domingo, 24 de julho de 2011

Ecumenismo e infernismo: uma associação estranha. Convicção e caridade: uma associação divina





Não sou ecumênico, jamais me apresentei como ecumênico, sou até anti-ecumênico se compreendemos ecumenismo em sua acepção corrente: que a dissidência face a divina revelação possui tanto valor quanto a verdade. Mais a frente tornarei a este ponto.

Odeio o papado enquanto falsificação do Cristianismo enquanto instituição histórica (cf Marc Bloch - Apologia da História I) e sinal da entrada de Deus na História.

Odeio os cinco princípios basilares do protestantismo ou cinco solas pelo mesmo e exato motivo.

Não acredito que as teorias acima condizem com a vontade eterna de Deus Nosso Senhor e com seus planos de amor para a grande família humana.

Por outro lado não sou nem fariseu, nem exclusivista, nem infernista. E posso vangloriar-me de trilhar a mesma senda de Justino, Irineu, Clemente, Origenes, Eusébio, Gregório de Nissa, Gregório Teólogo, Crisóstomo, etc. Ousando arrolar entre as testemunhas mesmo Tertuliano (o de Contra Praxeas) e Agostinho, se bem que este fosse um tanto obscuro quanto a salvação dos pagãos não atingidos pela palavra do Livro Sagrado.

Mas eu creio no 'Logos Spermatikos' que ilumina, guia, purifica e conduz todo homem de boa vontade segundo a Econômia da Encarnação.

Não sou fariseu porque o mandamento supremo proibe-me de odiar, julgar ou condenar meus semelhantes - cujo intimo desconheço - cuja compreenssão da fé destoa da minha. Determinou o Senhor Cristo que amassemos todos os seres humanos e criaturas mortais, inclusive nossos opositores, inimigos, adversários.

Todos devem ser e são credores de nosso amor e respeito, embora os arrogantes e despudorados mereçam ter suas teorias impugnadas com todo rigor tendo em vista a glória da graça da verdade.

Não sou exclusivista, nem sectário, nem donatista e sabem todos o quanto temos denunciado o donatismo como uma erva perniciosa e má.

Creio que os Santos e divinos mistérios, sinais sensiveis da graça de Cristo Jesus e memoriais de sua Encarnação são veiculos ordinários da graça do Salvador para aqueles que estão já na plenitude da verdade divina e que aceitam docilmente o jugo de Nosso Senhor. Nego porém que sejam eles um restritivo ou o único meio para que os homens obtenham acesso a divindade e creio que todo homem sincero, bom, devotado e coerente (de boa vontade) tenha acesso direto e comunhão em Jesus Cristo.

Destarte encaramos a ingenuidade, a sinceridade, a ignorância, como um sacramento adicional.

Não sou infernista pois não creio na vitória do mal, no triunfo do pecado, na eternização de tudo quanto é oposto a vontade do Deus Perfeito.

Enquanto os Cristianismos ocidentais arvoram o dogma da condenação eterna, o Católico Ortodoxo é livre para admitir e profesar a doutrina - tanto mais elevada - da restauração de todos os seres em Cristo Jesus, vitória perfeita do bem, da virtude e da santidade.

O que me choca é justamente isto.

Que o Cristianismo ocidental seja a um tempo ecumênico e infernista, a excessão da Santa Igreja Anglicana, na qual ao menos uma parcela é animada por um espírito de Catolicidade e de Ortodoxia.

Muito temos que falar, louvar e apaludir a esta Igreja Anglicana sob cujo lábaro esperamos ver unidos todos os ocidentais de boa vontade que de algum modo sentem-se incomodados face ao elemento 'cultural' ´que comumente acompanha a fé Ortodoxa. Retomarei o anglicanismo noutro artigo...

No entanto a imensa maioria das organizações religiosas 'ortodoxas' - excetuo pois o unitarismo, que os protestantes em geral sequer encaram como Cristão ou protestante por arrenegar o dogma da Divindade do Verbo - do ocidente (papista, luterana, calvinista, metodista, batista, etc) sustentam simultaneamente a validade do ecumenismo - numa perspectiva que muitas vezes não foge, antes denota, relativismo epistemologico - e do infernismo.

É interesante acrescentar que se os teólogos (liberais da Europa) que não acreditam nem no Livro sagrado (digo Evangelho), nem da Encarnação, nem em igreja, nem em coisa alguma... as ovelhas que creem na 'Bíblia', nos Solas, na inspiração verbal e linear, na Encarnação, etc admitem comumente o dogma das penas eternas. Nem estou ciente de que tantos quantos apresentam-se como ecumenicos rechaçem - numa linha de coerência - o infernismo...

No entanto como conciliar o relativismo crasso no plano doutrinal, o sincretismo reinante, o confusionismo estabelecido com a condenação dos que pensam ou creem doutra forma?

A mim me parece que ao menos parte das instituições religiosas do Ocidente tem apelado a um duplo discurso que não é nem um pouco honesto e saudável. Eu aprecio mais a coerência dos infernistas cujas linguas não conhecem dissimulação, do que o novo evangelho 'escorregadio' e sinuoso...

Como pode o intelectual cristão vinculado a organizações oficialmente infernistas, escandalizar-se face a uma ortodoxia que faculta a seus filhos a possibilidade de professar a RESTAURAÇÃO UNIVERSAL sem sacrificar a Divindade do Filho, a Encarnação e a integralidade da divina revelação? Comporta o liberalismo protestante restauracionismo? Sim comporta e exultamos nele... No entanto este restauracionismo apresentasse frequentemente associado ao ao unitarismo ariano e a um tipo de judaismo, islamisno ou monoteismo transcendente que toca ao deismo crasso ou ao agnosticismo...

Queremos dizer com isto que o protestante - não incluimos os Anglicanos sob o título de protestante - para ser restauracionista deve sacrificar a Encarnação e a divindade do Verbo. Para se ver livre da doutrina infame das penas eternas deve ver-se igualmente livre de Cristo/Deus...

Diante de semelhante miséria, o ortodoxo consciente pode exclamar: Quão bela és fé Ortodoxa!!!

Dizeis: a ortodoxia não é ecumênica.

Dizemos: Não pode ser ecumênica nem deve se-lo no sentido vulgar do relativismo epistemológico sem sacrificar a noção de Revelação Transcendente e encaminhar-se para o abismo em que precipitou-se o protestantismo europeu nos ultimos três séculos...

A Igreja Ortodoxa pode e deve compreender que grande parte dos ocidentais são como que 'ovelhas sem pastor' que buscam servir e honrar Cristo na medida das luzes que possuem. A igreja Ortordoxa não só pode como deve acolher amorosamente os membros e filhos das comunidades religiosas latinas em sua boa fé e boa vontade. Pode de deve colaborar ativamente com elas em se tratando da promoção humana, do serviço fraterno, da justiça social e de tudo quanto diz respeito aos principios e valores legitimamente cristãos referendados pelo Evangelho e pela tradição apostólica.

Há pois um espaço para a ação comum no plano da imanência com o intuito de possibilitar e de implementar a Encarnação total do Cristo e a consumação do Reino neste mundo. Há mesmo espaço para a convivência pacífica e harmôniosa nas oportunidades oferecidas pelo espaço comum... não só pode como deve o ortodoxo prestigiar os cultos e cerimônias de batizado (infantil), matrimônio, enterro das organizações dissidentes de padrão tradicional (ou seja não pentecostal, renovado ou  carismático), pode em circunstâncias anômicas recitar o Pai Nosso com eles.

O que a Igreja não pode nem deve fazer é equiparar sua pregação ou seja o anuncio na boa nova 'entregue uma só vez aos santos'  a pregação das organizações religiosas ocidentais, dizendo que é tudo a mesma coisa ou que possuem o mesmo valor. Isto a igreja não pode nem deve fazer sem trair sordidamente sua missão divina e apostatar. Portanto a Igreja não pode nem deve honrar e prestigiar as autoridades religiosas do ocidente, falar manso com os intelectuais vinculados a tais organizações e renunciar ao seu oficial que é ensinar e esclarecer a tantos quantos aspiram por uma Revelação integral ministrada por um veículo legitimo, confiavel e seguro.

A Igreja Ortodoxa não pode, nem deve, nem quer reconhecer que é uma forma, tipo ou expressão peculiar de cristianismo. A Igreja Ortodoxa jamais poderá admitir que é um mero ramo da instituição Cristã... Não pode admitir que é parte atômica de um Cristianismo dividido em milhares de entidades beligerantes.

Admitir que a perfeita Unidade como vinculo de paz e selo da glória e do poder divino não se encontra nela de modo vivo e real seria conferir aquele que disse: QUE TODOS SEJAM UM OH PAI COMO EU E TU SOMOS UM o ferrete de falso profeta e a conferir a seu reino o cárater de um Reino completamente dividido e caminhando para a fatal destruição segundo o livro sagrado, divino e celestial. Destruição que lavra já numa Europa cada vez mais atéia, materialista e descrente... numa américa saxônica igualmente cada vez mais neopagã... num mundo cada vez mais isento e ignorante de Cristo, de amor, de humanitarismo...

E porque?

Devido a essa Babel de confusão representada pelo exército de seitas, anuncios, pregações, Cristos, batismos, eucaristias, etc

A humanidade esta farta já de tanto sectarismo e o Ocidente faz-se culpado por ele. A humanidade não deseja esse tipo de Cristianismo incerto, que com toda sinceridade do mundo procura, mas que certamente não possui... As pessoas desejam uma pregação clara, objetiva, coerente, que satisfaça sua condição de seres racionais sempre prontos a dar os motivos de sua esperança.

Por isso a Igreja de Deus, herdeira da sucessão sagrada e estirpe dos apóstolos e comendadores do Verbo Encarnado Nosso Bem, não pode associar-se a organizações que tendo sido edificadas pela carne sobre fundamentos de areia, fragmentam-se e combatem-se umas as outras engendrando incredulidade, materialismo e ateismo. A Igreja Ortodoxa tem e deve ter plena consciência de sua origem e missão divinas.

Ela não pode buscar qualquer unidade fora de si, pois a unidade é marca ou distintivo seu.

Fora dela, como no paganismo ante cristão, há fragmentos ou elementos de verdade, dignos de respeito e veneração. Somente ela no entanto esta na posse da integralidade e da plenitude da verdade revelada. Ela sequer condena a existência de seitas dissidentes, pois sabe que 'tudo concorre para o beneficio dos que amam a Deus.' convindo por sinal 'que hajam heresias'. Nem por isso ela se fraterniza com as seitas, pois ela não é nem parte, nem fragmento, nem cisão, nem seita, mas a Igreja de Deus vivedor, esteio e suporte da verdade.

Reconhecemos pois os elementos Cristãos existentes em boa parte das organizações heréticas, os elementos apostólicos presentes na igreja romana, uma certa presença do espírito católico operando em ambas as facções, certos ideiais próximos do ideal ortodoxo. No entanto tais ideais, valores, elementos, etc dignos de todo respeito só encontram sua plena realização na Igreja Ortodoxa.

Por isso a Igreja Ortodoxa não pode disfarçar ou ocultar sua intenção que é a de esclarecer a tantos quantos homens de boa vontade não fazem parte dela e de conduzi-los a plenitude em Cristo. Ela de fato deseja superar, completar e corrigir o anuncio iniciado pelas diversas organizações dissidentes.

Apesar disto ela não exerce um proselitismo ativo no Ocidente. Talvez porque lhe faltem recursos materiais, talvez porque tenha se adaptado as rudes condições que lhe foram impostas pelo Islã. A Igreja Ortodoxa na Ásia tem se limitado a existir o que é um grande desafio para aqueles que de fato conhecem o que seja o islã. E tem se saido bem nestes milênio e meio de resistência, ao cabo dos quais humanamente falando já devia ter desaparecido sem deixar vestigios, tam e qual se sucedeu com as Cristandades do Noroeste da África.

Todos os ortodoxos no entanto veem com grande pesar o feroz proselitismo exercido por papistas e protestantes (ecumênicos) em todo Oriente e a tola pretenssão daqueles que vindos do Oeste pretendem dar lições de Cristianismo aqueles que pertencem as igrejas fundadas pelos próprios apóstolos e que são guardiãs de suas tradições e relíquias. Igrejas que leem as Escrituras nas linguas em que foram escritas - grego e aramaico - e não em traduções já defeituosas, já capiciosas... Igrejas que conheceram o martírio sob a sinagoga, sob o império Roumi, sob o islã...

Esta petulância de introduzir costumes, estruturas e formas típicos da cultura Ocidental contemporânea nas terras mesmas em quen viveram o Verbo Encarnado e seus apóstolos, corta o coração de qualquer cristão ortodoxo.

É sumamente triste e vergonhoso ver aqueles que teem sustentado durante séculos a divindade de Cristo Jesus em meio ao islã serem tratados como idólatras ou pagãos por esses missionários engravatados enviados pelo governo Yankee ou vindos a esteira de seus exércitos invasores desejando prevalecer-se duma situação de miséria e de desespero com o intuito de impor sua cultura aos nativos, fazendo crer que nada sabem ou conhecem de Cristianismo ou de Jesus...

Nós não podemos aceitar ou admitir essa arrogância com que o Novo Evangelho dos papas e reformadores é anunciado perante as cúpulas e torres de nossas igrejas adornadas com o santo e vivificante sinal da Cruz.

Eu me envergonho por ser ocidental.

Tenho vergonha dessa prepotência e dessa soberba com que os novos apóstolos tomam a peito eliminar os ensinamentos ministrados pelos apóstolos de Cristo Jesus e que tem sido imaculadamente guardados em meio ao islã, a custa de sangue, por incontaveis séculos.

Não compactuo com os donatistas, sectários e fanaticos, mas compreendo a reação deles, como justa, mesmo não sendo esclarecida. É o modo com que os simples e rudes se opõe a estratégia de uma cristandade ocidental que enquanto faz belos discursos sobre a paz, a tolerância, etc aqui no Ocidente, continua a enviar seus missionários, apóstolos e evangelistas com o intuito de descristianizar o Oriente Cristão.

Sou obrigado a perguntar aos ocidentais, eu que sendo ocidental, tenho o orgulho de ter tido a audácia de passar a ortodoxia, resgantando a fé primitiva - anterior a reforma e ao papado - de meus remotos antepassados: porque os cristãos orientais precisam conhecer Lutero, Calvino, Knnox, etc o que isto lhes acrescenta em mátéria de salvação? Acaso não é o nome de Cristo que conduz aos céus? Ousareis dizer que no Oriente os que morrem por Cristo e que por amor a ele sofrem perseguição, não o conhecem senão de longe?

Não somos nós que pretendemos salvar a quem quer que seja, exceto que por salvar compreenda-se salvar da ignorância, do mal e do pecado. Vós no entanto quereis salvar os ortodoxos de vosso Diabo, de vosso inferno, de vosso deus vingador...  apesar de vossa linguaguem doce e polida.

Pois diversas partes do Cristianismo ocidental, enquanto frutos dum processo históricos lento e gradativo, são completamente ineptas para compreender a mentalidade Ortodoxa.

Compreendemos que os romanos desejem converter os protestante e vice versa. Não compreendemos o que o oriente, herdeiro do ensino ministrado pelos apóstolos, possa aprender com um ocidente em crise, com um Cristianismo cindido em dois partidos extremistas - um de incrédulos outro de crédulos - e arrastado junto a carro triunfal do neo paganismo. Os irmãos desejam Cristinizar? Porque não começam criatianizando os EEUA, a Inglaterra, a Alemanha, a Escandinávia, a França, a Holanda, a Suiça, etc  e divulgando vossas belas doutrinas aos ateus e materislistas. Vosso Cristianismo apto para seduzir os ortodoxos em sua ingenuidade e ignorância, vosso Cristianismo é inapto para operar entre as massas indiferentes e esclarecidas do Ocidente. Por ser tão bom vosso Cristianismo desejais leva-lo as massas ortodoxas do Oriente (que bem o mal tem tido um suficiente conhecimento do Cristo por meio da Litúrgia) E para que? Para torna-las filhas do ateismo e do materialismo duas vezes mais que vós...

O Ocidente encontra-se espiritualmente ferido e doente. Não é o Oriente, que já a mil e quinhentos anos resiste ao islã que precisa da vossa mensagem. Mas é como está escrito: coisa fácil é soprar cisco em vista alheia quando a nossa esta tomada por uma trave!!!

Voces não devem pois esperar que os ortodoxos assistam de braços cruzados vossas operações e intromissões religiosas no Oriente, terra santa que todos amamos intensamente.

A maior parte dos Ortodoxos, observando esta anômalia discursiva e a diferença entre a praxis daqui e a praxis de lá, desconfia da boa fé dos romanos e protestantes, encarando a moda ecumênica como uma estratégia calculada cujo objetivo é destruir nossas cristandades, tradições, cultura... Se ao menos houvesse seriedade no discurso... mas não há. É só observar o oriente repleto de missionarios romanistas, batistas, pentecostais, calvinistas, etc

Por isso nós que não somos fariseus hipócritas e que não conhecemos dissimulação, nos apresentamos como não ecumênicos.

Tolerâcia buscamos, confusão não queremos, arrogância detestamos.