quinta-feira, 7 de julho de 2011

Dialogo sobre o ato criador e as relações de Deus com o universo criado.

Salústio = Bispo Ortodoxo
Lúcio = pensador agnósta





Lúcio: Devido a solidez de tuas alegações sou forçado a admitir que a probabilidade de que Deus exista é bem maior do que a probabilidade de que Deus inexista.
Talvez a doutrina do acaso ou do acidentalismo exija mais fé de seus aderentes do que a doutrina do teísmo.
Talvez a aposta na divindade seja a mais acertada e prudente.
E no entanto vós cristãos sois incapazes de conciliar a infinitude de Deus com vossa pregação, pois viveis dizendo: Vai com Deus ou ainda Deus está aqui ou acolá...

Salústio: De fato as expressões 'Vai com Deus' ou 'Deus está ali ou acola' merecem ser consideradas como equivocadas ou temerárias na medida em que limitam a natureza ilimitada e infinita.

Lúcio: Não seria mais acertado dizer que Deus é o lugar ou o espaço do mundo e que tudo esta físicamente nele?

Salústio: Sou obrigado a concordar contigo e a afirmar que tudo esta em Deus e que a natureza de Deus envolve e penetra todos os seres criados, exceto as entidades moralmente livres cujas vontades são opostas a sua.
O coração do pecador ou do ímpio é o único espaço do universo que não é preenchido pelo Ser divino.

Lúcio: Como podes admitir que o universo esta em Deus sem admitir que seja parte de Deus?

Salústio: Pela mesmo motivo que me leva a admitir que estas dentro desta casa sem que faças parte dela.

Lúcio: Acontece que não fui produzido por esta casa...

Salústio: Tampouco as casas produzidas pelos homens tornam-se partes deles, embora venham a ser de algum modo humanas, ao menos quanto sua origem.
Assim, sendo humanas sob determinado aspecto, não se convertem em parte daqueles que as edificam.

Lúcio: Negais portanto que o universo faça parte de Deus?

Salústio: Não é parte de Deus porque não tendo existência anterior ao ato criador passou a existir em função dele, e passando a existir foi criado, e sendo criado não é eterno, e não sendo eterno, mas temporal, não pode ser considerado como parte de Deus.
Por outro lado Deus é imaterial, simples e insento de composição.
Logo o universo, mesmo estando em Deus não é parte de Deus.

Lúcio: Talvez por isso menosprezeis o universo e gostais de apresenta-lo como em oposição a vosso Deus.

Salústio: De fato os neo maniqueus ousam apresentar o mundo físico ou natural como inimigo de Deus, os ortodoxos no entanto não pensam assim.
Quando nossos apóstolos referem-se ao mundo como inimigo de Deus, querem dizer o mundo moral, o mundo das entidades livres, más e sujeitas ao pecado. Este 'mundo' é o mundo que se opõe a Deus e sua santa vontade, não o mundo material ou físico cujas sábias leis foram decretadas e são mantidas por Deus.
Sem admitir que o mundo criado faça parte de Deus, podemos admitir que sob certo aspecto (quanto a sua localização e ocupação) seja divino e posto para uma comunhão ainda mais intensa com seu artifice.

Lúcio: Porque então, alguns dos vossos refiram-se a Deus como transcendência absoluta e apartada do mundo sensivel?

Salústio: Dentre os nossos nem todos assimilam ou compreendem bem a instituição divina.
Pois para compreende-la deveriam ser instruidos em todo conhecimento natural e profano.
Sabemos no entanto que as massas não recebem uma educação de qualidade, sem a qual é impossivel aprofundar-se nos mistérios divinos.
As massas incultas e iletradas permanecem sempre na superfície da fé, ingerindo apenas o leite da simplicidade.
O importante no entanto é que creiam segundo a mendida de sua capacidade e sobretudo que vivam os princípios e valores impostos pelo Evangelho.
Viver o Evangelho é o quanto basta, imitar a Jesus Cristo é o essencial, amar e servir o próximo é o suficiente, o conhecimento vem por acréscimo aqueles que se dedicam aos estudos no campo das humanidades.
Não posso negar que tal categoria de crentes - imperfeita - tenha o péssimo costume de referir-se a Deus tal e qual os hebreus e maometamos ou seja apresentando-o como transcendencia absoluta separada do mundo.
Apresentação que é falsa sob duplo aspecto: da criação mesma e da encarnação.
Da criação porque caso a transcendência fosse absoluta e Deus não estivesse de alguma forma presente no mundo, poderiamos localiza-lo, situa-lo e portanto limita-lo fora do mundo... o que como vimos contradiz sua natureza ilimitada e infinita.
Donde somos levados a afirmar que Deus é transcendência presente na imanência e em comunhão com ela.
Há pois uma interação entre Deus e o mundo pela qual Deus penetra, envolve, mantem e encaminha todos os seres criados envolvendo-se com eles.
Portanto mesmo sem identificar-se com o mundo Deus não se encontra apartado do mundo, antes o mundo se encontra nele, como que mergulhado em seu ser e penetrado por ele.

Lúcio: Da-me um exemplo.

Salústio: exemplos deste tipo são sempre inadequados e imperfeitos, comparemos porém a presença de Deus no mundo a presença de água numa esponja de espuma.

Lúcio: Seria o caso de dizer que vosso Deus dialoga com o mundo?

Salústio: Não só dialoga com ele como dialoga de maneira cada vez mais intima e intensa e o cumulo desta intensidade é o mistério da Encarnação pelo qual Deus mesmo se faz imanente.

Lúcio: Sendo assim o Deus dos cristãos não é transcendencia pura?

Salústio: O Deus não encarnado dos judeus e muçulmanos, entidade que não se fez carne, que não desejou associar-se a natureza humana, que não se tornou um de nós é e deve ser apresentado como transcendência pura e absoluta, assentado em seu trono acima das nuvens e apartado de suas criaturas.
O Deus Cristão é transcendência imanente ou transcendente/imanente...

Lúcio: Não ensinam os vossos que após a ressurreição havereis de ser transportados aos céus onde vivereis eternamente enquanto este nosso mundo material será destruido?

Salústio: De fato, alguns dos nossos influenciados pelo catastrofismo judaico, pelo platonismo, pelo neoplatonismo e por todas as formas desbragadas de espiritualismos descarnados ensinam que após o último dia os Santos ressurretos serão transportados as regiões celestiais em que viverão perpetuamente na companhia de Jesus Cristo.
Chegam inclusive a alegar que a natureza deste nosso mundo, sendo corruptivel, esta disposta para a corrupção.
Cremos no entanto que o destino deste mundo é receber o Cristo ressuscitado e abrigar os justos que aqui viverão eternamente com ele na 'Nova Jerusalém'.
Regeitamos pois como alienigêna a crença segundo a qual os eleitos e santos glorificados haverão de habitar perpetuamente em outro mundo ou dimensão que não seja a nossa.
O último dia será dia de Bodas em que o cordeiro transformará esta terra, tornando-a incorruptivel com o objetivo de abrigar sua esposa, a igreja triunfante e coroada.

Lúcio: Logo vossa esperança é para a terra?

Salústio: Nossa esperança última e perfeita é habitar com Nosso Salvador e Mestre na terra transformada.
Nós cremos que o cristo retornará visivelmente a este mundo não com o objetivo de abandona-lo e destrui-lo, mas com o objetivo de transforma-lo.
Nós não cremos que ele regressará pára partir de novo, como uma espécie de vai e vem, mas que regressará para permanecer eternamente conosco e nós com ele.
Supor que qualquer entidade material venha a ser destruida é atribuir-lhe malignidade ou defeito, logo maniqueismo.

Lúcio: Ouvi um dos vossos dizer que o prêmio dos crentes será ver ou contemplar o próprio Deus. Como será possivel que vejais a Deus se Deus sendo imaterial é invisivel?

Salústio: De fato há uma crença arraigada nos mais ignorantes e preponderante entre as massas incultas segundo a qual, os santos remidos serão capazes de ver a Deus como eu mesmo estou a ver-te respeitável Lúcio.
É o que demoninam prêmio da visão ou visão beatífica e em sua cegueira e obstinação acreditam que a deidade espiritual, imaterial, simples e invisivel tornar-se-a visivel para eles.
E se não concordais com semelhante desproposito eles gritam e vos acusam de heresia.
Tudo quanto podemos dizer a respeito é que a deidade invisivel ja se fez visivel para os mortais ao Encarnar-se e assumir uma natureza semelhante a nossa na pessoa de Jesus Cristo.
Portanto o objeto de nossa contemplação após o derradeiro dia será não a deidade em si mesma, que é invisivel, mas a deidade no complemento do corpo que veio a assumir no tempo ou seja o corpo ressuscitado e glorificado de Nosso Senhor Jesus Cristo com o qual ele retornará para instalar-se neste mundo e torna-lo glorioso.
Este será o objeto da contemplação reservada aos santos remidos, eles contemplarão o corpo ou a natureza humana de seu Deus ou seja a pessoa de Jesus Cristo e não a deidade em si mesma que não pode ser contemplada por ser imaterial e simples.

Lúcio: Então como ousais afirmar que sereis divinizados?

Salústio: A contemplação sensivel do corpo do Senhor será adicionado um conhecimento perfeito e pleno sobre sua pessoa.
Em situação ou condição diferente desta seremos capazes de compreender o que seja Deus pela habitação de Deus em nós e uma comunhão perfeita com ele a semelhança de uma fusão.
Seremos iguais a Deus porque saberemos o que ele é.
Mistério que ainda não nos foi descortinado mas que designamos como theosis ou divinização.
Por meio da Theósis todos os seres separados pela vontade regressarão ao Uno.
O mal será superado, o pecado destruido, a imperfeição ultrapassada e os seres dispersos congregados sem que haja qualquer oposição ou dissonância.
Deus será tudo em todos e nós uma unidade nele.