domingo, 17 de julho de 2011

Espiritualidade Cristã: Ser místico ou ser profeta?

Quando o assunto é espiritulidade Cristã há sempre uma grande espectativa em torno daquilo que será dito, falado ou ministrado.

Via de regra as pessoas esperam fórmulas de oração mágicas que lhes franqueie a posse da bemaventuraça eterna já neste mundo... visões, milagres, curas, prodígios, êxtases, arrebatamentos... etc, etc, etc

Querem os Cristãos ser confortados na mórbida complacência que nutrem por si mesmos...

Aspiram por consolações de Deus.

Por graça, bençãos, vantagens...

Esqueceram-se por completo da cruz.

Agora é moda crer que o bom Cristão não só pode como deve viver folgadamente como qualquer pagão, materialista ou hedonista.

Há séculos que a consciência Cristã vem experimentando semelhante entorpecimento e num gráu cada vez maior.

Paulo havia dito que a mensagem da Cruz constituia um escândalo para os gregos e judeus... hoje a mensagem da cruz consegue produzir desconforto, incomodo e ira mesmo entre aqueles que se vangloriam de ser Cristãos...

Quando o que deveria incomoda-los era a presença do mal, do pecado, do ódio, da injustiça, da opressão tanto no mundo quanto nma Igreja enquanto sinal de que Jesus Cristo ainda não triunfou e de que seu Reino ainda não aconteceu...

É esta resistência ao mistério da Encarnação no mundo e essa verdadeira desencarnação de Cristo no seio da Cristandade que deveria escandalizar a tantos quantos blasonam-se de servir ao nome.

Esta fuga da Encarnação para os espiritualismo descarnado, para o neo platonismo, para o palamismo, para o carmelitismo, para o fatimismo, para a teologia da prosperidade é que deveria ser para a consciência Cristã um espinho na carne, fazendo-a sofrer e padecer no hôrto com seu Senhor e Mestre abandonado por seus discípulos.

Quando eu era menino gostava de escutar uma melôdia, que apesar de ter passado ao romanismo e a Ortodoxia, jamais deixei de ouvir. Uma de suas estrofes reza:

"Eu aqui com Jesus
A afronta da Cruz
Quero sempre sempre sofre e levar."

Quanta riqueza na letra e quanta pobreza na prática...

Quanta beleza na mensagem e quanta feiura na vida...

Quanta contradição não entre Cristo e a ordem iniqua deste mundo, mas entre Cristo e aqueles que afirmam ser suas ovelhas, seu povo...

Antes era esperado que os cristãos arrostassem as feras e enfretassem o fio da espada...

Hoje não cogitamos sequer que ele participe duma passeata com o objetivo de vindicar os direitos sagrados dum operariado cada vez mais explorado. Pois há quem tema receber alguns pingos dágua na manga da camisa... ou inalar um pouco de gás lacrimogêneo...

'Depravação funesta
Quanto me desgarrei' (fronte ensanguentada)

Que diriamos se o islan cá chegasse como aportou na Síria e no Egito há quase milênio e meio? Que diriamos se o islan ameaçasse toda essa carne amolecida e folgada, que só sabe berrar e estremecer, com o fio do cutelo?

Julgamos que seria o reinado da apostasia e que em menos de um século este Cristianismo fácil, que afastou a Cruz para longe de sí, se extinguiria por completo...

Não é a toa que há quase dois mil anos a imagem da santa e vivificante Cruz adorna as torres e cúpulas de nossas basílicas em meio a sociedade dos infiéis. Foi a mensagem representada por essa Cruz que afrontou o olhar do infiel e sustentou a fé e alimentou a piedade dessas Cristandades obscuras que miraculosamente tem sobrevivido a séculos de martirio sob o domínio do Corão!

Aqui no entanto a Cruz é escândalo, a menos que seja enfeite...

Nós deveriamos ter formado homens de verdade que após terem dobrado seus joelhos ante o madeiro santo, ficassem de pé e retornassem ao mundo com o intuito de reconstrui-lo segundo o modelo proposto por Jesus Cristo no seu Livro Sagrado: uma terra em que reinasse a paz, o amor, a tolerância, a misericórdia, a justiça, a fraternidade, etc... que formamos no entanto senão uma malta de imbecis que só sabe permanecer de joelhos afastada do mundo? Uma turba multa de fracassados que aspira a destruição deste mundo em meio as chamas? Uma caterva de alienados que só sabe olhar para os céus, quando lhes foi dito que olhassem o mundo, detectassem o mal e destruissem-no....

Pois neste novo Cristianismo quem não busca a glória e o triunfo temporal pela via sagrada da prece - que devia servir para nos aproximar das coisas divinas - é fracamente quietista.

No momento presente é bonito ser místico como o Palamas, a Terezinha, o Malafaia, etc É bonito ajoelhar, juntar as mãos, tremer, suspirar, mover as palpebras, tartamudear, etc Tudo isto é encarado como sumamente belo e essencialmente cristão, pois o ser cristão hoje é encarado como chamar a atenção ou ser espetaculoso...

É o cristianismo espetáculo, que por sinal se vende e se compra como qualquer mercadoria...

É o cristianismo que tornou Jesus altamente rentável...

'Quanto dinheiro nos tem rendido a fábula de Jesus Cristo.' é a senha do tempo presente...

Segundo este modo de se inverter e obscurecer a mensagem de Cristo, cristão é aquele que se veste com determinadas roupas, que ouve determinadas melôdias e que faz gravar o nome de Cristo ou partes da escritura em tudo quanto lhe pertence, enchendo os cofres e bolsos das fábricas e empresas que fabricam badulaques e amuletos cristãos sejam os escapulários romanos ou os colantes protestantes... cuidam em produzir um cristianismo angelical, invisivel e apenas interno, promovem no entanto o que há de mais externo, artificial e farisaico...

Antes o Cristão era aquele que portava uma só marca no fundo do coração e no recondito do espírito, testificando a posse desta marca através de suas ações ou seja interagindo com o mundo e buscando sua transformação. Hoje o Cristão é aquele que trás certas marcas sagradas sobre o corpo, impressas na roupa...
permitam dizer-me senhores que trajar-se diferentemente, comer diferentemente,  parecer diferentemente é sinal distintivo dos fariseus e escribas ou seja dos supremos adversários de Cristo... Cristão é aquele que vive diferente, que vive o Evangelho, que põe em prática os princípios e valores estabelecidos por seu Mestre e Senhor, que afronta tudo quanto não está de acordo com semelhante ideal... e seu sinal são suas obras, suas ações e operações, seu comportamento e não sua aparência!

Fariseu hipócrita, lava primeiro o inteior do prato e do copo...

Mas a Cristandade não tem lavado o interior do prato e do copo...

Querendo parecer externamente Cristã e servir a Jesus Cristo apenas com palavra, a Cristandade não só tem sabido conviver com a sujeira, sem dar mostra de repulsa como tem chegado a defende-la!!!

Quando todo Cristão deveria cumprir com seu papel de profeta chamado a denunciar as injustiças que acomentem seu irmão.

Como ousas chamar o outro de irmão no templo durante as cerimônias do culto e trata-lo como patrão durante a semana explorando-o como uma besta de carga durante a semana e pagando-lhe um salário de fome.

Quanto cinismo e hipocrisia!!! Pois quem haveria de tratar um irmão como os ricos e poderosos tratam seus operários e servos tão cristãos quanto eles.

Chamar de irmão aquele que se explora e do qual não se compadece é perder o sentido da palavra irmão, encarada com toda seriedade e respeito por nossos antepassados apóstolos e martires... nós só conhecemos palavras... brincamos com o sagrado...

Pois na igreja dizemos irmão, apertamos a mão (porque é bonito), abraçamos e até damos o ósculo santo da paz... mas que paz... Voto feito com os lábios e negado com o coração. Pois na vida classificamos o mesmo irmão como um 'capital humano' ou instrumento de produção...

Cabe antes honrar a Jesus Cristo do que aos homens mortais, dizendo o que deve ser dito quer agrade ou desagrade.

Afinal a missão de profeta esta posta mesmo para isso: para incomodar, afrontar, chocar, despertar e não para afagar o égo dos cristãos convencionais que aceitam a desordem estabelecida e que se postam sempre ao lado do poder, da autoridade, da ordem assente pela força e das leis iniquas...

O que esta errado deve ser consertado, o que esta torto endireitado, o que é iniquo denunciado e corrigido. O único caminho para o cristão face ao mal é a oposição pontual e marcada.

Os principios e valores enunciados no Evangelho devem ser postos em prática com fidelidade irrestrita e levados as últimas consequências, inda que as consequências do afrontamento sejam as cadeias, a cruz, a perseguição, a incompreenção, a calúnia, o infortúnio.

Negociar com os poderes iniquos deste mundo é vender o Salvador e atraiçoa-lo como novo e segundo Judas!!! Aquele que ama verdadeiramente Jesus, 'segue-o onde ele for' pois seus mandamentos não são penosos...

O amor aceita quaisquer sacrificios pela construção do Reino de Deus e não exara uma queixa. Pois vendo seu Senhor sofrer em seu corpo místico e completar sua paixão, deseja sofrer ao menos um pouco com ele por sua igreja...

Eis porque jamais me prestarei a este papel ridículo desempenhado pelos 'cleros cristãos' ... jamais haverei de afagar essa consciência burguesa que vive apenas de apenas de aparências enquanto se alimenta de homens vivos exercendo a injustiça. Jamais exercerei esta função de lacaio e bajulador dos poderosos que ensina-os a 'orar' ou dissimular alguma piedade...

Não cabe a mim ensinar quem quer que seja a rezar, pois Jesus Cristo ja fez isto quando disse:

"Rezai assim: Pai Nosso..."

E creio que um só Pai Nosso recitado com sinceridade ou seriedade bastaria para fazer de qualquer homem um santo e perfeito, mais do que um livro de horas ou um rosário que levamos horas e horas para executar...

Os homens no entanto desejam mostrar que são piedosos e por isso reunem-se nas esquinas e praças com suas Bíblias fazendo longas e barulhentas orações...

De fato o farisaismo nunca constituiu um grupo ou seita judaica, mas um éthos ou espírito presente em todas as agremiações religiosas, inclusive na Igreja de Cristo... são os tartufos...

Portanto espiritualidade para mim é isto: Ir do mundo ao céu e do céu a mundo num duplo movimento de subida e descida e não um refugiar-se no céu e lá ficar enquanto os filhos dos homens são vitimados pela injustiça.

E descer do céu ao mundo é colocar o dedo da ferida, é apontar, é mostrar o que esta errado, é denunciar, advertir, admoestar e não ficar de braços cruzados ou aplaudir a execução do que é mal, mormente quando levada a cabo por aqueles que deviam por em pratica a determinação de Jesus Cristo:

"Amai-vos uns aos outros."

Isto é ser profeta... pois enquanto o místico permanece nas nuvens alienado, o profeta desce e vai aos homens, não com o intuito de adivinhar o futuro deles - como se posse uma cartomante - mas com a missão de apontar suas infidelidades fasse a Lei do Amor e os imperativos da Justiça...

O místico se isola, foge, ameaça com castigos ilusórios... o profeta se mistura com o povo e esclarece-o.

Eu quero ser profeta!