sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Um pouco mais de dúvida é preciso

É comum escutarmos por aí que dúvida é coisa de cético, e que a fé é a certeza das coisas que não vemos e não podemos perceber por nossos sentidos, ainda mais se somos protestantes evangélicos, que creditamos nossa salvação única e exclusivamente pela fé.

Entretanto, sinceramente, penso que a fé não exclui necessariamente a dúvida, e mesmo esta pode ser um caminho que nos leva a fé, justamente pelo fato da mente não poder comportar tudo o quanto diga respeito à Deus e às coisas espirituais.

Mas o motivo de minha postagem não é uma meditação fé X dúvida, mas sim pensar um pouco mais no binômio “dúvida X certeza”.

A dúvida que nos leva ao questionamento é que nos torna mais humanos. Proíba-se o questionamento, e barrarás o desenvolvimento, e a nossa própria condição de seres humanos. Quem tem a verdade, não pode temer questionamentos, antes, desejá-los para que ela, a verdade alegada, apareça ainda mais.

Um homem bomba que mata dezenas e centenas de pessoas é alguém imbuído de certezas. Muitas atrocidades cometidas em nome de ideologias como o nazismo, fascismo, stalinismo são perpetuadas no tempo em nome de certezas, e não de dúvidas. Quando fanáticos invadem um templo, quebram seus objetos, colocam fogo em coisas e pessoas, fazem isso em nome da certeza que alegam possuir. Por isso, pode-se dizer que o que causa guerra e dores à humanidade não são as dúvidas, mas sim as certezas fanaticamente defendidas.

No cristianismo, temos sempre o espaço para a dúvida. Paulo fala que o conhecimento que ele tem da verdade e de Deus era parcial: Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido (1 Cor 13.12). Portanto, a verdade não pode ser fanaticamente defendida, ainda mais a verdade religiosa, pois ela é sempre parcial, muito mais intuitiva que empírica, muito mais sentimental que racional.

Daí, o caminho proposto pelo apóstolo, na mesmo capítulo da mesma carta é a certeza do amor, pois este, segundo a descrição que dá, não promove a destruição, mas tão somente o bem comum, o bem geral, sendo ele próprio a essência de Deus, dom principal, que jamais irá passar (sola caritas).