domingo, 17 de julho de 2011

Incongruências do infernismo...




Estava eu a estudar uma das obras de Guaracy Silveira intitulada "Lutero, Loyola e o totalitarismo" (ed Metodista, 1943) quando a página 124 enfeixada no capítulo VI, intitulado 'A salvação e a doutrina das indulgências.' deparei-me com a seguinte afirmação:

'Na realidade a eternidade da condenação, consequência de um endurecimento da alma que torna IMPOSSIVEL qualquer restauração...'

Pouco antes no entanto havia escrito:

'Antes o inferno era apresentado com um lugar em que se exercia a vingança divina... e deus mesmo desejava punir e castigar os mortais seus vassalos.'

Foi então que percebi, mais uma vez e com bastante clareza a miserável incongruência em que jaz o cristianismo infernista.

E deplorei mais uma vez, de todo coração, a existência de semelhante doutrina.

Pois a crença na existência de castigos perpétuos e inextinguiveis nada tem de ociosa. Na medida em que toca ao cárater mesmo ou a idéia que fazemos de Deus, do Deus em que, como filhos, devemos espelhar nossas ações e pautar nossa conduta.

E no entanto o deus infernista é um deus frustrado, derrotado, impotente ou seja inapto para atrair, converter e transformar todas as criaturas livres e racionais... estamos pois diante de um deus imperfeito. Idolo podre e carmomido segundo a imagem dos homens mortais, sempre sedentos por vingança...

Embalde tenta o ex seminarista feito pastor, livrar a cara de seu deus, inculpando-o por semelhante estado de fixação no mal...

Conheço tão bem a teologia papista, quanto o ínclito pastor... e por isso posso dizer que conheço ja de cor os raciocínios capiciosos da apologética infernista.

Acaso dirá o doutro reverendo ou quem mais o queira, o que padre papista algum ousou dizer?

Ou seja que a critura finita no tempo e no espaço fixou-se voluntariamente no mal? Ousará dizer semelhante asneira o hábil advogado do infernismo?

Certamente que não pois todos sabemos que o homem não é nem eterno nem ilimitado, e que por isso mesmo jamais poderia, de per si, fixar-se no mal.

Logo o Estado responsável por fixa-lo em tão triste condição e por eternizar o mal não parte dele homem...

Convem pois perguntar aos padres de roma e aos pastores protestantes, paladinos do infernismo, sobre quem concebeu, decretou e por assim deu origem a semelhante estado?

Terá sido o destino? A necessidade cega? As parcas? As fúrias?

Penso que seria bem melhor atribuir decreto tão mesquinho a semelhantes entidades do que ousar atribui-lo aquele que foi descrito pelo apóstolo como sendo o 'amor' infinito...

Acontece que os cristãos não creem nem em destino, nem na necessidade cega e muito menos em fúrias, parcas, némesis, etc

Declaram no entanto que a tal condenação eterna não procede da vontade de Deus.

Neste caso como poderia existir se não corresponde a vontade de Deus?

Acaso pode existir qualquer coisa que seja contrária ou oposta a vontade de Deus?

Afinal, já sabemos que o mal e o pecado existem para serem aniquilados e destruidos pela correção da vontade humana.

Aqui no entanto estamos diante da eternização do mal e sustentando que Deus, sendo o Sumo Bem, não desejou a eternização do mal por meio de castigos eternos.

No entanto se Deus não desejou ou quiz tais castigos como poderiam vir a ser?

Com o intuito de vindicar o cárater divino de Deus Guaracy introduz na conversa o termo IMPOSSIVEL.

É IMPOSSIVEL QUE O HOMEM SE CONVERTA APÓS A MORTE, EIS PORQUE EXISTEM OS TAIS CASTIGOS ETERNOS...

Apesar da vontade de Deus...

Todo infernista sabe muito bem que um deus que oferece seu perdão de modo limitado é ele mesmo um deus limitado...

E assim se vê obrigado a mergulhar num fideismo cego e irracional, incompativel com o preceito divino que diz: 'Estai de prontidão para dar as razões de vossa esperança.'

Pois o infernismo carece de toda razão...

Restando a seus advogados, sejam romanos ou protestantes, como último e desesperado recurso, abrir os velhos e embolorados compêndios de Escolástica, nos quais há muita coisa de nobre e excelente, mas que falharam por completo ante a missão impossivel de conciliar a doutrina das penas eternas com a doutrina da inifinitude daquele Deus apresentado como sendo Amor pelo livro sagrado.

No entanto o pastor Guaracy sabe muito bem que para Deus nada é impossivel...

Os protestantes por sinal vivem apresentando deus, como sendo o deus do impossivel... Logo caso semelhante deus tivesse boa vontade e boa índole não lhe seria nem impossivel, nem díficil permitir que todos os homens se aproximassem de sí...

Por outro lado, se a conversão do ímpio é de fato impossivel, somos obrigados a admitir que deus mesmo determinou sua impossibilidade... restringindo sua misericórdia e limitando sua clemência.

Restrição que implica em ter violado sua própria natureza que é ilimitada e infinita...

Impossivel somente se Deus quizesse que fosse impossivel, neste caso porém a fixação da impenitência, a eternização do mal e o triunfo do pecado corresponderiam a sua vontade.

Repugna no entanto a maior parte dos infernistas admitir que o deus deles desejou e quiz o inferno ou seja a condenação perpétua de uma multidão de seres humanos... afinal como não encarar semelhante ato como um ato de capricho e de vingança de um deuzinho irritado???

Como apresentar ao homem instruido e civilizado um deus mal, mesquinho, imperfeito, vaidoso, vingativo??? Inferior ao padrão de moralidade que Jesus Cristo determina para o homem mortal...

Tal homem não pode converter-se porque morrendo passa a eternidade, exclamam os infernistas.

Sabemos no entanto que nosso próprio mundo finito e todo espaço material, jaz no Deus incorporeo e infinito e portanto na eteridade.

Que há pois de estranho na existência de outros referenciais e padrões de tempo - diferentes do nosso - presentes no ser divino e eterno no qual existimos, nos movemos e somos?

Sabedoria e poder a Deus não faltam para tanto...

Por outro lado se lhe falta vontade, devemos convir que ele mesmo é o responsável pela eternização do mal e do pecado...

Grosso modo: ou deus foi incompetente para encontrar uma solução melhor ou desejou positivamente vingar-se dos mortais que vivem neste mundo... penso que uma e outra solução sejam péssimas.

Afinal o Deus de amor é ele mesmo proprietário, dono e senhor da eternidade que existe apenas nele como coisa sua e sujeita a sua vontade e não como algo externo e superior a si...

Portanto dizer que as penas são inextinguiveis por causa da eternidade é obscurecer a questão...

Ou me direis que a eternidade não esta nele como simples atributo e que ele sendo todo poderoso nãopode dispor como quizer de seus atributos???

Portanto caso Deus assim o quizesse, seria perfeitamente possivel produzir um outro referencial de tempo para os falecidos, distinto da eternidade e que não só possibilitasse como facilitasse a conversão e a salvação dos mesmos e cremos que Deus assim o fez  pois é tanto mais digno de seu amor infinito.

Por outro lado se deus nem perdoa nem destrói, mas exerce castigo eterno sobre seres tão frageis e diminutos é necessário crer que odeia e que se vinga. Afinal que legislador injusto deste mundo determinaria que por crimes de natureza temporal os culpados fossem torturados para todo sempre?

Sabem os escolásticos que a única resposta possivel para esta inoportuna pergunta é admitir que a eternidade das penas dispostas para seres temporais e finitos, esta fundamentada na natureza eterna e infinita do Ser ofendido, no caso deus!!!

Exige a doutrina infernista que seus partidários admitam que Deus possa ser ofendido e de algum modo atingido em sua dignidade por nossos pecados!!!

E no entanto nós não passamos de atomos ou menor de partículas em comparação com o universo que nele jáz... e sendo poeira face ao universo material podemos ofender a deus...

"Sancta simplicitas!"

E se deus se ofende e não perdoa, é certo que se vinga!!!

Como não chegar a conclusão de que o deus infernista é uma espécie de policial ou de delegado celestial sempre prestes a punir, a castigar e a exercer vingaça contra as amebas que descumprem sua vontade...

Um deus que perde seu tempo fazendo churrasco com pulgas... e que se deleita em tortura-las pelos séculos infinito enquanto Caligula, Nero, Dominiciano, Cômodo, Hitler ou Mengele teriam se cansado.

Deus no entanto é infatigavel em torturar-se e em vingar-se... pobre deus, que ser infeliz ele deve ser!!!

Porque então não admitir logo que semelhante deus é ódio e  terror?

Temei oh infernistas, não ao Deus verdadeiro que é amor e perdão infinitos, mas ao menos o tribunal de vossa razão que protesta contra dogma tão ímpio forjado pelos bárbaros no recondito das trevas.

Sendo sadicos pintais vosso deus como um sádico.

Pois se de fato aceitais que ao menos algumas pessoas não serão redimidas vindo a sofrer castigos para todo sempre, ainda há espaço para o ódio em vossos corações.

Por outro lado se vos compadeceis de tais pessoas estais justificados, vosso deus, no entanto - que se recusa a compadecer-se, a dar uma nova chance e a perdoar - esta já julgado e condenado como um ser inferior a vós...

Mesmo porque um deus que se recusa e que recusa - quando poderia muito ter feito as coisas doutro modo - acolher, aceitar, reconciliar é um deus que comporta ódio dentro de sí, logo um deus humano, muito humano, demasiado humano... e não o Pai das Luzes e Deus de amor revelado por Jesus Cristo.

Resta-nos dizer que Jesus jamais empregou o termo 'aidios timoria' comumente empregado pelos fariseus com o intuito de descrever esta caricatura de Deus que pretende vingar-se eternamente dos miseráveis seres humanos.

Nem poderia ter sido diferente se considerarmos o significado mais profundo desta falsa doutrina que é o desejo inconsciente de tirar vingança, produto do ódio e do rancor, sentimentos essencialmente anti cristãos e incompativeis com a natureza divina e perfeita.

Discordo pois do grande luminar metodista pois não vejo de que modo a descrição da outra vida fornecida pelo Senhor Jesus deveria apavorar os fiéis tendo em vista o cárater terrivel dos sofrimentos destinados aos pecadores, pois tal e qual o apóstolo amado julgo que o amor verdadeiro lançe fora o temor. Atrição no entanto não é amor... e  sabe Deus quantos servem-no e adoram-no apenas por temor de possiveis castigos perpétuos e não por amor...

Não creio que este serviço e esta adoração provocados pelo medo correspondam de qualquer forma ao propósito divino mas apenas a considerações de natureza temporal ou política...

É justo que haja punição espiritual para aqueles que exortados com amor e carinho optaram conscientemente por prejudicar seus semelhantes durante todo percurso da tragetória terrestre. Certamente que tais pessoas não podem entrar na comunhão e na unidade divinas, permanecendo como que alienadas de Deus, que é o sumo Bem.

E não creio que estar separado de Deus por qualquer tempo seja coisa de pouca monta...

Que semelhante punição prolongue-se para todo sempre, julgo ser uma opinião muito primitiva e vulgar para não dizer sacrílega.