segunda-feira, 4 de julho de 2011

Reflexões sobre o Evangelho, o farisaismo, os excluídos, a intolerância, a liberdade e a homofobia...



'Nel mezzo del camin...' como diz o vate italiano, partindo do centro da cidade vinha eu só comigo e mais ninguém, e enquanto vinha aproveitava o dom divino da soledade para meditar e pensar sobre o que deveria escrever neste espaço.

E enquanto vinha eu e meus botões, meus botões e eu, tive a feliz oportunidade de cruzar com um de nossos irmãos de infortúnio...

Era um outro Bartimeu privado de contemplar a luz do sol e a claridade do céu que vinha com sua bengalinha, tateando em meio ao negro sudário que o envolvia em trevas, aqui fora tudo era alegria, dentro daquela alma reinava a tristeza... pois o pobre por não atinar com o caminho vinha as apalpeladas, tropicando e com sério risco de cair e machucar-se.

Quando ele passou por mim parei e saudei-o.

Como sói ele reconheceu prontamente minha voz e respondeu: como vai doutorzinho? Acabei de falar com a sra sua mãe.

Na verdade eu havia ido a Frei Gaspar para cumprir um mandado de minha progenitora e tinha certa pressa de voltar a casa e dar-lhe notícia sobre o negócio de que fora por ela incumbido.

Trocadas as curtíssimas frases acima, separa-mo-nos e segui cada qual na direção oposta sem que ele nada ousasse pedir e eu nada quizesse lhe oferecer...

E já havia dado dúzia de passos quando me veio a cabeça a seguinte passagem do Evangelho: 'A quem te pede para caminhar cem passos, caminha duzentos com ele.'

Ah leitor benévolo, como é fácil ser ortodoxo, religioso, crente, espiritualizado... e como é díficil ser Cristão!!! Porque não ocorreu a Jesus determinar algumas genuflexões em direção de Jerusálem. Seria tão cômodo...

O Evangelho no entanto é compromisso e como tal incomoda...

Disse para mim mesmo: O cego não solicitou minha companhia ou ajuda, portanto não estou obrigado...

De fato o fermento do farisaismo envolve-nos e solicita-nos a todo instante.

É a hora da tentação em que somos sugestionados pelo égo, porque Deus, sendo bom e onisciente a ninguém tenta ou deseja perder.

A graça de Deus no entanto capacita-nos a vencer a tentação e a evitar todo pecado, tal e qual Jesus venceu a morte e a sepultura...

E se o pobre cego viesse a tombar e ferir-se? Que faria Jesus? Qual espírito fez com que ele decretasse semelhante norma? Devo fixar-me na letra ou buscar o princípio?

Pois se como um escriba fixo-me na exatidão da letra deixo o cego ir sozinho... mas se, como adorador e servo fiel, busco o princípio, a lição ou o valor que esta para além da letra, encontro o serviço fraterno e estou obrigado a acompanhar o Bartimeu.

Nesse momento ocorreu-me o seguinte pensamento: Como é fácil sofismar o Evangelho e torce-lo segundo nossas conveniências já negando a letra e embarcando nos devaneios do espírito imaginoso e fértil, já tornando-se escravo da letra e abandonando o espírito... destarte por uma porta chegamos a incredulidade e ao ceticismo e por outra ao comodismo...

Pensei no livre examinismo e os riscos que acarreta a espiritualidade Cristã.

Pensei no dilema do protestantismo: de um lado uma incredulidade sem límites característica do 'credo' liberal e do outro a credulidade sem límites, o obscurantismo, o fundamentalismo e suas atitudes farisaícas...

Pensei em Silas e Caribde... em oito e oitenta...

E também que a virtude está no meio e o erro nos extremos ou melhor nos extremismos das credulidade que incorpora elementos judaicos e do ceticismo que rejeita elementos genuinamente Cristãos.

Pensei na falta duma sucessão apostólica, duma tradição, duma consciência histórica, dum elemento norteador que impedisse a letra de ter seu conteúdo completamente alterado e a mensagem original de ser falseada.

Pensei nas reflexões do Dr Seino sobre a intolerância protestante cada vez mais acentuada sob todas as formas de discriminação, opressão...

E fixei-me neste paradoxo.

Quando analisamos o protestantismo moderno - e refiro-me ao protestantismo que crê e que se apresenta como ortodoxo e não no protestantismo ao qual os 'ortodoxos' negam até mesmo o título de cristãos - percebemos quão esta amancebado com os poderes deste mundo e as estruturas perversas que o caraterizam, como tem posto o sexo a serviço da política numa direção puritanista, como tem pugnado contra o pobre (apresentado pela T P como um verdadeiro pária ou réprobo), a criança, a mulher, o homossexual e a própria natureza... e como tem levantado tantas bandeiras obscuras e vergonhosas do capitalismo, do castigo infantil, do machismo, da homofobia, da xenofobia, do escravismo, da homofobia, do desprezo pelas formas inferiores de vida, etc

Claro que existem excessões nobres e louváveis, as quais nem por isto deixam de ser verdadeiras excessões. E é tão iniquo nega-las como supervaloriza-las. Pois Jesus jamais cogitou em fazer a virtude uma excessão na sociedade criada por sí...

Segundo cremos o Evangelho deve ser o dinâmo do bem e o motor da virtude ou seja um elemento santificador em cujo seu o mau e o pecado devem ser excessões e regra e não a regra.

Ousaram negar meus bons amigos o cárater intolerante - tão parecido com o dos antigos fariseus e escribas - e tacanho do protestantismo ortodoxo, que chega - céus - a atacar até mesmo a ciência e fazer praça da ignorância e do obscurantismo?

Criado no seio do protestantismo continuo a observa-lo e a vigia-lo atentamente e bem de perto.

E concluo que continua a ser o que sempre tem sido: intolerante, fanático e as vezes até violento como nos mostram os jornais.

E no entanto os protestantes nossos amigos folgam a apresentar-nos sua organização como matriz de nossas liberdades contemporâneas...

Penso em Guaracy Silveira e em 'Lutero, Loiola e o totalitarismo' (Ed Metodista 1943) cuja capa tenho diante de mim.

Van loon (in 'Tolerance') disse bem quando disse que o protestantismo auxiliou a plasmar as liberdades  Gosto ddaquele Jesus que dissemodernas em interação com o romanismo na medida em que enfraqueceram-se um ao outro e deram espaço a incredulidade e ao secularismo.

Posto está que a liberdade é fruto de um processo histórico indeterminado e não da ação consciente do protestantismo ou dos reformadores, cujo principal interese foi tomar o lugar da igreja romana enquanto opressora de consciencias. Eis porque Calvino exerce sua liberdade resistindo aos apelos do Cardeal Sadolet apenas para suprimir a liberdade de Servet e impedi-lo de interpretar a Bíblia a seu modo...

Diante de todo este imbroglio abro a verdadeira e única palavra de Deus que é o Evangelho e deparo-me logo com esta frase: 'Não podeis colher figos dos espinheiros ou abrolhos.'

Estará equivocado o Mestre dos Mestres?

Laborará em erro o livro sagrado?

Foi obscurecida a palavra da vida eterna?

Sou constrangido por minha experiência a insistir que os reformadores jamais puzeram-se honestamente ao lado da liberdade e da tolerância.

Que Seb. Castellion, Bladrata, Ochino, Karlstadt, Gentile, Servet e outros párias falem por mim...

O romanismo tornou-se intolerante na medida em que apartou-se do Catolicismo Ortodoxo. O protestantismo teve a desventura de nascer intolerante e de já no berço devorar seus próprios filhos, eis o que disse Th Munzer pouco antes de subir ao cadafalso.

Diante desta contradição inexplícavel permitam-me desconfiar do protestantismo e teme-lo eu que venero e amo a liberdade que acompanha o Espírito da verdade...

Não pude deixar de lembrar do pastor/juiz que sob a alcunha de Bíblia pretender impor-nos a cultura judaica, a lei de Moisés, as instituições do velho testamento, o infalibilismo paulino, a inspiração verbal e outras crenças religiosas que não sua mas não da república que é leiga e estribada em valores como a liberdade e a cidadânia.

Eis que os protestantes, cujo livre examinismo e a anarquia espiritual atingiu até mesmo a Santa Trindade e a divindade de Cristo erijem novos dogmas e dogmas estranhos como a homofôbia...

Ernesti, Augusti, Krug, Wix, Welker, De Wette... e outros asseveram que dogma e livre exame não combinam...

Pois ou cremos e se cremos não duvidamos ou examinamos justamente porque duvidamos e não cremos como deveriamos crer.

Não compreendo pois como os livre exaministas partidários da homofobia nutram a vã pretenssão de ter atingindo a verdade se outros tantos livre exaministas compreendem os mesmos versículos do mesmo livro doutra maneira não havendo como demonstrar que uma interpretação é melhor do que a outra ou superior...

Uma coisa é discordar da interpretação do outro individuo para crer na minha e outra totalmente distinta é querer impor minha interpretação individual aos outros... pois aqui o exame já não é livre mas dirigido ou limitado...

Percebí verdade quando fiz curso de teologia pentecostal, como observador ortodoxo, na IEDP.

Em cada aula de ética Cristã, sobre cada tema: guerra, pena capital, capitalismo, machismo, etc eram oferecidas no mínimo duas interpretações; pró é contra e uma aluvião de comentários.

Quando chegou o dia em que se deveria discutir a homossexualidade qual não foi minha surpresa ao ouvir do professor: aqui cabe apenas uma interpretação principiando a defender a homofobia como um dogma ou uma base da fé Cristã. Eis porque resolvi analisar a questão tanto mais a fundo pois tamanha injustiça e hipocrisia incomodou-me.

Quer dizer que discutir os valores propostos pelo Evangelho como a paz, a justiça, a vida, etc é permitido!!! Mas discutir um tema que não foi abordado explicitamente por Nosso Senhor Jesus Cristo é permitido!!! Percebi que naquele momento minha concepção de um Cristianismo centrado no Evangelho ou nas palavras de Jesus era atingida em cheio e que o próprio Cristo era atingido na singularidade de sua soberânia.

O fato é que há muito vinha observando o sábio conselho do apóstolo - Examinai TUDO e retei o que é bom - e lido inumeras obras compostas por protestantes liberais, espíritas, agnóstas, etc em torno do Evangelho e de seus valores, de Jesus e seu comportamento, etc Numa mão portava o Evangelho e noutra os comentários com o intuito de po-los a prova.

Fois assim que conheci um novo Jesus, um outro Jesus, totalmente diferente daquele Jesus mais ou menos legalista e puritano que me fora apresentado pelo protestantismo e que não passava dum hibrido do qual faziam parte Moisés, David, Salomão, etc

O Jesus conformista, reacionário, puritano, convencional; ou seja, machista, homofóbico, milagreiro, etc

O Jesus real no entanto estava comprometido com todas as minorias regeitadas e perseguidas pelo poder constituido e pelas estruturas políticas.

Foi assim que tive a ventura de conhecer o Jesus que acolhia as criancinhas de braços abertos.

Enquanto Pedro regeitava-as e os líderes protestantes ensinam que o bom pai deve 'Educar seu filho com a vara.', tecendo a apologia da violência e da agressão face a um ser frágil em formação.

Para os homossexuais a margilanização, para os pais criminosos que espancam seus filhos como animais irracionais a Liberdade...

Também conheci o Jesus que recebe a detestada cananéia e cura sua filha.

Enquanto o maior país protestante do mundo é um poço de preconceito racial (K K K)

Conheci o Jesus que acolhe o pecador arrependido e disposto a fazer penitência (Zaqueu)

Enquanto nossos 'cristãos' só sabem julgar, condenar, remeter ao inferno... achincalhar... ofender...

Conheci o Jesus que manda trazer a mãe junto com o jumentinho para que não sofressem a falta um do outro.

E os irmãos que diziam: Não se importe com os animais afinal eles não teem alma nem esperança...

Tal qual o apóstolo Paulo, que dizia: Deus não se ocupa dos bois.

Como se não tivesse concebido e criado os bois...

Conheci o Jesus que veio trazer a boa nova aos pobre e 'derrubar os poderosos de seus tronos'.

E não esse outro Jesus aliado dos ricos e esteio dos tronos, cujos pseudo representantes abençoam armas e canhões.

Conheci o Jesus que vivia cercado por mulheres e que ousou conversar a sós com a mulher samaritana a respeito de um assunto religioso.

Conheci o Jesus que disse: bemaventurado o pacífico e o misericordioso e não esse ídolo podre que tolera a pena capital.

Conheci o Jesus que veio para libertar  homem na verdade e não esse símulacro de Salvador que admite o escravismo.

E se os protestantes gostam de exame e interpretação livre conhecí o Jesus que abordou com naturalidade os 'Eunucos feitos pela mão do céu'... e que além de elogiar a fé do centurião romano que confesou-se indigno de recebe-lo em sua casa, ainda curou seu... criado, é claro, porque os antigos romanos eram muito humanitários, benevolentes e preocupavam-se muito com seus... criados rsrsrs...

Gosto daquele Jesus que disse que as prostitutas convencionais entrarão no céu antes das prostitutas espirituais ou seja do fariseu, do escriba, do doutor da lei e do teólogo de gabinete...


Este Jesus conheci, o Jesus do Evangelho, que violava todas as conveniências sociais estabelecidas pelos fariseus é se opunha a todos os preconceitos estabelecidos e arraigados.

É a este Jesus contestador e revolucionário que revenrencio e não ao Jesus convencional.

Eis porque esse Jesus libertador foi supliciado pelos puritanos em meio a dois ladrões.

Minha consciência passa diariamente diante deste Jesus e do tribunal do seu Evangelho, não para ser aliviada e  tornar a pecar mas para cobrada e caminhar reta e honestamente, irrepreenssivel diante do Sol da justiça.

Por isso sou constrangido a assumir a causa da mulher, da crianças, do estrangeiro, do escravo, dos irracionais, do penitente e do homossexual pelos quais Jesus quiz encarnar-se e cujos fardos pesados veio remover.

Pessoas há, religiosos há e cristãos há, que creem que o homem só é capaz de defender aquilo que o benificia diretamente ou lhe traz qualquer vantagem... e que assim sendo transferem seu modo de agir e pensar para os outros...

Compreende-se pois que os Cristãos que são proibidos de acusar e/ou julgar tenham acusado-me de ser homossexual.

Como se se trata-se de algum crime...

Tal acusação apenas faz-me morrer de rir.

Se ao menos minha consciência me acusa-se... então já seria alguma coisa.

De fato eu me sentiria ofendido caso me acusassem de regeitar a divindade de Cristo, a presença real do Senhor na Eucaristia, A Evkelaion, a Virgindade perpétua de Maria, a comunhão dos Santos ou qualquer outro artigo de fé pertinente a divina instituição cristã, como fazem os protestantes. Pois neste caso eu estaria me rebelando contra a vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo e - no meu caso - pecando contra ele. Eu no entanto, sou dos submissos e recebo dos Bispos e sucessores dos apóstolos a integralidade da revelação...

Caso tivesse matado, roubado, mentido, traido, etc sentir-me-ia culpado e buscaria a penitência e a reparação de meus atos ao invés de profanar o sangue sagrado do Senhor.

Portanto a homossexualidade não me causaria vergonha alguma, pois encaro-a como um fenômeno comum, inclusive no Reino animal e não como uma aberração.

De minha parte, quando estudei psicologia e sociologia, aprendi de meus venerandos mestres, que eram cientistas e pesquisadores consagrados que biologicamente falando somos todos bissexuais, embora sejamos educados para heterossexualidade numa cultura heterosexual. Mas eu não promovo ao status de sacralidade ou de dogma os costumes dos antigos hebreus.

Fico apenas com o Evangelho que é divino.

Quanto aos que me tomam por homossexual deveriam tomar-me igualmente por estrangeiro, por mulher, por pobre, por criança, por animal irracional, etc

Mas sou apenas um Cristão em sintônia com Jesus, que cuida de honra-lo na verdade vivendo seu Evangelho ao invés de gritar pelas esquinas "Senhor, Senhor."

Tornando ao caso do juiz pastor, que ousou contrariar a sentença do STF que é uma esfera hierarquicamente superior a sua, julgo que esteja confundindo as coisas ou misturando o profano com o sagrado.

É aos ministros do S T F e não a qualquer magistrado ou leigo que cabe a tarefa de interpretar corretamente a constituição e de dar-lhe sentido. Tal e qual a lei das citações determinava que caso Paulo, Gaio, Ulpiano, Modestino e Papiniano estivessem cindidos o veredito cabia a Papiniano e não ao juiz...

Porque o direito reconhece instância superior e como ele a medicina e tudo quanto é sério na vida humana e na sociedade. Nada que seja de fato importante fica entregue a imaginação desbragada dos individuos.

Quanto mais o livro sagrado...

Não se introduza pois o método do livre examinismo na instituição jurídica, mas observer-se a hiearquia. A menos que os protestantes queiram já reformar o direito como certo teólogo calvinista.

Do contrário ficaria também ele cindido em inumeras seitas, e a medicina, e a engenharia...

É exatamente o que se sucede com aquela parte da congregação que aderiu ao livre examinismo e seu eu estivesse do lado de fora - como budista ou muçulmano - observando tantas seitas com nomes esquisitos e que regeitam praticamente todos os pontos da fé - como a presença real, a divindade de Cristo, o Domingo, etc - jamais viria a abraçar o Cristianismo.

Choca-me o fato de que os livre examinadores, estando divididos entre inumeras correntes desejem arvorar a homofôbia como dogma e apresentar o Cristianimo sob a capa de sexismo ou puritanismo.

Eu protesto solenemente contra todas estas contradições, paradoxos, incoerências, manobras e injustiças.

Eis porque prefiriria ser incrédulo do que fundamentalista, sectário ou fanático.

Bendito Seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo para todo sempre.