sábado, 9 de junho de 2012

Panorama do Novo Testamento - O evangelho de Marcos

O EVANGELHO DE MARCOS


Autoria



Em princípio, é um evangelho anônimo, pois o autor não se apresenta em momento nenhum.

Papias, bispo de Hierápolis, até 130 d. C. é o mais antigo escritor cristão a dizer que foi Marcos quem escreveu este evangelho. Esta informação está na História Eclesiástica, de Eusébio, que foi escrita em 325 d. C (H.E. 3.39.15):

“E o presbítero dizia isto: Marcos, que foi intérprete de Pedro, pôs por escrito, ainda que não com ordem, o quanto recordava do que o Senhor havia feito. Porque ele não tinha ouvido o Senhor nem o havia seguido, mas como disse, a Pedro mais tarde, o qual transmitiu seus ensinamentos segundo as necessidades e não como quem faz uma composição das palavras do Senhor, mas de tal forma que Marcos em nada se enganou ao escrever algumas coisas tal como recordava. E pôs toda sua preocupação em uma só coisa: não descuidar nada de quanto havia ouvido nem enganar-se nisto o mínimo”.

E muitos autores posteriores a Papias ensinam a autoria de Marcos (Irineu, Tertuliano, Clemente, Orígenes, etc), mas muitos críticos dizem que tais fontes não são inteiramente confiáveis, visto serem secundárias (ou seja, todas usam Papias como fonte primária para tal informação). Entretanto, Carson afirma que nunca houve nenhuma controvérsia acerca da autoria de Marcos na igreja primitiva, e que nada neste evangelho impede de aceitarmos a tradição que nos afirma que foi ele quem o escreveu1. O relacionamento próximo de Pedro e Marcos é confirmado no Novo Testamento (1 Pe 5.13).


Local de Origem

A tradição praticamente majoritária, porém, não unânime, é que foi escrito de Roma. Há algumas evidências no Novo Testamento de que Marcos possivelmente esteve em tal cidade. Se Paulo escreveu a epístola aos Colossenses de uma prisão romana, Marcos estava lá (Col 4.10). Possivelmente, Marcos foi trazido à Roma por Timóteo a pedido de Paulo (2 Tim 4.11). Se a “Babilônia” for uma referência à Roma, na primeira epístola de Pedro, Marcos esteve com o mencionado apóstolo naquela cidade (1 Pe 5.13). Há alguns “latinismos” neste evangelho (legión – 5.9; spekoulátor – 6.27; kodrantēs – 12.42; praitōrion – 15.16; e vários outros). Marcos escreveu sobre um tal de Rufo (15.21), que provavelmente era conhecido dos leitores, e se for o mesmo Rufo citado por Paulo, ele morava em Roma (Rm 16.13). Apesar destas evidências, há muitos que a contestam, e procurar defender a origem de tal evangelho em outra localidade.



Data

O incêndio à Roma provocado por Nero se deu em 64 d. C. Entretanto, em Atos dos Apóstolos, não há nenhuma alusão a tal fato, o que faz com que tal obra fora escrita provavelmente antes da mencionada data. Segundo historiadores romanos e Flávio Josefo, a data mais provável da chegada de Festo a Cesaréia é de 57 d.C. (At 25.1). A viagem de Paulo para Roma duraria então entre 57 a 58 d. C. Os dois anos descritos em Atos 28.30 estariam entre 58-60 d.C. Então, a data de Atos é entre 60 a 64 d. C. O evangelho de Lucas é anterior a Atos (Atos 1.1), tendo provavelmente sido escrito entre as mencionadas datas. Se Lucas empregou Marcos como fonte, conforme se crê majoritariamente, então este foi escrito provavelmente no final da década de 50 d. C2.



Destinatários

Certamente, um público cristão gentílico; provavelmente, romanos. Quanto a isso, há unanimidade.



Propósito

As testemunhas oculares estavam morrendo, de modo que era necessário um registro escrito dos acontecimentos referentes à Jesus. Entretanto, este evangelho não é uma biografia propriamente dita (nada fala sobre o nascimento, sua descrição física, etc). Tal obra, conforme ela anuncia, é um “evangelho”, que significa “a recompensa pela transmissão da boa nova” (Broadus), que veio posteriormente significa “a própria boa nova” (hebraico “bissar”). E o evangelho diz respeito à vida, morte, ressurreição e exaltação de Jesus, o que é descrito neste e nos demais sinóticos. Entretanto, não é fácil definir um propósito único em tal obra, haja vista a riqueza de temas que se pode dela extrair.

Uma de suas características marcantes é que se trata de um evangelho de ação. A palavra “imediatamente” ocorre mais de quarenta vezes.

A Galiléia é o ponto de partida da missão de Jesus, e é para lá que ele promete reaparecer aos discípulos, enquanto que Jerusalém é o lugar do ódio judeu contra ele. É um grande contraste, pois denuncia que o centro religioso judaico havia se pervertido, enquanto que um local mais humilde tornara-se a região da manifestação divina (14.28, 16.7). Neste evangelho, há uma grande ênfase na incredulidade dos líderes judeus (3.6; 7.6; 8.31; 9.31; 10.33; 11.18; 11.28; 12.12; etc). Em Marcos fica demonstrado que a salvação “escapou das mãos dos judeus” (Kümmel).

Alguns verificam duas divisões gerais básicas em Marcos. Até 8.26, temos uma concentração nas atividades de Jesus, com os exorcismos, curas e ensino; e após, inicia-se o caminho para o seu sofrimento e paixão, demonstrando que “Jesus é o Filho sofredor de Deus” (Carson), daí, toda a narrativa serve de inspiração ao desafio do seguimento de Jesus até as últimas conseqüências (8.34-38). Uma mensagem muito importante, principalmente se levarmos em consideração que o contexto em que foi escrito foi o de perseguição aos cristãos.

O segredo messiânico. Muito se especulou porque Jesus mandou tantas vezes que se guardasse segredo da sua atividade (1.34, 44; 3.12; 5.43; 7.36; 8.30; 9.9), não se chegando a um consenso. Fato é que tal segredo foi violado várias vezes (1.24; 1.44). O próprio Jesus fazia alusões rápidas de quem era (2.19). O curioso é que somente depois de 8.27 (a confissão de Pedro) é que Jesus começa a falar claramente da sua paixão e da sua ressurreição (8.31; 9.30-31; 10.33-34; 14.22-25; 14.27-28). Há, então, uma revelação progressiva em Marcos, e os discípulos demoram bastante para compreender o seu mestre.

Uma grande contribuição de Marcos foi, sem dúvida, oferecer a matéria prima para a elaboração dos demais sinóticos, enfatizando que, os acontecimentos que ensejam a nossa bem aventurança se concretizaram na história, passível de ser vista e observada por todos os agentes históricos de então. É, provavelmente, o que de mais antigo temos em termos de um relato acerca de Jesus.

O término de Marcos. Bons e antigos manuscritos e escritores cristãos primitivos só conhecem Marcos até 16.8. portanto, não se sabe se a partir daí, o que se segue é parte integrante do texto original, ou se foi “terminado” por outra pessoa.


Conteúdo



Introdução: O princípio do Evangelho (1.1); O Ministério de João Batista (1.2-8); O batismo de Jesus (1.9-11); A tentação no deserto (1.12-13). O ministério de Jesus na Galiléia (1.14-6.29): Jesus prega arrependimento, pois o reino está próximo (1.14-15). Chamada de Simão, André, Tiago e João (1.16-20). Cura e exorciza em sinagoga de Cafarnaum (1.21-28). A cura da sogra de Pedro e muitos outros (1.29-34). Jesus vai por toda a Galiléia, ensinando, exorcizando e curando (1.35-2.1-12). Vocação de Levi (2.13-22). Discípulos colhem espigas no sábado suscitando oposição dos fariseus (2.23-28). Jesus cura, na sinagoga, um homem da mão ressequida e fariseus e herodianos conspiram pra matá-lo (3.1-6). Grande multidão segue Jesus, de várias localidades, e ele ensina de um barquinho, e curava e exorcizava (3.7-12). Jesus escolhe os doze (3.13-19). A multidão não dá sossego pra Jesus (3.20). Os parentes de Jesus acham que ele está fora de si (3.21). Jesus acusado pelos escribas de discípulo de Satanás e possesso de um demônio – a blasfêmia contra o Espírito Santo (3.22-30). Tensões familiares – “quem é minha mãe e meus irmãos?” (3.31-35). Diversos ensinos de Jesus por parábolas: semeador, a candeia, a parábola do reino comparado à semente, o grão de mostarda (4.1-34). Jesus expulsa demônios de um gadareno e os coloca sobre os porcos, assustando moradores locais (5.1-20). A mulher do fluxo de sangue é curada ao tocar em Jesus, e este ressuscita a filha de Jairo (5.21-43). Jesus é recebido com incredulidade em Nazaré (6.1-6). Jesus envia os doze de dois em dois, dando-lhes autoridade sobre os espíritos imundos e dá várias instruções (6.7-13). A execução de João Batista (6.14-29). O ministério de Jesus ao redor da Galiléia (6.30-9.50): A primeira multiplicação de alimentos (6.30-44). Jesus anda sobre o mar (6.45-52). Jesus cura em Genezaré (6.53-56). Embate contra os escribas e fariseus por conta da tradição dos anciãos (7.1-23). A expulsão do demônio da filha da mulher grega sírio-fenícia (7.24-30). Jesus cura um homem surdo e gago (7.31-37). A segunda multiplicação de alimentos (8.1-10). Nova discussão com os fariseus que tentam Jesus, pedindo um sinal do céu (8.11-13). Jesus adverte contra o fermente dos fariseus e de Herodes (8.14-21). Jesus cura um cego de Betsaida (8.22-26). A confissão e a repreensão à Pedro (8.27-33). O custo do seguimento a Jesus (8.34-9.1). A transfiguração (9.2-13). Jesus expulsa um espírito mudo que maltratava sua vítima após o fracasso dos discípulos (9.14-29). Outro anúncio de sua morte e ressurreição (9.30-32). A discussão de qual discípulo era o maior (9.33-37). Não andam conosco, mas são dos nossos (9.38-41). Outros ensinos: ai dos responsáveis pelos tropeços, a radicalidade contra os tropeços – mãos, pés e olhos, a metáfora do sal (9.38-50). Jesus a caminho e em Jerusalém (10.1-16.8): a pergunta sobre o divórcio feita pelos fariseus. Jesus abençoa os pequeninos. O jovem rico. A recompensa do discipulado. Outro anúncio sobre a morte e ressurreição. A ambição de Tiago e João. A cura do cego Bartimeu (10.1-52). Jesus em Jerusalém: a entrada triunfal. Jesus amaldiçoa a figueira. A purificação do templo. A lição da figueira seca. Sacerdotes, escribas e anciãos questionam a autoridade de Jesus. A parábola dos maus lavradores que maltrataram os servos do seu senhor e mataram seu filho, lançada contra as autoridades de Israel. Tentativas de surpreender Jesus em alguma contradição: fariseus e herodianos perguntam sobre impostos, saduceus perguntam sobre a ressurreição, e um escriba pergunta sobre o maior dos mandamentos, tendo sido elogiado por Jesus. Jesus faz o questionamento acerca de Cristo e de Davi. Jesus ensina a ter cautela em relação aos escribas. A oferta da viúva pobre. O sermão profético: não ficará pedra sobre pedra, os falsos cristos, guerras e rumores de guerras, terremotos, fomes, perseguição, desconfiança familiar, ódio aos discípulos, destruição, tribulação, a vinda do filho do homem, a imprecisão do dia e da hora, exortação à vigilância (11.1 – 13.37). A narrativa da paixão: principais sacerdotes e escribas planejam contra a vida de Jesus. Jesus é ungido para o seu enterro. Judas negocia a traição. A ceia: Jesus anuncia que será traído e entregue por um dos doze; o partir do pão e a comunhão do cálice; a nova aliança. Jesus anuncia que os discípulos o abandonarão, e Pedro resiste a tal idéia. A agonia de Jesus no Getsêmani e a sonolência dos discípulos. Jesus é entregue pelo traidor com um beijo e todos o abandonam. Jesus perante os principais sacerdotes, anciãos, escribas, todo o Sinédrio, e Caifás, em uma tentativa de acusá-lo com falsas testemunhas, até ser finalmente acusado de blasfêmia e agredido. Pedro nega Jesus. Jesus entregue a Pilatos. A multidão prefere Barrabás. Jesus é maltratado pelos soldados e crucificado. Jesus enterrado. (14.1 – 15.47). A ressurreição e ascenção: o sepulcro vazio. A ressurreição é anunciada às mulheres. Aparições: Maria Madalena, a dois discípulos, aos onze. Ordena a pregação e o batismo. Os sinais. Ascensão. Atividade missionária (16.9-20).
 
 
Obs: estes esboços se baseiam na bibliografia já mencionada no primeiro estudo. Foi preparada para a utilização no curso "Panorama do Novo Testamento" que tenho ministrado na Escola de Servos Líderes, ministrada na Igreja Evangélica S. O. S. Jesus. Estes estudos têm seguido uma orientação evangelical em seu conteúdo, e são de cunho relativamente conservadores em suas conclusões.