terça-feira, 5 de julho de 2011

Dialogo III entre o Cristão e o pagão

Celso: Ouvi dizer que pela fé vos salvais em vossos pecados enquanto que nós outros, mesmo sendo virtuosos haveremos de ser eternamente punidos por vosso Deus.

Theo.: A ortodoxia ensina que somente aqueles que observam a Lei de Jesus

Cristo - que é uma lei de santidade - teem acesso a ele e que tantos quantos dão mostras de amar o próximo como a si mesmos são assistidos pela graça divina e celestial.

Celso: Logo não é verdade que a graça seja comunicada aos homens exclusivamente por via sacramental?

Theo.: Tal exclusividade não existe. Nem a igreja visivel nem os sacramentos foram instituidos com o intuito de restringir o acesso a graça, mas com o intuito de garanti-lo.

Celso: Explica-me isso.

Theo.: Nós cremos que por virtude da Encarnação do Senhor todos os homens de boa vontade - que desejam evitar o vício e praticar a virtude - teem acesso imediato a divina graça que a ninguém desampara, abandona, despreza, regeita ou deixa de assistir. A Igreja visivel foi estabelecida com o intuito de orientar a aplicação da graça e os sacramentos com o objetivo de garantir sua produção quando recebidos com as disposições necessárias para tanto.

Celso: Então porque afirmais a excelência dos sacramentos?

Theo.: A excelência dos santos sacramentos consiste em serem eles sinais visíveis estabelecidos pelo Senhor Jesus Cristo em relação direta com o mistério de sua encarnação. São pois como memoriais da encarnação do Senhor e através dos quais ela nos fecunda e vivifica.
Por outro lado sua estrutura intima e os símbolos místicos de que estão revestidos atuam sobre os sentidos e a afetividade do homem tendo por objetivo consolidar as disposições naturais da alma que são responsáveis pelo bom emprego e aproveitamento da graça criada e pelo aumento ou otimização da graça incriada. Enquanto sinais de Jesus Cristo eles sustem nossa fé, intensificam nosso amor e encaminham nossa esperança para a posse.

Celso: Neste caso o cristão bem poderia despreza-los?

Theo.: Os cristãos mais simples talvez até possam despreza-los sem qualquer culpa ou risco. Os pagãos com mais razão ainda podem faze-lo na medida em que ignoram por completo a economia sacramental... e onde há simplicidade ou ignorância não há espaço para a liberdade, a responsabilidade e a malignidade.
Outro é o caso daqueles que estudam atentamente nossos Evangelhos e as Cartas dos apóstolos bem como a tradição eclesiástica.
Tendo consciência de que os sacramentos foram verdadeiramente instituidos por Cristo tendo em vista nosso aperfeiçoamento espiritual tal gênero de pessoas não pode despreza-los sem mostrar certo atrevimento ou imprudência.
Tudo quanto foi observado pelos apóstolos e estabelecido por Cristo Jesus deve ser reverenciado como instituição sagrada, divina e imutável.
Pelo simples fato de que menosprezar uma construção implica em menosprezar aquele que a edificou.
Sendo Jesus o instituidor e fiador de todos os sacramentos, despreza-los implica em desprezar o próprio Jesus que como diz o Hino 'Faz tudo bem'.
Se Jesus faz tudo bem todos os sacramentos são bons e salutares.
Jesus sendo Deus, nada fez de inutil ou ocioso.
Devemos valorizar até a adoração tudo quanto foi decretado por ele em conexão com sua pessoa divina e adorável.
Celso: Portanto há um gênero de pessoas que pode sofrer algum dano caso regeite os tais sacramentos.

Theo.: Os intelectuais e líderes das organizações não apostólicas que obedecendo a tradições e preceitos puramente humanos, a abstrações metafísicas, a especulações teológicas, etc encontram-se em estado de oposição face a vontade de Cristo e seu plano de amor para a humanidade, donde se segue que não podem estar em comunhão com ele e na unidade dele. Não pode estar em Jesus aquele que resite volutariamente a seus ensinamentos e nem Jesus pode estar nele. Se regeitam conscientemente os sacramentos apartam-se de Jesus Cristo e morrem espiritualmente como ramos cortados a videira verdadeira.
Por isso todo aquele que exerce juizo sobre o assunto deve ser excrupuloso, eliminar toda dúvida e examinar muito bem sua consciência ao invés de buscar vantagens de ordem temporal ou a glória que se recebe dos homens.

Celso: Logo acreditas que teu Senhor é ofendido por aqueles que regeitam seus sacramentos e suas doutrinas?

Theo.: Caso meu Deus pudesse ser atingido ou ofendido pelo homem seria demasiado pequenino...
Seres como nós limitados pelo tempo, pelo espaço, pela ignorância... são certamente influenciados, impressionados e afetados por ações externas a si mesmos, pois não sabem que resultados serão produzidos por tais ações.
Deus sendo eterno e infinito, é onisciente e onipotente e sendo onisciente e onipotente é verdadeiramente inatingivel e impassivel.
Afinal estabeleceu as causas dos fenômenos contingentes, fixou as leis que rejem o universo e tudo dipoz ao fim que desejou e cuja concretização de antemão conheceu desde toda eternidade. Queremos dizer que jamais ouve ignorância, mistério, hesitação ou temor da parte dele.
Nosso Deus, como assevera Arnóbio, jamais se entristece ou se alegra, se irrita ou se aplaca...
Nada pode aumentar ou diminuir sua beatitude ou acrescentar-lhe algo, tendo em vista sua absoluta perfeição.

Celso: Se o erro, a rebelião e a heresia não incomodam vosso Deus porque vos incomodais tanto com elas?

Theo.: De fato não deveriamos mostrar excessivo incomodo face ao que não afeta nem incomoda nosso Deus ou temer supersticiosamente o triunfo do mal...
Nós no entanto não somos deuses, mas homens mortais e limitados.
Acontece que o resultado antecipadamente conhecido por Deus, implica em causas segundas, como a liberdade, a vontade, o empenho e a dedicação dos seres humanos, tendo em vista sua consecussão. Certamente nosso empenho e engajamento foi considerado por Deus como fator necessário.
Podendo muito bem nossa oposição equilibrada, humana e caridosa ao erro atuar - somada com a oposição dos demais - tendo em vista o triunfo definitivo da virtude e o aperfeiçoamento de todos os seres humanos desejados e previstos por Deus desde toda eternidade mas não causados diretamente por ele.

Segundo cremos o amor ao erro, a rebelião consciente, o vício, o mal, o pecado, a separação de Deus, causam dano apenas a própria pessoa ou seja ao individuo em questão. Nós no entanto devemos aspirar pelo bem do próximo o que implica em sua conexão com a virtude e a verdade.

Celso: Logo não odiais os heréticos?

Theo.: Bulgakoff definiu magistralmente o ortodoxo como aquele que exerce o amor.
Segundo a lei cristã apenas o mal merece ser odiado pelo homem.
Mal que segundo ensina Agostinho não é substância produzida por Deus - Deus sendo bom produziu apenas criaturas semelhantes a sí ou seja boas tendo em vista o fim a que foram dispostas - e que sendo assim possa manter-se por si mesma, mas apenas e tão somente um desvio da vontade. Enquanto entidade material e criada o mal não existe.
O homem porém foi concebido e firmado por Deus, donde se segue que sua natureza é boa e que não pode ser odiada. Se o pecador tem algo de odioso é apenas seu pecado e não o seu ser.
Daí o preceito: Odeia o pecado mas ama o pecador.
Pois todo pecador é mutável e corrigivel por força mesma de sua vontade.
A heresia e o erro enquanto teorias contrárias a realidade decretada por Deus odiamos, ao que errou procuramos esclarece com toda paciência, amor e carinho, ou viver em paz com ele.

Celso: E no entanto vosso Deus permite que a heresia exista.

Theo.: Deus permite que certos males existam apenas porque deles resulta um bem mais intenso.
Convém que hajam heresias para que valorizemos ainda mais a nossa fé, estude-mo-la e busquemos compreende-la tanto mais profunda e amplamente crescendo no conhecimento de Deus e de seu plano.
Convém que hajam heresias para que a pregação das verdades seja equilibrada e não parcial ou defeituosa.
Convém que experimentemos a heresia, passemos por ela e dela soframos para aquilatar melhor a fruição da verdade plena.
Eis porque dizia o Bispo de Hipona: Não desejo que os heréticos sejam torturados e expostos a qualquer sofrimento porque tal e qual sofrem eles sofri eu em demanda pela verdade.
Não existe punição maior para o ser racional do que ignorar a verdade.
A cegueira para o cego, a ignorância para o ignorante, a maldade para o ímpio.
Quando o saber e a virtude forem adquiridos a fruição será maior e o gozo ainda mais intenso.
Tal o ato de beber água após um largo período de sêde.

Celso: Parece-me que admitis que Deus não só permite como deseja o mal e o pecado tal e qual Calvino, Zanchius, Turretini, etc

Theo.: Acompanha este raciocínio> Grosso modo estado ou relação alguma poderia existir sem que Deus mesmo quizesse que viesse a existir.
No entanto querer que algo exista não é opera-lo ou produzi-lo. 
Admitamos que Deus queira alguns tipos de males e pecados enquanto fenômenos provisórios produzidos pela liberdade que é um bem em si mesmo.
Neste caso podemos dizer que Deus não desejou apenas a liberdade, mas o aparecimento do mal no mundo tendo em vista combate-lo e erradica-lo, atraindo a sí todos os seres livres que se encontravam livremente apartados deles sem violar suas liberdades, é um cenário grandioso.
Pois Deus não desejou produzir ele mesmo tais males e pecados mas que fossem produzidos por causas secundárias.
Se considerarmos que existe apenas esta vida e o plano material, os males que se sucedem aqui seriam de fato tragédias irreparáveis.
Consideremos porém que exista um outro mundo, espiritual e invisivel, cuja ação erradicara todos os males sem violar a liberdade.
Neste caso o mal não seria apenas episódico, mas até mesmo educativo... pela prática do mal cada um aprenderá a detestar o mal e buscará satisfazer-se do bem e da virtude em sintônia com a vontade de Deus.
O erro dos sectários não é declarar que Deus deseja o mal, mas sim declarar que os males desejados por Deus serão perpetuados ou eternizados para todo sempre.
Se o termo de todos os males e pecados é um castigo sem fim, a existência deles não se justifica pois subsistira em Deus - que é infinito - como um quisto ou célula cancerigena.
Nós no entanto cremos que o bem triunfará não pela eternização do castigo ou pela vingança (seria sadismo) mas pela educação e a regeneração da vontade e a aniquilação do mal.
A perspectiva é totalmente distinta.
Deus não produz diretamente qualquer tipo de mal ou pecado, mas como um criador de cobras extrai delas o veneno necessário para produzir vacinas, Deus quiz que a liberdade produzisse o mal, para manipulando o mal dar-lhe um antidoto e destrui-lo para sempre.

Celso: Explica-me agora como vosso Deus fazendo-se homem mortal não deixa de ser imutável?

Theo.: Não muda porque sua encarnação não foi decretada a posteriori ou de improviso.
Não muda porque não deixou de ser o que era.
Não muda porque assumiu algo que ele mesmo havia concebido e trazido a existência.
Não muda porque suas relações externas e mutáveis com os seres criados e mutáveis obedeceram a um plano eterno e imutável.
Pois se admitimos que ele procedeu no tempo conforme a ocasião, asseveramos que conheceu e desejou a ocasião e a adaptação desde toda eternidade.
Quanto ao conhecimento experiencial pelo qual associado a sua divindade o fez aprender, comer, beber, sofrer e morreu é correto dizer que nada lhe acrescentou afinal como poderia saber algo novo aquele que criou as sensações e desejou a relação da ingorância tendo em vista a relação do aprendizado.

Celso.: Um dos vossos no entanto asseverou que Deus aniquilou-se a si mesmo (Kenosis) abdicando de suas qualidades e atributos divinos.

Theo.: Neste passo devemos compreender que Deus desejou não fazer uso de seus atributos ou manifestar sua glória e não que abdicou de seus atributos ou ficou sem sua glória sofrendo mudança interna em seu ser divino.

Celso: Meu amigo pense bem: como poderia Deus encarnar-se?

Theo.: Deus só não poderia encarnar-se caso não existisse.
Pois existindo é onipotente.
Logo, afirmar que ele não possa executar algo é cair em contradição de termos, a menos que se trate de produzir o mal ou o pecado.
Acontece que o homem nem é mal em si mesmo e tampouco um pecado, mas uma obra boa.
Donde se segue que Deus pode encarnar-se.

Celso: Vosso Deus poderia não encarnar-se?

Theo.: Caso não quizesse encarnar-se ou não teria produzido os homens ou te-los-ia produzido sob qualquer outra forma, no entanto como quiz produzi-los e produzi-los desta forma, que deve ser a melhor forma de existência para eles, é certo que desde de toda eternidade desejou encarnar-se e que não poderia não encarnar-se. A menos que seu Ser pudesse ser diferente do que é, mas não consideramos esta possibilidade uma vez que atribuimos a si a suma perfeição ou seja a perfeição em seu gráu máximo e para além de toda compreenção humana e limitada.
Não podemos compreender a Deus pois seriamos deuses.
Somos limitados e ele ilimitado.

Celso: Não é contraditório dizer que vosso Deus é Onipotente e admitir que não pode certas coisas?

Theo.: O erro está em apresentar-se Deus como um poder cego e caprichoso, a força como padrão supremo e a Onipotência como atributo mais importante, quando na verdade a força está a serviço da sabedoria e a onipotência do entendimento e da virtude. Donde se segue que Deus não poderia não desejar produzir diretamente o mal e o pecado e produzi-los, seria contraditório, comportaria uma alteração interna, logo não seria nem perfeito nem divino.
Noutras palavras caso seu poder contrariasse seu querer ou houvessem duas vontades opostas em Deus ele não seria perfeito e não seria Deus. Donde se segue que sua onipotência deve estar a serviço de sua vontade imutavel e de sua perfeição.
Resta concluir que Deus não pode nem poderia fazer o mal, a menos que sua natureza pudesse ser diferente do que é, mas...
Dizemos pois que Deus é onipotente porque pode tudo quanto quer. O que ele certamente não pode é querer o mal, pois sua vontade esta eternamente fixada no bem.

Celso: Ouvi dizer que o imperador Constantino desejando ser perdoado de seus crimes e ficar isento de toda responsabilidade e tendo sido repudiado pelos sacerdotes pagãos, abraçou o Cristianismo para que seus pecados fossem apagados pela água do batismo na virtude do sangue de Cristo e que muitos criminosos e patifes da antiguidade procederam do mesmo modo, protelando o sacramento para o leito de morte.
Não se dá o mesmo atualmente quando vossos padres perdoam qualquer pecado em troca duma simples confisão ou de algumas preces, havendo mesmo quem creia poder ser perdoado de qualquer pecado após fazer uma simples invocação entre as quatro paredes de seu quarto?

Theo.: É verdade que a partir do século IV desta era relachou-se a disciplina Batismal até a abolição da penitência que precedia este Sacramento.
Disto resultou a compreenssão errônea segundo a qual o sangue ou a água apagam magicamente os pecados do batizando sem qualquer tipo de reparação ou satisfação, o que por sinal esta de acordo com a doutrina da salvação fácil ou ritualista.
No começo porém não era assim como podemos ler na Tradição Apostólica de S Hipólito.
A abolição da penitência pré batismal consumou-se com a generalização do batismo infantil.
Já a abolição dos canônes penitenciais pertinente a reparação dos danos ou prejuizos causados ao outro ou ao corpo social, foi abolida a partir do século IX, tanto no Ocidente quanto no Oriente, aqui devido as invasões bárbaras e a elaboração da falsa doutrina das indulgências por parte da cúria romana e lá devido a presença do islan e o perigo da apostasia.
Desde então o perdão passou a ser concedido muito facilmente e disto resultou mais tarde a doutrina da salvação pela fé somente, que na prática...
Foi sem sombra de dúvida a maior tragédia que acometeu as santas igrejas de Deus, plantadas pelos abençoados apóstolos.
Pois deu lugar a idéia fetichista e imoral de salvação, já por meio do ritualismo vigente na ortodoxia e no romanismo, já por meio do solifideismo vigente na comunhão protestante.
É necessário sofrer e chorar por isto.

Celso: Um de meus amigos afirmou que o que chamais de penitência ou reparação dos danos não existe, pois segundo ele o bom ladrão teria se salvado sem fazer qualquer tipo de reparação ou penitência salvando-se apenas pela fé ou pela graça.

Theo.: Que Dimas tenha obtido o paraíso sem a penitência eclesiástica concedo.
Que tenha se salvado sem qualquer tipo de obra, reparação ou penitência, nego.

Celso.: Mas Theo, que tipo de penitência teria feito ele?

Theo.: Aceitado resignadamente e como justos os sofrimentos de que padecia no alto de sua cruz. Pois tendo blasfemado a princípio como o outro ladrão, após ter reconhecido a natureza divina e a missão de Jesus Cristo cessou de Blasfemar conformou-se com sua sorte, teve as pernas quebradas e agonizou durante várias horas até adormecer em paz.
Jesus prometeu-lhe o paraíso justamente porque viu e conheceu que ele agiria assim.
Ou achais que é pouca coisa o suplício da cruz?
Na verdade Dimas cumpriu uma grande e severa penitência.

Celso: Que significa então o perdão dos pecados?

Theo: Significa que todo aquele que ignorava a lei de Jesus Cristo levando uma vida ímpia e criminosa, podia vir a ser perdoado após cumprir um, dois ou no máximo três anos de penitência - pré batismal - e ser batizado, por privilegio de Cristo (em memória de seu sangue, sua cruz e seu amor) sem que lhe restasse qualquer tipo de reparação ou penitência e com a condição de que jamais tornaria a pecar novamente.
Do contrário, para aqueles que pecavam gravemente após o batismo ou seja na qualidade de Cristãos, a penitência era muito mais severa e rigorosa.
Saudosos tempos aqueles em que os homens eram obrigados pela religião Santa a reparar os danos e os prejuizos com que haviam molestado seus semelhantes.

Celso: Percebo que o amigo não acredita que os sacramentos esgotem a si mesmos mesmos enquanto fins...

Theo.: Grosso modo nosso fim último é a felicidade pela posse de Deus.
Tal posse no entanto esta condicionada ao amor fraterno, este fundamentado na graça, e esta ordinariamente produzida ou otimizada pelos sacramentos.
Donde se infere que o fim imediato dos sacramentos é a graça, a qual por sua vez esta posta para o serviço fraterno.
Cumpre reconhecer pois a funcionalidade dos sacramentos, inclusive da Eucaristia na qual nos alimentamos do Cristo no pão para que melhor sirvamos o Cristo no irmão.
Apresentar os sacramentos como fins que se esgotam em si mesmos é ums distorção da economia sacramental que não corresponde a mente de Cristo.

Celso: Até onde sei a Igreja ensina que o fim último da economia Cristã é a glória de Deus, ou como diz o apóstolo 'o louvor da sua glória' ou o reconhecimento de Deus por parte de todas as criaturas.

Theo.: Este ensinamento é tendencioso ou esta mal colocado.
Ao que tudo indica auto-comunicar-se e tornar sumamente felizes todos os seres criados e dotados de inteligência parece corresponder a uma necessidade intrinseca do Criador.
Isto quer dizer que Deus não poderia ter deixado de criar e de manifestar-se aos seres criados enquantoseres criados.
Neste sentido é correto dizer que Deus precisa das criaturas ou seja precisa delas para torna-las felizes.
Disto decorre que nós temos necessidade de louvar e bendizer a Deus.
Deus no entanto não tem necessidade de nossos louvores ou bajulações.
O que ele parece desejar de fato é que ergamos nossos pensamentos a ele com o intuito de amar nossos semelhantes.
Deus não é um ser carente de afeto que precise atrair a atenção das pessoas, auto-afirmar-se, ser aceito ou aplaudido, impressionar, etc
A tônica divina parece ser o amor voltado para o próximo numa comunhão de vontade e de afeto.

Celso: E aqueles que regeitarem esta auto comunicação divina?

Theo.: Na dimenssão material, temporal e espacial em que esta situado o ser humano é caracterizado pela passagem de um estado para outro ou seja pela mutabilidade.
Nós ortodoxos não acreditamos que o homem impenitente seja posto logo após a morte, imediatamente na eternidade para sua desgraça pois não encaramos Deus como um Pai repressor ou como um fiscal ou policial rabugento que deseje punir seus desafetos e tirar a desforra, mas como um Pai que ama seus filhos e deseja salva-los.
Por isso regeitamos como falsa a doutrina do juizo particular em termos de fixidez e imortalidade a qual para nós é desumana, mesquinha e cruel.
Eis porque rezamos por todos os que adormeceram em Cristo Jesus para o corpo mortal pedindo a conversão e a purificação para os impenitentes e uma boa e feliz ressurreição para os Santos amigos de Deus.

Celso: Logo acreditais que o homem recobrará este mesmo corpo que se desintegrará após a morte?

Theo.: Será o mesmo corpo sim, não quanto aos elementos constituitivos, atomos ou células, mas sim o mesmo corpo 'pro forma' ou seja segundo seu código genético ou DNA,
A clonagem nos ajuda a compreender perfeitamente o processo da ressurreição.
O homem terá um corpo, alias o mesmo corpo que teve em vida, mas não com aqueles mesmíssimos elementos materiais que já nesta vida são instaveis e indeterminados.
Que Deus tenha poder e capacidade para executar este decreto é ponto pacífico pois é Onipotente e a reunião do espírito e da alma a forma corpórea em que viveu, agiu e santificou-se é um bem.