade de profetas é novo e falso.
A Igreja Ortodoxa afirma e reconhece que Deus enviou emissários a todos os povos e nações da terra.
Paulo classifica Epimênides como profeta dos gregos.
Justino aplicou esta designação a Platão.
Os primeiros cristãos reuniram em onze livros os testemunhos dos oráculos sibilinos a respeito da Enarnação do Senhor.
Clemente de Alexandria apresentou os filosofos monoteistas e espiritualistas como precursores do Reino e Eusébio de Cesaréia escreveu um livro inteiro com tais oráculos e vaticínos concedidos aos pagãos sob o título de 'Preparação Evangélica'.
Origenes não foi doutro parecer...
Temos conhecimentos de um profecia de Virgilio. Cícero, Tácito e Suetônio referem-se aos mesmos vatícinios.
Quanto as demais culturas há uma imensa gama de elementos no "Ramo dourado' de Frazer.
O Cristo foi oferecido sincera e liberalmente a todos os homens que desejam viver santa e retamente.